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Bombardeio castiga Júpiter

E os astrônomos buscam o melhor ângulo para assistir ao espetáculo de luz e efeitos especiais

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h50 - Publicado em 22 jul 2009, 22h00

Augusto Damineli Neto

De 16 a 21 de julho, os telescópios e radiotelescópios de praticamente todos os observatórios do mundo estarão apontados para Júpiter. Durante esses seis dias, os astrônomos “ligarão as antenas” para captar os sinais do choque dos vinte fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 contra o planeta gigante. Como ninguém jamais viu nada parecido, a expectativa é natural. Lamentavelmente, o magnífico espetáculo não poderá ser assistido diretamente aqui da Terra: todos os cálculos prevêem que as colisões acontecerão na face oculta de Júpiter. Assim, os pesquisadores tiveram de bolar meios mirabolantes para tentar captar o máximo possível dos efeitos da colisão.

O melhor deles talvez seja o truque de usar duas das quatro maiores e mais próximas luas de Júpiter como espelho. A idéia é a seguinte: quando cada um dos pedaços do cometa cair sobre o planeta, a energia liberada produzirá um lampejo que deve iluminar Io e Europa e, dessa forma, aumentar o seu brilho. É por meio desse brilho que os astrônomos pretendem acompanhar os acontecimentos (veja quadro abaixo). Como isso estará acontecendo à formidável distância de 800 milhões de quilômetros, os próprios observadores têm dúvidas sobre quanto desses reflexos poderá ser captado pelos instrumentos da Terra. Mesmo porque eles devem ter duração muito curta – cerca de 10 segundos -, alterando o brilho das luas em 10%, no máximo.

Com um pouco mais de sorte, Io ou Europa podem estar escondidos da luz do Sol, na sombra de Júpiter, no momento de alguns choques. Aí, o contraste no brilho deve ser bem maior e, portanto, mais visível. As melhores possibilidades disso acontecer estão nas colisões previstas para os dias 16 e 18. Assistir à fenomenal colisão só pelos reflexos pode parecer pouco, mas da análise desse brilho, os especialistas podem deduzir dados importantíssimos, como a quantidade de energia liberada no choque e até mesmo a massa de cada pedaço do cometa.

Eles esperam também assistir a outro fenômeno causado pela colisão do Shoemaker com Júpiter. Como um cinematográfico efeito especial, cada fragmento espatifado sacudirá violentamente os gases que envolvem o planeta, provocando ondas descomunais, que se espalharão por toda a superfície, até se dispersarem completamente. Captado pelos equipamentos aqui da Terra, esse “maremoto gasoso” permitirá aos pesquisadores mergulhar nos 1000 quilômetros de densas nuvens de amônia e metano que envolvem Júpiter e estudar sua atmosfera.

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O cometa Shoemaker-Levy 9 foi visto pela primeira vez por David Levy e o casal Carolyn e Eugene Shoemaker, do Observatório de Monte Palomar, em março de 1993. (O nome Shoemaker-Levy 9 significa que este é o 9º cometa descoberto pelos três pesquisadores.) Pouco se sabe do seu tamanho original, mas é possível que, inteiro, o cometa tivesse até 10 quilômetros de diâmetro. O esmigalhamento deve ter ocorrido em algum vôo rasante sobre Júpiter, provavelmente em meados de 1992.
Com massa 318 vezes maior do que a terrestre, Júpiter funciona como um grande capturador de cometas. Se tivesse passado a uma distância razoável do planeta, o cometa teria sido apenas desviado. Como passou um pouco mais perto, foi partido em diversos pedaços (veja “Como quebrar um cometa”, no início desta seção).
Ainda que alguns desses blocos de gelo sujo (o material de que são feitos os cometas) sejam bem maiores do que qualquer meteoro já caído na Terra, perto de Júpiter eles são minúsculos. O maior deles não deve ter mais do que 5 quilômetros de diâmetro. Mas este é um típico caso em que tamanho não é documento.

Acelerados pela força de gravidade de Júpiter (equivalente a 2,6 vezes a da Terra), os fragmentos devem bater contra o planeta a uma velocidade de até 220 000 quilômetros por hora. Só para dar uma idéia do que isso representa: a queda de um objeto do tamanho de um chiclete em Júpiter libera mais energia que a explosão de várias bananas de dinamite. Assim, a colisão do Shoemaker deverá liberar cerca de 100 milhões de megatons, ou seja, 10 000 vezes mais que todas as bombas nucleares já fabricadas na Terra.

Teoricamente, é energia mais do que suficiente para provocar os enormes turbilhões nas nuvens. Como tudo isso estará acontecendo do lado escuro de Júpiter, os cientistas terão de esperar cerca de 90 minutos até que a rotação do planeta traga as ondas para o lado visível aqui da Terra. A observação poderá ser muito difícil. Por maiores que sejam, as ondas não passam de “arrepios” na face de Júpiter. Junto com elas, o Shoemaker deverá deixar também “borrões” nos locais em que os fragmentos se espatifarem. As novas manchas devem ser bem menores que a famosa Mancha Vermelha, visível até por luneta.

Mesmo os observadores do Telescópio Espacial Hubble e os pesquisadores munidos de câmeras de infravermelho, que têm as melhores chances, podem passar por um bom período de ansiedade, buscando identificar um pequeno ponto perdido na face de Júpiter. Para os astrônomos amadores, então, as possibilidades são incomparavelmente menores.

Os astrônomos avaliam que as pesquisas possam continuar em 1995, quando, próxima a Júpiter, a sonda Galileu deve fazer uma análise mais detalhada da poeira levantada pela colisão. Eles calculam que, dentro de uns dez anos, parte dessa poeira possa formar um anel em torno do planeta.

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