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“Eu doei meus óvulos – e descobri algo que não queria”

"Sim, também é possível doar óvulos, e eles são muito mais valiosos do que espermatozoides. Eu doei os meus pelo dinheiro, mas acabei descobrindo algumas coisas sobre mim no meio do caminho. Inclusive uma surpresa desagradável"

Tomei a decisão 4 anos atrás. Eu tinha 23, estudava escrita criativa na faculdade e ganhava um salário legal como assistente de uma família rica. Já havia publicado alguns textos – mas sabia que, para minha carreira de escritora deslanchar, precisava de mais tempo para escrever. Por isso decidi vender meus óvulos: eu ganharia US$ 8 mil (R$ 16 400) e poderia ficar meses escrevendo o livro.

Procurei uma agência de fertilização in vitro de boa reputação e comecei uma maratona de exames de sangue, genéticos e de personalidade. Preenchi um questionário de 30 páginas com tudo sobre mim, minha infância, as preferências alimentares, a escola onde estudei. Fiz entrevista com uma psicóloga por telefone e depois me encontrei com uma médica da agência, a Dra. Green. Ela me alertou que tomaria drogas antes do procedimento e perguntou se eu queria desistir. Segui em frente.

Semanas depois, uma mulher me ligou para dizer que eu havia passado nos exames. E que um casal estava interessado em meus óvulos. “Eles gostaram de saber que você é escritora”, disse. Pelo contrato, nas 3 semanas seguintes eu não poderia beber, fumar, ter sexo nem consumir drogas, a não ser as receitadas. Não poderia entrar em contato com a mulher receptora e nem seria informada do nascimento. Aceitei tudo.

Tomei várias injeções nos dias seguintes. Comecei com Lupron, uma droga que reduz os hormônios sexuais estradiol e testosterona. Ela tem sido usada para tratar câncer de próstata, puberdade precoce e, em altas doses, castração de pedófilos. Depois tomei Menopur, feito com urina de mulheres na pós-menopausa. Esse remédio estimula o ovário a produzir múltiplos folículos (onde crescem os óvulos), em vez de um único folículo que amadurece a cada mês. Na última noite, tomei Gonal-F, um hormônio estimulante de folículos de origem bovina. Precisei tomar na hora precisa para que ovulasse exatamente na mesa de cirurgia.

A operação teve anestesia geral e durou 20 minutos. Acordei bem. Não senti grandes efeitos colaterais, apenas chorava o tempo todo. E não por tristeza – só me sentia muito sensível. Mas esses efeitos pararam quando deixei de tomar as drogas. Assim, fiz outra doação de óvulos dois meses depois. Pensei em doar pela terceira vez, quando tive uma surpresa: a agência detectou que eu carrego um gene raro, chamado “X Frágil”.

Cerca de 20% das mulheres têm um resultado positivo baixo para esse gene. Não é simplesmente “você tem” ou “você não tem”. O espectro é amplo. Minha pontuação foi na zona do “talvez”. Isso significa que, se a mutação genética continuar em meus filhos, talvez meus bisnetos tenham alto risco para o autismo, por exemplo. Tudo isso eu descobri sozinha. Ninguém da agência me explicou nada. “Boa sorte”, disse a Dra. Green. Um casal chegou a se interessar por meus óvulos depois da descoberta. Mas não topei. Duas doações foram suficientes.

Hoje, não sinto que tenho filhos só porque doei óvulos. Não criei as crianças que possam ter nascido. Não me sinto mãe delas. Se eu tivesse uma ligação mais espiritual com os óvulos e sentisse que essas crianças são meus filhos, certamente não doaria. E também não acho que a experiência seja boa para todos, nem que as pessoas devam fazer pelo dinheiro. Para mim, foi bom. Além do dinheiro para escrever, arranjei um assunto para o livro: é a história de uma mulher que deixa o companheiro após tentativas frustradas de conceber uma criança. Talvez eu tenha impedido um caso desses na vida real.

* Catherine Lacey é escritora americana. Em depoimento a Eduardo Szklarz