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O rei da ressaca

Por 30 abr 2005, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h39
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Alvaro Opperman

Nova York, 24 de outubro de 1929. O mercado financeiro estava apreensivo. Os preços das ações despencavam, a Bolsa de Valores dava sinais de colapso e sete investidores já haviam se suicidado. Bill Wilson, um jovem analista financeiro, abriu a janela do seu escritório em Wall Street, disposto a também se atirar na rua. Na hora H, mudou de idéia. A garganta seca pediu um uísque. Bill fechou a janela, desceu as escadas e rumou para um pub da Rua 56. Lá se embebedou, como de costume.

Porres eram uma constante na vida de Bill Wilson. Nascido numa família tradicional americana, desde a adolescência se apegara ao que chamava de “elixir da vida”: dry martinis, scotches e black velvets (partes iguais de cerveja Guiness e champagne). Quando a esposa, Lois Burnham, o aconselhava a não beber tanto, Bill respondia que os gênios sempre tinham suas melhores idéias em estado de embriaguez. E Bill era tido como gênio em Wall Street. Hoje em dia a sua especialidade daria cadeia, mas na época era considerada o supra-sumo da inteligência estratégica: usar da influência pessoal e de conselhos a investidores para inflar artificialmente o preço das ações.

Naquele 24 de outubro, Bill Wilson perdeu tudo. Ele e a esposa tiveram de abandonar a luxuosa Manhattan e morar de favor numa casa de subúrbio. Bill passou a beber cada vez mais. Começaram então as internações em hospitais por causa do alcoolismo. Até 1934, foi internado quatro vezes. E, então, algo estranho supostamente aconteceu: Bill Wilson, desesperado, numa cama de hospital, implorou aos céus, pedindo um sinal divino que o fizesse parar de beber. Não existem testemunhas do fato, mas, segundo Bill, naquele momento o quarto hospitalar foi inundado por uma luz divinamente branca. A experiência o transformou para sempre. Parou de beber e dedicou o resto da sua vida a uma cruzada contra a bebida.

O primeiro a quem convenceu a largar o copo foi um velho médico alcoólatra, um certo doutor Bob Smith, de Ohio. Juntos, os dois ex-bebuns resolveram criar uma associação, mais tarde batizada de Alcoólicos Anônimos. A principal crença dos AA era a de que não havia nada melhor do que um alcoólatra para ajudar outro alcoólatra. A chave da cura do alcoolismo estava, em primeiro lugar, na admissão da fraqueza pessoal ante o vício. Até 1941, os Alcoólicos Anônimos viveram em relativa obscuridade, mas tudo mudou quando o Saturday Evening Post – a revista de maior circulação nos Estados Unidos na época – publicou uma matéria sobre o grupo. Milhares de pessoas em todo o país começaram a procurar Bill Wilson. O resto da história é conhecido: hoje, mais de 2 milhões de pessoas em 150 países fazem parte dos AA. Em 1990 William Wilson foi eleito pela revista Life uma das personalidades mais influentes do século 20.

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A cura do alcoolismo, infelizmente, teve um preço para Bill. Em primeiro lugar, ele – agnóstico confesso – nunca entendeu a experiência mística que acreditou ter tido no hospital. Procurou respostas no estudo do ocultismo, sem sucesso. Nos anos 1960, ao conhecer o LSD, se entusiasmou com a droga como sucedâneo do álcool e até propôs o seu uso nas sessões dos AA. A repercussão do seu trabalho atiçou a sua vaidade. Nos primeiros anos da organização, não perdia oportunidade de posar para os fotógrafos. Era, além disso, um galanteador inveterado. Das muitas amantes que teve, muitas acabaram ganhando empregos nos AA. Bill morreu de enfisema em 1971. Ironicamente, de outro vício: o cigarro. O seu legado, contudo, persiste. Um brinde de água mineral a Bill Wilson!

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