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Supernovas Por Blog Das maiores galáxias ao interior das células, as descobertas da ciência que vão mudar a sua vida – ou pelo menos te deixar com uma pulga atrás da orelha. Por Bruno Vaiano

Afinal, os vírus são ou não seres vivos?

Um vírus é um bolinho inerte de material genético. Mas parasita organismos com o ímpeto da cavalaria cossaca. Fica a questão: essa coisa é viva ou não é?

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 24 jan 2020, 16h24 - Publicado em 24 jan 2020, 16h19

Pegue um átomo de carbono. Ou melhor: imagine um átomo de carbono, pois seria um pouco difícil pegá-lo na prática. Ele sequer é visível, pois é várias ordens de magnitude menor do que a menor coisa que ainda é grande o suficiente para refletir luz na direção de nossos olhos. Um microscópio óptico vê coisas de 500 nanômetros, 200 vezes mais esbeltas que um fio de cabelo. Mas um átomo de carbono tem 0,22 nanômetros, ou seja: é 2,5 mil vezes menor que o limite inferior do microscópio.

Esse átomo de carbono é como uma peça de LEGO com quatro encaixes, isto é: ele pode fazer quatro ligações covalentes com outros átomos, de maneira a formar moléculas. Algumas moléculas são minúsculas. Um etanol, por exemplo – do tipo que você bebe copiosamente às sextas após o expediente – tem dois carbonos, um oxigênio e sete hidrogênios. Alcança meros 0,44 nanômetros, pouco mais que o número dado acima para um átomo solitário.

(Você talvez esteja achando estranho que os dois números dados acima sejam tão próximos sendo que a molécula tem muito mais átomos. Mas o mundo microscópico não joga de acordo com as regras do nosso cotidiano de metros e centímetros. Na ausência de medições diretas, há vários meios de calcular o diâmetro de um átomo, mas nenhum deles equivale a colocar uma régua no dito-cujo. Em resumo: ciência é algo complicado, rs).

O ponto é que algumas moléculas são realmente enormes. Uma proteína chamada titina, por exemplo – a maior do corpo humano – tem 169 mil átomos de carbono. Ela mede 1 micrômero, ou seja: é quase do tamanho de uma bactéria particularmente pequena. Para uma molécula, isso é muito coisa mesmo. E alguns músculos contém até meio quilo de titina. Isso levanta uma questão: a partir de que ponto podemos considerar algo vivo? A titina é enorme e imprescindível para nós, mas ela está viva?

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Não, é claro.

Em geral, os biólogos concordam que a partir do nível da célula que algo pode ser considerado vivo. Uma célula é um pacotinho gelatinoso repleto de moléculas muito grandes como proteínas – inclua aí as titinas –, DNA e RNA. Nenhuma dessas moléculas, por si só, está viva. A vida consiste nas milhares de reações químicas que se desenrolam entre essas moléculas. A vida é um processo, uma sequência de interações entre os componentes do seu corpo. Nenhum dos seus átomos de carbono está vivo – mesmo assim, você está.

O mais importante desses processos – batizado de dogma central da biologia por Francis Crick – é a maneira como moléculas de RNA mensageiro vão no núcleo da célula, coletam instruções nas moléculas de DNA e levam essas instruções para os ribossomos, onde elas serão utilizadas para fabricar proteínas. Todo ser vivo, de uma bactéria a um elefante, funciona exatamente assim. A razão da existência do seu DNA é armazenar receitas de proteína, e é por meio da execução ordenada dessas receitas que você é construído e operado.

O que nos leva aos vírus. Um vírus é um pedacinho de molécula de DNA ou RNA protegido por um invólucro de proteína. Eles medem algo entre 20 e 300 nanômetros, ou seja: são menores que titinas. Se um vírus fosse do tamanho de uma bola de tênis, um ser humano teria 800 km de altura.

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Existem apenas 586 espécies de vírus que infectam mamíferos, destas, só 253 se dedicam a parasitar humanos. É pouco, considerando que existem centenas de milhares de outros vírus inofensivos para nós e nossos pets. Os vírus não são células. Eles não se alimentam, não respiram, não se locomovem, não se reproduzem sozinhos e não obedecem ao dogma central de Crick. São inertes. De acordo com a esmagadora maioria das definições, não estão vivos.

Mesmo assim, quando um vírus penetra uma célula de seu hospedeiro, ele se aproveita do maquinário molecular disponível ali para criar cópias de si mesmo. Afinal, ele tem DNA (ou RNA). O que lhe falta é um meio de transformar a receita contida neste DNA nas proteínas que ele usa para agir. É aí que entra você. Ou seu cachorro. Ou qualquer outro hospedeiro – inclusive bactérias, que tem uma célula só. Se elas são infectadas, adeus mundo cruel.

“De muitas maneiras, a discussão sobre se vírus são vivos ou não é uma questão filosófica”, diz Nigel Brown, da Sociedade de Microbiologia do Reino Unido. “Nos últimos 15 anos, vírus gigantes encontrados em amebas complicaram nossa visão de vírus como simples estruturas não-vivas. Esses mimivírus e megavírus podem conter mais genes do que uma bactéria simples (…) Esses genes também aparecem nos domínios Archaea, Bacteria e Eucarya [as três subdivisões da vida na biologia contemporânea, chamadas “domínios”]. Alguns pesquisadores argumentam, com base nisso, que eles constituem um quarto domínio.”

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