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A tradição islandesa mais aguardada do ano: atirar passarinhos do penhasco

Acredite: é pelo bem da espécie.

Por Victor Bianchin
24 dez 2025, 10h00 •
  • No Brasil, o começo do segundo semestre é sempre meio modorrento: a volta às aulas e o trânsito que a acompanha, agosto com seus 8364 dias e nenhum feriado, e setembro com o começo da primavera. Na Islândia, porém, essa é uma das fases mais esperadas do ano: é a época de arremessar papagaios-do-mar de um penhasco.

    Os papagaios-do-mar, chamados por lá de “puffins” (Fratercula arctica), são aves nativas do norte do Oceano Atlântico. Seu principal habitat, com o maior número de indivíduos, são as Westman Islands, um arquipélago na costa sul da Islândia. Todo ano, a população local precisa encontrar os filhotes dessa espécie perdidos pelas ilhas e arremessá-los na direção do oceano.

    Mas por que isso? Os papagaios-do-mar criam seus filhotes em pequenas tocas nos penhascos próximos à costa. O natural é que, ao atingirem maturidade para voar, os pequenos puffins deixem a colônia e rumem para o mar, onde irão viver por vários anos, alternando entre voar, mergulhar e boiar (eles inclusive dormem boiando, como os patos). Só retornam à terra anos depois, para reproduzir.

    Os papagaios-do-mar filhotes encontram o caminho para o oceano seguindo a luz da Lua. Porém, nos tempos modernos, eles são confundidos pelas luzes das cidades, de modo que muitos acabam tomando o caminho oposto e se perdendo em terra.

    Por isso, na chamada “temporada de puffing”, entre agosto e setembro, centenas de moradores e voluntários saem pelas ruas à noite em busca dos filhotes perdidos. Os animais podem ser encontrados em lugares bem iluminados, como escolas, hospitais, postos de gasolina e obras. Geralmente, os filhotes estão confusos e acuados, tentando se esconder, por isso os moradores usam lanternas para achá-los.

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    Em uma noite, um grupo pode encontrar de quatro a dez papagaios-do-mar. Os animais precisam ser recolhidos com luvas, para que não haja risco de infecção dos humanos por gripe aviária e também para que os óleos naturais da nossa pele não grudem em suas penas. Eles são então colocados em caixas para o transporte. Os pássaros que caem perto do porto são recolhidos por barcos com uma rede, pois o óleo na água pode ficar impregnado em suas asas e fazer com que afundem. 

    O esforço coletivo costuma salvar milhares de aves todo ano. Existe um site oficial onde os voluntários devem registrar os pássaros que encontraram para ajudar os pesquisadores locais.

    No dia seguinte, os filhotes capturados são soltos, quase sempre em um lugar que você pode achar no Google Maps digitando “Beautiful Puffin and Shore View”. É possível apenas deixá-los no penhasco perto do mar e eles eventualmente voarão sozinhos — mesmo que, para muitos, seja a primeira vez em que estejam vendo o oceano.

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    Mas a galera gosta mesmo é de pegar os pássaros na mão e jogá-los para o alto, dando aquela forcinha para que alcem voo.

    Por que arremessar papagaios do penhasco é importante

    Assim como muitas outras espécies no mundo, os papagaios-do-mar estão ameaçados pelas mudanças climáticas. De acordo com Erpur Snær Hansen, diretor de pesquisa ecológica do Centro de Natureza do Sul da Islândia, a população dessas aves no país diminuiu 70% nos últimos 30 anos. 

    O problema maior é o aquecimento das águas marítimas, que diminui a população de peixes, o principal alimento dos puffins. Pesquisas indicam que um aumento de apenas 1 oC pode reduzir a reprodução dos puffins em 55%.

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    Um fator que complica as coisas é que os puffins só atingem a maturidade sexual entre os 3 e 6 anos e cada casal produz apenas um ovo por temporada. Além disso, as fêmeas não botam ovos todos os anos. E, para completar o bolo de problemas, a caça dos puffins é legalizada na Islândia. Junte tudo isso e não é difícil entender por que o número de papagaios-do-mar está diminuindo.

    Por isso, a busca anual pelos puffins perdidos em terra não é apenas uma prática saudável, mas também necessária para a conservação da espécie. É difícil dizer o que poderia acontecer se esses animais nunca fossem resgatados. O mundo poderia perder uma espécie lindíssima – e os islandeses, um de seus esportes favoritos.

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