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Myers-Briggs: a real sobre o teste das 16 personalidades

INTP, ESTJ, ESFP… O questionário que classifica pessoas em categorias demarcadas por quatro letrinhas é tratado como algo sacrossanto por departamentos de recursos humanos e parte dos psicólogos. Mas, afinal: ele funciona mesmo?

Por Rafael Battaglia 15 out 2021, 08h10

Ilustração Henrique Petrus Design Natalia Sayuri Lara Edição Alexandre Versignassi

Carl Gustav Jung e Sigmund Freud eram grandes amigos no começo do século 20. Os pesos-pesados da psicologia moderna se conheceram pessoalmente em 1907, em Viena. O austríaco Freud, 19 anos mais velho, encantou-se com a genialidade do suíço Jung, que, aos 32, trabalhava como psiquiatra e professor universitário.

Eles continuaram a se encontrar e a trocar centenas de cartas. Pelo trabalho de Jung, Freud o considerava seu sucessor na recém-criada psicanálise: ele seria o jedi; Jung, o padawan.

Mas não foi bem assim. Jung não concordava que as motivações da mente partiam da sexualidade, enquanto Freud (ateu convicto) se opôs completamente ao misticismo que há na psicologia de Jung. Essas divergências teóricas levaram, em 1912, a um rompimento digno de música sertaneja. O suíço passou os três anos seguintes na sofrência: recluso, sem ler, escrever ou dar aulas.

Nesse período dark, Jung refletiu sobre a sua relação com Freud. E chegou a uma conclusão: as divergências rolaram porque os dois tinham personalidades diferentes. Concluiu que Freud era um extrovertido – alguém que se sente à vontade em uma multidão, e que prefere compartilhar com outras pessoas os seus problemas para resolvê-los; e que ele, Jung, seria introvertido – alguém que opta pelo mundo interior, que usa a solidão como combustível para recarregar as energias.

A relação extroversão versus introversão foi a base para o livro Tipos Psicológicos (1921). Ali, Jung destrincha essa e outras duas supostas duplinhas de tipos funcionais da nossa personalidade: sensação  x  intuição (relacionadas à maneira como percebemos e buscamos informações); sentimento  x  pensamento (a base para as tomadas de decisão).

Do outro lado do Atlântico, a americana Katharine Briggs se encantou pelo livro de Jung e passou anos estudando formas de aperfeiçoar a teoria do suíço, e de torná-la mais acessível. Mesmo sem formação em psicologia, ela criou (com a ajuda da filha, Isabel Briggs Myers) um questionário de personalidade para ajudar as pessoas no trabalho e na vida de modo geral.

Nascia ali o Myers-Briggs Type Indicator (MBTI). Registrado em 1943, ele fornece 16 tipos de personalidade. Cada uma mistura quatro letrinhas, com base em quatro eixos: introversão (I) e extroversão (E), sensação (S) e intuição (N), pensamento (T) e sentimento (F), julgamento (J) e percepção (P). Este último par foi uma adição de Myers e Briggs à teoria junguiana e tem a ver com o modo que levamos a vida (se é num estilo mais regrado ou mais espontâneo, respectivamente).

No fim, você ganha um conjunto de quatro letras que supostamente descreve sua personalidade. Você pode terminar “diagnosticado” como ESFJ (extrovertido, sensorial, sentimental, regrado), INTP (introvertido, intuitivo, racional, espontâneo) ou qualquer outra das 16 combinações possíveis.

No final da Segunda Guerra, a família Briggs conseguiu que o MBTI fosse aplicado em agentes do Escritório de Serviços Estratégicos dos EUA, que antecedeu a CIA. Em 1975, Mary McCaulley, professora de psicologia da Universidade da Flórida, juntou-se a Isabel (Katharine morreu em 1968) e ajudou a popularizar o teste em empresas e instituições.

Hoje, existem mais de 2 mil testes de personalidade – uma indústria que pode valer US$ 500 milhões (há quem estime US$ 2 bilhões). Motivo não falta. “Os seres humanos gostam de obter informações sobre si mesmos”, diz Gabriel Gaudencio Rego, membro do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social do Mackenzie. “Quando um teste nos coloca um rótulo de algum jeito, sentimos que nos conhecemos um pouco melhor.”

O MBTI segue como um dos testes mais populares: traduzido para 29 idiomas, cerca de 2 milhões de pessoas realizam, todos os anos, a versão oficial do questionário – é preciso pagar por isso. Ele é usado, sobretudo, por departamentos de recursos humanos, inclusive em 88% das empresas do S&P 500, o clube das companhias mais valiosas dos EUA.

Tudo isso sem que dê para saber ao certo se funciona mesmo. Mas, calma, já discutiremos isso. Primeiro, vamos entender como ele funciona.

O provão

Desde a sua primeira versão, o MBTI já passou por várias atualizações, nomeadas por letras. A mais usada hoje é a M, que tem 93 questões. Mas há outras mais extensas (como a Q, com 144 perguntas). Quanto mais longo o questionário, mais detalhado será o resultado final.

Há dois tipos de questões no MBTI – sempre com apenas duas alternativas de resposta. O primeiro tipo pergunta como você normalmente agiria ou se sentiria em determinada situação (uma festa com muita gente, um prazo apertado no trabalho, um fim de semana todo planejado). Já o segundo é mais direto: entre duas palavras (“abstrato” ou “concreto”, “fazer” ou “criar”), você deve escolher apenas uma.

Devo confessar que é um tanto cansativo completar o teste (fiz o de 144 questões). Certas perguntas soam parecidas, e várias palavras se repetem. E às vezes fica difícil se ater às alternativas que o teste dá. Na questão “O que te dá mais energia? Ficar sozinho ou em grupo?”, parece faltar a terceira via: um sonoro “depende”.

Mas há uma razão para essa estrutura polarizada. “Em testes do tipo, nós temos o impulso de tentar controlar o resultado, então algumas questões são placebo – estão ali só para confundir”, explica a psicóloga Tania Casado, diretora do Escritório de Desenvolvimento de Carreiras da USP (ECar). Nos anos 1980, ela foi uma das primeiras a estudar o Myers-Briggs no Brasil. “A versão F do MBTI, por exemplo, tem 166 perguntas, mas só 90 são levadas em conta.”

Ao final do teste, eu recebo o meu resultado (deu ESFJ), além de uma extensa explicação sobre os quatro elementos (e seus opostos). O MBTI é cuidadoso: ele diz que essas não são características definitivas, mas sim as que, provavelmente, aparecem com mais frequência na sua vida.

Há outros cuidados, como reforçar o tempo todo que não há personalidades “certas” e “erradas” – todos os elementos seriam igualmente valiosos. Durante a explicação, o MBTI se preocupa também em esclarecer algumas concepções equivocadas, como dizer que pessoas espontâneas não podem ser organizadas, ou que introvertidos não conseguem assumir cargos de liderança.

Toda essa experiência tem um preço: US$ 50 – mais de R$ 270. Salgado. Não à toa, a versão mais famosa do MBTI, na verdade, não é o MBTI, mas sim o 16Personalities, um teste rápido, disponível na internet – e gratuito.

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O 16Personalities tem 60 questões e leva poucos minutos para ser feito. Ao contrário do MBTI, as respostas para perguntas de situação estão em uma escala (de “concordo totalmente” a “discordo totalmente”). E, sim, dá para ficar no meio do muro – um alívio para os indecisos.

Depois da experiência com o MBTI oficial, você percebe que o 16Personalities talvez seja menos completo – e preciso. Mas é divertido: cada personalidade possui a sua respectiva cor e personagem (ENFJs são “Protagonistas”, ISFJs são “Defensores”, ENTPs são “Inovadores”). Junto ao relatório final, o teste mostra celebridades e figuras históricas que, de acordo com os organizadores do teste, carregariam uma sigla igual à sua. Puro chute, claro. Meu teste deu que estou no mesmo clube da Beyoncé, da Rainha Elizabeth e do Vin Diesel.

Em suma, não passa de diversão. Para evitar processos, o 16Personalities não menciona em nenhum momento o MBTI nem a família Briggs.

Quem quiser aplicar o MBTI para valer não pode colocar o teste na internet, já que é preciso pagar direitos autorais à família Briggs. No Brasil, o único autorizado a traduzir e vender o teste é a consultoria Fellipelli, que começou a aplicá-lo por aqui em 1996.

“Foi feita toda uma validação, sobretudo com a tradução, para ver se o conteúdo estava de acordo com a realidade sociocultural brasileira”, conta a psicóloga Adriana Fellipelli. É como um trabalho de dublagem: às vezes, é mais negócio mudar a piada (em vez de traduzi-la ao pé da letra) para preservar o sentido original. A Fellipelli também capacita consultores, que podem aplicar e explicar os resultados do MBTI em empresas, escolas e consultórios. Não é preciso ser psicólogo para obter essa certificação.

Testando os testes

Um hemograma não tem erro. A agulha entra, o sangue sai e, em poucos dias, você descobre se o seu colesterol está alto ou baixo. Avaliações psicológicas, contudo, são mais complicadas. Afinal, como medir precisamente conceitos abstratos como felicidade, criatividade – ou, nesse caso, personalidade?

O campo que se encarrega disso é a psicometria, que usa a estatística para tentar compreender o nosso funcionamento psicológico. E pode acreditar: construir um teste leva bastante tempo.

Primeiro, deve-se partir de alguma teoria relativamente consagrada; no caso do MBTI, a junguiana. Depois, é preciso aplicá-lo em diversas pessoas, para criar uma base de dados consistente. Isso será vital para a fase de validação, que acontece em duas etapas. A primeira é a de conteúdo: avaliar se o teste mede, de fato, o que ele se propõe a medir; por exemplo: se um paciente que diversos profissionais descrevem como “extrovertido” obtém de forma consistente “introvertido” como resultado do teste, talvez seja preciso recalibrá-lo.

A segunda parte analisa se é possível fazer alguma inferência ao resultado do teste – no caso do MBTI, contextualizar as quatro letrinhas que você recebeu. “Essa é uma etapa importante. Imagine receber uma pontuação em um questionário que mede ansiedade, mas não saber se você está acima ou abaixo da média”, esclarece Josemberg Andrade, membro da Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica (CCAP), grupo criado em 2003 pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).

O CCAP é o órgão responsável por aprovar testes do tipo no Brasil. Uma equipe de especialistas, escolhida por edital público, analisa se eles atendem aos critérios científicos mínimos de precisão. A aprovação vale por 20 anos.

Tudo fica registrado no site do Satepsi (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos), que mantém duas listas: testes favoráveis e não favoráveis para o uso de psicólogos. Em 2008, ele foi reprovado por falta de dados estatísticos suficientes. Em 2013, a Fellipelli realizou uma nova submissão – e o teste foi aprovado.

Mas e aí? O MBTI funciona mesmo?

Pontos fracos

Faz décadas que se questiona a eficácia do MBTI. Entre os anos 1970 e 1980, estudos analisaram voluntários que se submeteram ao teste. Cinco semanas depois, eles refizeram o questionário – o resultado foi diferente em 50% dos casos (em seu site oficial, o MBTI argumenta que essas pesquisas dizem respeito a uma versão antiga do teste, que não é mais usada). Por essas, a Associação Americana de Psicologia destaca que o MBTI tem pouca credibilidade entre psicólogos e pesquisadores.

Eu mesmo fiz dois testes MBTI, a versão em português e a em inglês. E obtive duas personalidades diferentes (ENFJ e ESFJ). Normal. Como dissemos aqui, há diferenças entre os dois, e o em português seria mais adequado para quem vive no Brasil. Mas a coisa complica quando leio a descrição dos dois tipos e, bingo, me identifico (em algum nível) com ambos. Isso também aconteceu com o meu resultado no 16Personalities (ISFJ).

Uma possível explicação para isso está no Efeito Forer, que acontece quando nos identificamos com descrições vagas e gerais, que poderiam ser aplicadas a qualquer pessoa – o segredo do sucesso do horóscopo.

Isso não quer dizer que o MBTI seja pseudociência. Significa que a psicologia não é uma ciência exata. “Nenhum instrumento psicológico é capaz de descrever o todo de uma pessoa”, ressalta Andrés Antúnez, professor do departamento de psicologia clínica da USP. “Cada teste se baseia em uma das diversas teorias da psicologia – e nenhuma delas é dona da verdade.”

Ilustração de uma pessoa com várias facetas diferentes.
Henrique Petrus/Superinteressante

Conhece-te a ti mesmo

Em 2017, a Universidade de Oklahoma revisou uma série de estudos sobre o MBTI (a maioria conduzida em estudantes de idade universitária) e concluiu que os resultados referentes às duplas introversão/extroversão, sensação/intuição e pensamento/sentimento apresentaram 75% de confiabilidade (considerado satisfatório). Já o eixo julgamento/percepção, justamente o criado pela família Briggs, alcançou só 61%.

Décadas de discussão sobre a sua eficácia tornaram o MBTI cauteloso. Hoje, o teste é apresentado, sobretudo, como uma ferramenta de desenvolvimento pessoal – a Myers-Briggs Company, empresa que administra o teste, desaconselha que ele seja usado como um funil para selecionar, contratar (e demitir) funcionários.

Ao descrever os tipos psicológicos, Carl Jung defendeu que a plenitude da vida não se resumia a simples dicotomias, mas sim em balancear os traços. Extrovertidos podem tirar proveito de momentos de introversão e vice-versa. Para Jung, é indispensável aprender a dominar a sombra – o lado reprimido da nossa personalidade.

Ou seja: o MBTI, aplicado sob orientação de um bom profissional, pode ser um bom ponto de partida para o autoconhecimento. Só não pode ser a linha de chegada. 

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