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Quando não dormimos o suficiente, nosso cérebro começa a “comer” a si próprio

Estudo descobriu que "faxina" cerebral fica desregulada quando o sono é insuficiente, levando células saudáveis no processo.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 27 ago 2020, 20h51 - Publicado em 19 ago 2020, 18h33

Não é nenhuma novidade que uma rotina de sono insuficiente e desregulada pode causar problemas físicos e psicológicos variados, desde dores no corpo, mudanças de humor e até um aumento no risco de desenvolver doenças cardiovasculares. Mas se esses motivos não bastam para te convencer a colocar o sono em dia, aqui vai uma história aterrorizante: quando não dormimos o suficiente, nosso cérebro começa a “comer” a si próprio, segundo um estudo.

Sabemos que o sono funciona como um período de “limpeza” do cérebro. Além de neurônios, outras células importantíssimas do sistema nervoso são as chamadas células gliais, que executam várias funções de apoio no cérebro. Dentro desse grupo, existem as micróglias, que agem de maneira parecida com os glóbulos brancos em nosso sangue: elas defendem e mantém o cérebro seguro e saudável ao fagocitar (isto é, “engolir”) invasores e células mortas ou defeituosas que precisam ser retiradas – como uma espécie de faxina cerebral.

Outra célula de apoio é o astrócito, que, entre outras funções, consegue desfazer sinapses no cérebro para dar lugar a outras no dia seguinte. Sinapses são ligações entre neurônios, feitas para transmitir e armazenar informações, como memórias e pensamentos. Ao fazer isso durante a noite, os astrócitos abrem espaço para novas informações tomarem o lugar dessas ligações.

Esses processos acontecem de noite, quando a atividade do corpo é menor. Acontece que, quando não temos um tempo bom de sono, a limpeza do cérebro fica comprometida. Porém, um estudo de pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, descobriu que essa faxina acontece de uma maneira ou de outra – se não der para acontecer durante o sono, ela será feita com o cérebro acordado mesmo. Mas isso traz problemas: com o cérebro em plena atividade, a limpeza fica caótica e confusa, e acaba levando células saudáveis e benéficas por engano no processo.

Na pesquisa, publicada no periódico Journal of Neuroscience, os cientistas separaram camundongos em quatro grupos com diferentes padrões de sono. Em um dos grupos, os bichos dormiam e acordavam naturalmente, sem interferências da equipe. Em outro, eles eram acordados após 8 horas de sono, em média – considerado um valor bom de descanso. Esses dois grupos, então, mostravam situações ideais.

Já no terceiro grupo, quando os roedores tentavam dormir por conta do sono natural, eles eram mantidos acordados artficialmente por mais oito horas, para simular o cérebro de uma pessoa com rotina de sono desregulada. No último grupo, os camundongos foram mantidos acordados artificialmente por cinco dias seguidos, atingindo uma situação de falta de sono extrema.

Os resultados dos dois grupos considerados “descansados” foram positivos – o nível de atividade dos astrócitos e das micróglias eram normais, indicando que eles haviam feito a faxina como deveriam. Nos dois grupos com privação de sono, porém, a história era outra. Essas células de limpeza foram encontradas ativas em 8% a 13,5% de todas as sinapses do cérebro, sendo que, nos grupos descansados, elas só agiam em algo entre 5% a 7%. Isso indica que a eliminação de células e sinapses estava acontecendo acima do normal, em locais onde normalmente não deveria acontecer, devido à falta do sono. Neste cenário caótico, células saudáveis eram levadas embora.

Além disso, os pesquisadores notaram que, nos grupos com privação de sono, as micróglias e os astrócitos estavam agindo também em sinapses maiores e mais antigas do cérebro, que geralmente são associadas com o armazenamento de informações e memórias mais acessadas pelo cérebro – ou seja, lembranças e aprendizados de maior prazo e importância. Nos grupos descansados, a faxina focava em sinapses novas e menores, que geralmente armazenam e transmitem informações de menor relevância, que acabamos esquecendo para dar lugar a novas.

Os resultados preocupam, principalmente porque estudos anteriores já associaram atividades desreguladas de micróglias com doenças como Alzheimer e demência. Ainda não dá para bater o martelo e dizer que a privação de sono causa diretamente essas condições – outros estudos mais focados nessa questão precisam ser conduzidos. Mas os pesquisadores alertam que a falta de sono definitivamente não parece fazer bem para nosso cérebro: de qualquer maneira, a recomendação de uma boa rotina de sono continua para todos.

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