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A tradição islandesa mais aguardada do ano: atirar passarinhos do penhasco

Acredite: é pelo bem da espécie.

Por Victor Bianchin 24 dez 2025, 10h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h30
A tradição islandesa mais aguardada do ano: atirar passarinhos do penhasco Priorizar nos meus resultados Google

No Brasil, o começo do segundo semestre é sempre meio modorrento: a volta às aulas e o trânsito que a acompanha, agosto com seus 8364 dias e nenhum feriado, e setembro com o começo da primavera. Na Islândia, porém, essa é uma das fases mais esperadas do ano: é a época de arremessar papagaios-do-mar de um penhasco.

Os papagaios-do-mar, chamados por lá de “puffins” (

Fratercula arctica), são aves nativas do norte do Oceano Atlântico. Seu principal habitat, com o maior número de indivíduos, são as Westman Islands, um arquipélago na costa sul da Islândia. Todo ano, a população local precisa encontrar os filhotes dessa espécie perdidos pelas ilhas e arremessá-los na direção do oceano.

Mas por que isso? Os papagaios-do-mar criam seus filhotes em pequenas tocas nos penhascos próximos à costa. O natural é que, ao atingirem maturidade para voar, os pequenos puffins deixem a colônia e rumem para o mar, onde irão viver por vários anos, alternando entre voar, mergulhar e boiar (eles inclusive dormem boiando, como os patos). Só retornam à terra anos depois, para reproduzir.

Os papagaios-do-mar filhotes encontram o caminho para o oceano seguindo a luz da Lua. Porém, nos tempos modernos, eles são confundidos pelas luzes das cidades, de modo que muitos acabam tomando o caminho oposto e se perdendo em terra.

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Por isso, na chamada “temporada de puffing”, entre agosto e setembro, centenas de moradores e voluntários saem pelas ruas à noite em busca dos filhotes perdidos. Os animais podem ser encontrados em lugares bem iluminados, como escolas, hospitais, postos de gasolina e obras. Geralmente, os filhotes estão confusos e acuados, tentando se esconder, por isso os moradores usam lanternas para achá-los.

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Em uma noite, um grupo pode encontrar de quatro a dez papagaios-do-mar. Os animais precisam ser recolhidos com luvas, para que não haja risco de infecção dos humanos por gripe aviária e também para que os óleos naturais da nossa pele não grudem em suas penas. Eles são então colocados em caixas para o transporte. Os pássaros que caem perto do porto são recolhidos por barcos com uma rede, pois o óleo na água pode ficar impregnado em suas asas e fazer com que afundem. 

O esforço coletivo costuma salvar milhares de aves todo ano. Existe um site oficial onde os voluntários devem registrar os pássaros que encontraram para ajudar os pesquisadores locais.

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No dia seguinte, os filhotes capturados são soltos, quase sempre em um lugar que você pode achar no Google Maps digitando “Beautiful Puffin and Shore View”. É possível apenas deixá-los no penhasco perto do mar e eles eventualmente voarão sozinhos — mesmo que, para muitos, seja a primeira vez em que estejam vendo o oceano.

Mas a galera gosta mesmo é de pegar os pássaros na mão e jogá-los para o alto, dando aquela forcinha para que alcem voo.

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Por que arremessar papagaios do penhasco é importante

Assim como muitas outras espécies no mundo, os papagaios-do-mar estão ameaçados pelas mudanças climáticas. De acordo com Erpur Snær Hansen, diretor de pesquisa ecológica do Centro de Natureza do Sul da Islândia, a população dessas aves no país diminuiu 70% nos últimos 30 anos. 

O problema maior é o aquecimento das águas marítimas, que diminui a população de peixes, o principal alimento dos puffins.

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Pesquisas indicam que um aumento de apenas 1 oC pode reduzir a reprodução dos puffins em 55%.

Um fator que complica as coisas é que os puffins só atingem a maturidade sexual entre os 3 e 6 anos e cada casal produz apenas um ovo por temporada. Além disso, as fêmeas não botam ovos todos os anos. E, para completar o bolo de problemas, a caça dos puffins é legalizada na Islândia. Junte tudo isso e não é difícil entender por que o número de papagaios-do-mar está diminuindo.

Por isso, a busca anual pelos puffins perdidos em terra não é apenas uma prática saudável, mas também necessária para a conservação da espécie. É difícil dizer o que poderia acontecer se esses animais nunca fossem resgatados. O mundo poderia perder uma espécie lindíssima – e os islandeses, um de seus esportes favoritos.

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