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E se a Lua fosse explorada comercialmente?

O satélite é abundante em metais usados em baterias de carros elétricos. É também um potencial destino turístico para os endinheirados. Mas definir as regras de exploração seria um enorme desafio geopolítico.

Por Fábio Marton Atualizado em 10 ago 2022, 18h12 - Publicado em 20 Maio 2022, 09h56

Em dezembro de 2022, vai fazer 50 anos da última vez em que um ser humano pisou na Lua, na missão Apollo 17. Desde então, as bandeiras deixadas por americanos e soviéticos (no caso destes últimos, por missões não tripuladas) foram totalmente desbotadas pela luz solar: relíquias de um passado cada dia mais distante.

Mas as coisas estão mudando rapidamente de figura: em 27 de maio, a Nasa deve enviar uma missão não tripulada para a Lua, a CAPSTONE. Só neste ano, Coreia do Sul, Japão, Reino Unido, Rússia e até Emirados Árabes Unidos têm missões planejadas para lá. Além de EUA e Rússia, China, Japão, Índia, Israel e União Europeia já chegaram ao satélite. Até o fim da década, querem se juntar ao clube Turquia, Canadá, Tailândia, África do Sul e, sim, Brasil.

Mandar uma sonda até lá é relativamente fácil. Em termos espaciais, a Lua está a um pulo: se você é capaz de pôr algo em órbita terrestre, a até 35 mil km de distância, pode também mandar para a Lua, meras dez vezes mais distante (384 mil km). A Índia, por exemplo, chegou lá em 2008 com um foguete médio, usado para lançar satélites comuns.

A princípio, uma nova corrida espacial em direção ao satélite não parece fazer sentido. A Lua é parecida com a Terra. Os minerais mais abundantes em sua superfície são, como aqui, silício, alumínio, cálcio e ferro. A razão é fácil de entender: a Lua é um pedaço da Terra. Pela teoria mais aceita, foi formada por uma parte do planeta arrancada por uma colisão com um astro menor, do tamanho de Marte, há quatro bilhões de anos.

Isso é bem diferente dos asteroides, de origem distinta da Terra. Neles, elementos raros por aqui, como ouro, platina e paládio, são abundantes.

O que seria atraente minerar na Lua são os chamados metais de terras raras: latânio, escândio, ítrio… Terras raras são elementos necessários para algumas aplicações avançadas, como a produção de baterias de carros elétricos. Apesar do nome, na verdade são comuns na Terra. Mas distribuídas e exploradas de forma desigual. 95% da produção de terras raras acontece na China.

Além da mineração, construir bases na Lua (usando recursos do próprio satélite para montar as estruturas) seria um passo interessante na exploração do Sistema Solar. Como a gravidade é um sexto da terrestre, usa-se proporcionalmente menos energia para lançar um foguete de lá, contanto que ele seja fabricado com materiais de lá.

Dessa forma, a Lua funcionaria como um duplo trampolim: para a extração de minerais bem mais valiosos lá dos asteroides, e para a mera continuidade da indústria de alta tecnologia na Terra, ameaçada hoje por escassez de recursos – parte dos quais estão na Lua, outra nos asteroides. Logo, o interesse recente de países e empresas não é meramente especulativo. Outra frente de atuação é o turismo para multimilionários.

O primeiro turista espacial foi o empresário americano Dennis Tito, que em 2001 pagou US$ 20 milhões para uma estadia de uma semana na Estação Espacial Internacional, partindo numa nave russa Soyuz. O mais recente foi o bilionário da moda japonês Yusaku Maesawa, que voou em dezembro passado levando um assistente, para distribuir fotos em redes sociais. A mesma empreitada não sai por menos de US$ 50 milhões hoje.

A Space Adventures anunciou um voo para a Lua ainda em 2005, e, em 2011, já havia vendido passagens por US$ 150 milhões, mas o voo foi adiado repetidas vezes (e depende dos russos, então agora complicou).

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Em 2017, Elon Musk anunciou que sua SpaceX um dia levaria turistas para a Lua. O mesmo Maesawa comprou passagens, e espera decolar em 2023 com oito “artistas” que está escolhendo. O valor não foi revelado.

Seja como for, uma eventual colonização da Lua é complexa. Alguns elementos importantes são bem mais raros por lá: como carbono, água e nitrogênio. O primeiro é necessário para transformar ferro em aço, além de várias aplicações químicas, o segundo é obviamente necessário para a vida humana, e o terceiro é um elemento sem o qual não é possível a vida vegetal – fundamental para a produção de alimentos nas colônias.

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Esses elementos existem em maior abundância nas crateras escuras próximas dos polos. Isso faz com que alguns territórios da Lua sejam mais desejáveis que outros. O que leva a uma séria disputa de interesses.

Ninguém pode se dizer dono da Lua atualmente. O Tratado do Espaço Sideral das Nações Unidas, de 1967, tem hoje como signatários Estados Unidos, Rússia, China, Índia, União Europeia, Japão e Brasil. Inspirado no Tratado da Antártida, de 1961, ele afirma que nenhum país pode clamar soberania sobre a Lua ou qualquer outro corpo celeste. Bases militares não podem ser instaladas na Lua, mas forças militares no espaço não estão proibidas.

Se a Lua não pode ter dono, objetos em particular podem. Isso é aplicado a satélites, que são considerados propriedade de países ou empresas. Assim, uma base lunar teria dono, mas não o território onde ela se encontra – inclusive sua área de mineração.

O Tratado da Antártida funciona porque, basicamente, não há interesse econômico no continente, apenas científico. Na Lua, seria diferente. O interesse nas terras raras e nas bases para explorar asteroides criaria um cenário de um faroeste espacial. Estados e empresas podem explorar recursos, podem portar armas, mas não clamar soberania sobre nada. Quem decidirá o que é certo se dois países disputassem uma cratera específica?

É um convite aberto para futuras guerras. Num momento em que a exploração da Lua for vista como algo comercialmente viável, o acordo de 1967 estará com seus dias contados. Como aconteceu com o Tratado de Tordesilhas no Brasil: foi completamente ignorado pelos bandeirantes, que se expandiram para o território supostamente espanhol. A conquista do Oeste pelos EUA também teve um ciclo parecido, de colonos invadindo território britânico e mexicano (inclusive com guerra nesse caso), até a conquista se tornar um fato consumado por acordos formais.

Empresas também podem clamar territórios (se contarem com o apoio de seus países). A conquista da Índia pelos britânicos foi feita por uma empresa privada, a Companhia das Índias Orientais. Não é inconcebível que uma Space-X-lândia possa ser criada na Lua.

Com diplomacia, com conflito, com uma mistura entre os dois, chega o inevitável: a Lua passa, sim, a ter donos. O potencial de confusão, de qualquer forma, lembra uma piada da época da Guerra Fria: militares avisam ao presidente dos EUA que os soviéticos chegaram à Lua. E mais, que estão pintando o satélite de vermelho.

– E agora, presidente?!
– Calma. A gente manda a Nasa para lá, levando tinta branca.
– Pra quê?
– Pra escrever “Coca-Cola” por cima.

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E se a Lua fosse explorada comercialmente?
O satélite é abundante em metais usados em baterias de carros elétricos. É também um potencial destino turístico para os endinheirados. Mas definir as regras de exploração seria um enorme desafio geopolítico.

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