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5 outras “Marielles” que você não conhece

Conheça outras vereadoras que carregam bandeiras e lutas parecidas com as de Marielle Franco e comprovam: lugar de mulher (também) é na política

Era dia de jogo do Flamengo, mas também era dia de panfletagem. Flamenguista de coração, Marielle Franco parou em um dos bares em que a TV estava ligada, na praça do Rio Comprido, e viu o primeiro tempo todo ali. Gritou com o time, xingou as decisões do árbitro, sem qualquer receio em um bar tomado por homens. No intervalo, voltou à campanha para convencer os eleitores do Rio de Janeiro de que seria uma boa vereadora. “Foi a primeira vez que a encontrei. A mulher parecia um furacão. Falava a língua dos moradores dali. Eu comentei com um conhecido: essa não perde!”, lembra Marcio Anastacio, um dos assessores voluntários da equipe do PSOL nas eleições de 2016.

Um dos homens a quem ela tentou convencer quis se esquivar do papo sobre política.

— Quero saber de política não.

— E vai deixar vagabundo decidir por você? — questionou Marielle.

— Político é tudo igual.

— Eu não sou.

— É, chega nessa época do ano…

— Qual é? Aí, larga de caô e pega meu panfleto.

— Vou olhar.

Não era mesmo. Era parte de minorias pouco representadas no poder: negra, periférica e bissexual — como fazia questão de enfatizar. Nascida na comunidade da Maré, só conseguiu ser aprovada no vestibular para Ciência Sociais por meio de um cursinho pré-vestibular comunitário. Conquistou uma bolsa integral na PUC do Rio de Janeiro, onde conheceu o professor de história Marcelo Freixo, companheiro de partido e mentor político. Entrou para a política depois de uma amiga virar mais uma nas estatísticas: em casos de assassinatos, 70% das vítimas são negras, como Marielle.

Foi dessa tristeza que tirou força para se reerguer e conquistar a confiança de 46 mil eleitores cariocas. Foi dessa tristeza que tirou força para, antes de pensar em ser vereadora, virar a Marielle das lutas sociais, ativista, feminista, defensora de direitos humanos — principalmente das minorias: negros, periféricos e LGBT, como ela. Marielle era contra a intervenção militar e questionava a eficácia das Unidades de Pacificação no Rio de Janeiro. Lutava para evitar que mais gente fosse morta. Gente — civis e policiais. Lutava para que as mulheres deixassem de ser violentadas.

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Marielle estava bem longe de ser igual aos seus colegas políticos. O mandato não era para ela. Não era para enriquecer ou ganhar poder. Era um mandato de luta social. Em pouco mais de um ano como vereadora, protocolou 20 projetos de lei, prestou contas à população em praça pública, e organizou eventos para discutir os rumos da segurança pública do Estado. Participou de rodas de conversa com movimentos sociais para estimular a participação de mulheres e negros na política, fez campanha contra o assédio sexual no carnaval. Marielle não parava.

Fez tanto que incomodou. Mas a esperança de quem a conheceu é que outras pessoas se inspirem no trabalho dela. Ou que ao menos reflitam e entendam sobre as lutas que ela enfrentou e os recados que ela passou. Batalhas parecidas com as que outras vereadoras travam em seus cargos — e tentam aumentar a representatividade feminina nas casas legislativas; só 13,5% do total de vereadores eleitos são mulheres. A SUPER entrevistou algumas delas para que suas ideias também inspirem outras pessoas. E que ajudem a criar mais e mais Marielles.

Áurea Carolina

Vereadora de Belo Horizonte, MG

Campanha política só funciona se vier com promessa. E a maioria delas morre logo depois da apuração dos votos. Áurea Carolina, cientista social de 34 anos, também fez algumas, entre elas essa aqui: se eleita, doaria 30% do salário todo mês para instituições culturais e sociais. Venceu as eleições com 17 mil votos — a vereadora mais votada da capital mineira. Para cumprir a promessa, criou o projeto “Cê fraga” e chamou a população para apontar iniciativas voltadas para cultura, agroecologia, economia solidária, educação, moradia, mobilidade e outros temas presentes na cidade. Disso surgiu um mapa — e, no começo deste ano, todas as instituições ganharam parte dos R$ 100 mil acumulados nos primeiros 12 meses do mandato.

 (Beto Staino/Creative Commons)

Claro que as ideias de Áurea vão bem além da doação do salário. Para começar, o mandato não é só dela. Antes das eleições, ela e outras 11 pessoas, todas ativistas com diversas bandeiras (movimentos negros, LGBT, feministas etc), lançaram o grupo Muitas pela Cidade que Queremos, e se lançaram às candidaturas. “A partir das lutas, vimos que precisávamos ocupar o espaço institucional. Não dá para ficar refém desses políticos que não nos representam”, diz. “Nosso lema era: com cidadania e ousadia, radicalizando as lutas.” Somente ela e a colega Cida Falabella foram eleitas (o dinheiro doado às iniciativas sociais foram de doações dos salários das duas). Juntas, criaram a Gabinetona e fizeram valer a ideia de mandato coletivo: nove das pessoas que fizeram parte da campanha atuam com elas na discussão de tudo, desde criação de projetos de lei a realização de eventos.

Até agora, lançaram quatro projetos de lei, alguns relacionados à preservação da cultura tradicional (de povos indígenas, religiões de origens africanas etc). “Todos eles foram criados coletivamente, com esses grupos”, explica. Criaram também laboratórios populares de leis — que é um convite para a população e os movimentos debaterem os temas do mandato. Numa dessas ações, Áurea e a galera da Gabinetona se reuniram com os movimentos de camelôs. Houve uma operação para retirá-los do centro. Reunidos, entenderam quais eram as demandas — queriam, por exemplo, um espaço para feira permanente — e criaram cartilhas de orientação sobre os direitos deles e como poderiam agir. “O que a gente quer é trazer as vozes dos movimentos sociais para a Câmara, para que essa participação na cidadania seja mais porosa.”

Larissa Gaspar

Vereadora de Fortaleza, CE

Quando assumiu o cargo, no ano passado, Larissa, de 35 anos, se candidatou para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos vereadores em Fortaleza. E tudo indicava que não ia dar certo. Os políticos já tinham se articulado para indicar outro nome. Mas os movimentos sociais da cidade se articularam também: 80 instituições enviaram um documento de apoio, pedindo que Larissa fosse a líder daquela pasta. A pressão deu certo.

É que a vereadora, eleita com pouco mais de 4 mil votos, participa ativamente de movimentos sociais desde a época da faculdade, principalmente dentro de coletivos feministas. E entrou na política com a coordenação de órgãos ligados a esses temas, como a Casa Abrigo, que recebe mulheres vítimas de violência sexual na cidade.

 (Larissa Gaspar/Facebook/Reprodução)

Com o mandato, abriu as portas para as demandas de vários movimentos sociais de Fortaleza. Muitas vezes, recebe pedidos de famílias para que visitem a penitenciária e deem uma olhada na segurança de parentes que estão presos. Mas também recebem e acatam aos requerimentos de policiais militares presos acusados de assassinatos — alguns deles envolvidos com a chacina do Curió, que culminou com a morte de 11 pessoas em 2015, todas elas executadas por PMs. “Há esse embate, como se fosse segurança pública e direitos humanos fossem inimigos. ‘Direitos humanos’ é dignidade e respeito para todas as pessoas”, ela comenta.

Sâmia Bomfim

Vereadora de São Paulo, SP

Duas cenas de Sâmia, de 28 anos, ficaram famosas em São Paulo: a foto ao ser expulsa da Câmara, antes de ser eleita, enquanto participava de um protesto; e a comemoração ao assumir o cargo, com uma camiseta roxa estampada com a frase “Fora Temer e todos os corruptos”. E ela nem esperava estar ali — recebeu com surpresa o resultado das eleições que a elegeu vereadora.

 (Sâmia Bomfim/Facebook/Reprodução)

Ativa nos movimentos feministas desde 2013, atuou em eventos e passeatas sobre discussões de gênero e sobre a importância da participação de mulheres na política — o movimento ficou conhecido como “Primavera Feminista”. E quando seu partido pediu para que ela se candidatasse, por ser jovem e feminista, não teve como negar. “A gente tinha R$ 20 mil para fazer campanha. Foi uma surpresa. Eu nem sabia como começar a organizar o gabinete”, brinca.

Aprendeu rápido. Montou toda a equipe, com advogados e outros participantes de movimentos de rua, e começou a pensar em ações. Protocolou 50 projetos de lei, a maioria deles voltada aos direitos das mulheres, dos LGBT, e à educação. Por enquanto, só um sancionado: a PL54/2017 prevê a colocação de avisos com o número 180, do Disque Denúncia da violência contra a mulher, em estabelecimentos da cidade. E também percebeu rápido a visão de boa parte dos colegas: “Após a aprovação da lei, um deles veio perguntar se eu tinha alguma empresa que faz placas como essa”.

E se surgiu dos movimentos de rua, e os levou para dentro da Câmara, Sâmia também não deixou de passar tempo fora do gabinete. Ela está sempre presente nas manifestações de professores contra o projeto de lei que prevê um aumento da contribuição previdenciária dos servidores. A ideia não é só mostrar apoio, mas também tentar garantir menor violência policial. “Não acaba ali. Eu fui ao hospital com os professores machucados. Faz diferença ter uma vereadora perto para fiscalizar.”

Natália Bonavides

Vereadora de Natal, RN

Quando ainda cursava a faculdade de Direito, Natália já trabalhava com movimentos sociais. Se grupos de militantes eram processados ou membros do Movimento dos Sem Terra eram desalojados, a estudante cuidava da assessoria jurídica dessas pessoas, para garantir que todos os seus direitos fossem cumpridos. Depois de se formar, seguiu na mesma pegada social: trabalhou como advogada no Centro de Referência em Direitos Humanos de Natal e na Comissão de Direitos Humanos da OAB do Rio Grande do Norte.

Só saiu candidata à vereadora por um pedido do partido: queriam mulheres jovens como ela. Feminista, ela, que apoiava uma maior participação feminina na política, não teve como recusar. Foi eleita com mais de 6 mil votos — a quinta vereadora mais votada da capital potiguar.

 (Natália Bonavides/Reprodução)

Lá dentro, Natália trabalha para aprovar leis favoráveis à humanização do parto e de redução da violência contra a mulher. Mas também se preocupa com moradores em situação de rua. “A primeira violência contra eles é ao tentar entrar na Câmara. Eles são barrados por não terem os trajes exigidos.” Ela deu um jeito nisso. Organizou uma audiência pública e pediu uma exceção à regra formal de vestuário. Conseguiu promover o encontro de moradores em situação de rua com secretários da Prefeitura — e eles puderam expor todos os dramas do dia a dia e cobrar ações dos governantes.

Em uma ocupação urbana na zona norte de Natal, uma das regiões mais populosas e vulneráveis da cidade, a equipe da vereadora criou um evento semanal, com oficinas e debates políticos. “Uma vez, teve uma oficina para fazer vassouras com garrafas PET. Depois do encontro, fomos a uma feira, colocamos uma banquinha e elas conseguiram vender os produtos”, lembra Natália.

Dentro da Câmara, conseguiu também a aprovação do projeto “Transcidadania”, uma tentativa de ajudar travestis e transsexuais em situação de vulnerabilidade a encontrarem emprego e serem reintegrados à sociedade. Essas ideias, frequentemente, viram desrespeito dentro da Câmara — Natália já foi chamada de feminazi, e não é raro ter a fala cortada por vereadores. “Nós, mulheres, causamos incômodo quando ocupamos os espaços institucionais. Ainda mais sendo jovem. Quando acaba o argumento, a resposta dos vereadores é ‘ah, a sua idade é o tempo que eu tenho como professor”.

Talíria Petrone

Vereadora de Niterói, RJ

Professora de História, Talíria conheceu Marielle enquanto dava aula em uma escola na Maré, oito anos atrás. Mas foi nas campanhas para vereadora que as duas estreitaram os laços. As causas pelas quais lutavam eram as mesmas. As duas falavam sobre direitos das mulheres e LGBT, sobre o extermínio e a vulnerabilidade da população negra e periférica.

 (Talíria Petrone/Reprodução)

Talíria venceu as eleições como a vereadora mais votada na cidade de Niterói. Ao lado da amiga, organizavam eventos para dialogar com a população e se apoiavam nos desafios de ser uma mulher negra na Câmara dos Vereadores. Segundo contou em redes sociais, eram tão parecidas que brincavam que Marielle era a Talíria do Rio de Janeiro e que Talíria era a Marielle de Niterói.

A vereadora já recebeu ameaças de morte — apesar do medo e do luto, tira forças para cobrar uma resposta da Justiça pelas mortes de Marielle e do motorista Anderson Pedro.