Papo
Aos 75 anos, Buzz Aldrin faz parte de um dos clubes mais exclusivos da humanidade: o das 12 pessoas que pisaram na Lua. Tripulante da célebre Apollo 11, Aldrin colocou as botas no satélite da Terra em 20 de julho de 1969, 18 minutos após seu companheiro Neil Armstrong entrar para a história como o primeiro homem a realizar o feito.
Foi o ponto alto de uma carreira brilhante. Formado pela Academia Militar de West Point, a mais disputada dos EUA, nos anos 50 Aldrin pilotou caças na Guerra da Coréia. Já na Nasa, venceu uma rigorosa seleção para ganhar seu lugar a bordo. Desde o retorno à Terra, no entanto, não se desligou do espaço. Escreveu livros, fez conferências e pesquisou o futuro da navegação espacial. Também superou uma crise de depressão que diz ter chegado com a vida de celebridade. Hoje, mantém uma fundação sem fins lucrativos cuja missão é disputar o concorrido mercado do turismo espacial para enviar gente comum ao espaço – pelo mais baixo preço possível.
De que maneira a missão Apollo mudou sua vida?
Me senti especialmente afortunado de ter participado do primeiro pouso na Lua. Foi uma situação incomum e irônica. Estive na superfície lunar, onde muito poucas pessoas já puseram os pés. Ao mesmo tempo, uma multidão aqui na Terra prestava atenção ao que se passava conosco. Aquilo foi compartilhado por todo mundo. O simbolismo da nossa missão foi expresso na placa que deixamos fincada na Lua, dizendo: “Viemos em paz por toda a humanidade.”
E qual foi a sua sensação física ao caminhar na superfície da Lua?
Era uma coisa irreal tanto do ponto de vista visual quanto físico. Escolhi as palavras “magnífico, magnífico, bela desolação” para descrever a paisagem. Com isso quis dizer que era magnífico que a humanidade tivesse progredido a ponto de ir até lá, mas ao mesmo tempo a superfície lunar era pura desolação, sem nenhum tipo de vida. Podíamos ver o céu negro, a Terra no alto e o horizonte curvo, em função do pequeno tamanho da Lua. A baixa gravidade dava uma sensação de leveza em câmera lenta. Mas havia sobretudo a sensação de alívio por termos chegado lá e também a responsabilidade de voltar para casa em segurança. Isso dominava nossos pensamentos.
Por que tantos astronautas sofreram crises emocionais ao regressar à Terra?
Ir à Lua e voltar à Terra não é tão desafiador quanto voltar à Terra e ter de lidar com o restante da humanidade. Pelo resto da minha vida serei obrigado a conviver com um monte de gente em função do meu status de celebridade. Foi por essa razão que dei ao meu primeiro livro o título Volta à Terra. Na minha experiência pessoal, ainda tive de lidar com uma herança familiar de tendência à depressão e ao alcoolismo. Acredito que resolvi todos esses problemas sozinho, mergulhando em atividades profissionais, me associando com outras pessoas e não consumindo álcool.
Qual o objetivo da sua fundação, a ShareSpace?
Quero promover o acesso de cidadãos comuns ao espaço. Meu objetivo é compartilhar o espaço com o maior número possível de pessoas. Nosso plano é conseguir enviar passageiros ao espaço orbital, além da atmosfera terrestre, a uma altitude superior a 100 quilômetros. Na minha opinião, é nessa área que o grande mercado de turismo espacial vai se desenvolver. À medida que tivermos mais pessoas comuns rumando ao espaço, sejam ricos ou não tão ricos, haverá muito mais apoio para missões exploratórias.
Quando os primeiros passageiros poderão comprar pacotes turísticos para o espaço?
Se sua definição de espaço é subir a uma altitude de até 100 quilômetros e descer novamente, numa viagem que chamamos de suborbital, acredito que um vôo do gênero possa acontecer nos próximos 3 ou 5 anos. Existem outros projetos em andamento, como o Virgin Galactic e o SpaceShip2, que estão competindo para chegar primeiro lá. Dou todo o apoio a eles, mas isso não significa entrar em órbita, o que é tremendamente mais difícil. Pode ser que leve entre 10 e 15 anos para que vôos orbitais estejam disponíveis para um punhado de pessoas.
A idéia de sua fundação é enviar pessoas ao espaço pelo preço mais baixo possível. Você tem idéia de quanto uma viagem dessas pode custar?
Vôos orbitais, acima da linha dos 100 quilômetros, podem chegar ao preço de 1 milhão ou 2 milhões de dólares. O preço da passagem vai depender de quantos lugares serão oferecidos aos passageiros. Para baratear, será preciso que o governo e empresas privadas estabeleçam parcerias, porque desenvolver um foguete independentemente do governo tem custo altíssimo, são milhões e milhões de dólares. No caso da ShareSpace, vamos fazer uma espécie de seleção que nos permita obter o apoio do governo na escolha aleatória das pessoas que comprem “ações do espaço”. Seria um processo semelhante ao das bolsas de valores. A diferença é que quem pagar 20 dólares, por exemplo, terá o direito de concorrer a prêmios que podem incluir passeios no espaço. Penso em usar a internet para fazer isso. Também para reduzir custos, nos associamos a uma empresa privada, a StarCraft Boosters, que lida com foguetes reutilizáveis em projetos para a Nasa e a Força Aérea.
Após mais de 35 anos pesquisando o espaço, você acredita na existência de vida extraterrestre?
Considerando os bilhões de galáxias e estrelas que existem, para mim é quase inconcebível que estejamos sozinhos. Creio que vamos encontrar vida em outros planetas habitáveis bem longe de nós, mas essa vida pode não ser tão inteligente como nós. Pode ser também que a vida extraterrestre esteja tão distante de nós que a única possibilidade seja a comunicação entre seres inteligentes através de mensagens enviadas na velocidade da luz. Não creio, no entanto, que os humanos jamais venham a viajar acima da velocidade da luz. Duvido que muita comunicação possa ser feita mais rápido do que a velocidade da luz. E isso pode dificultar terrivelmente o contato de humanos com extraterrestres.
• Vive com a esposa, Lois, em Los Angeles.
• Continua amigo de Neil Armstrong, a quem visita regularmente no estado de Ohio.
• Sua caminhada na Lua durou 1h43. A de Armstrong, 2h13.
• Seu nome original é Edwin E. Aldrin Jr. Nos anos 80, ele adotou legalmento o apelido de infância e passou a atender por Edwin Buzz Aldrin. Buzz, aliás serviu de inspiração para o nome do também astronauta Buzz Lightyear, de Toy Story.
• Além da aviação, Aldrin pratica mergulho submarino.
• Adora acordar cedo. Marcou a entrevista com a SUPER para as 7h30 da manhã. De um sábado!
• Foi o primeiro homem a urinar na Lua.