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Chimpanzés roubam menos de amigos, diz estudo

Quem tem um amigo tem tudo: experimento com duplas de chimpanzés revela capacidade de conter impulsos e ignorar uma guloseima em nome do bom relacionamento.

Por Amanda Nascimento 27 out 2026, 19h00
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Pasa e Yoyo são melhores amigas: dividem comida, cuidam uma da outra e passam as tardes na grama de um santuário de chimpanzés em Uganda. Embora a espécie seja conhecida por roubar comidas uns dos outros, as duas fazem o oposto: quando pesquisadores deixam o abacaxi de Pasa ao alcance da companheira, Yoyo vira as costas e ignora a fruta. A dinâmica se repetiu com outras 25 duplas de animais.

O abacaxi é uma guloseima apreciada pelos chimpanzés e que era inacessível fora dos experimentos. Ou seja, era uma tentação. Em todas as vezes em que identificaram que a fruta não tinha dono, eles mandaram ver e comeram. Já quando a fruta dando sopa pertencia a um chimpanzé que não era amigo, a chance de roubá-lo era maior do que se fosse de um amigo.

A atitude corresponde à primeira demonstração de que chimpanzés são menos propensos a roubar comida de amigos. Descrito na revista Evolution and Human Behavior, o comportamento de Pasa e Yoyo revela uma capacidade de conter impulsos egoístas até então não documentada nestes animais. Elas decidiram priorizar a amizade ao invés de alimentos. 

Esse comportamento está longe do que é esperado de primatas não humanos. O próprio conceito de amizade entre chimpanzés, até pouco tempo atrás, era visto com maus olhos por pesquisadores. Para muitos, atribuir esse termo às relações entre primatas seria uma forma de antropomorfismo, ou seja, projetar valores humanos que não se aplicam sobre animais – por serem evolutivamente distantes.

“Não era óbvio para nós que os chimpanzés roubariam menos de seus amigos”, disse Oded Ritov, autor principal do estudo em entrevista ao New York Times. Para ele, a descoberta aponta que os chimpanzés têm expectativas sociais uns em relação aos outros, como os humanos. “Acreditamos que essas expectativas possam ser um componente básico que, posteriormente, evoluiu para a justiça e outros tipos de moralidade que observamos nos humanos.”

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No entanto, nas últimas décadas, primatólogos vêm encontrando cada vez mais evidências de amizades entre primatas. Entre os sinais estão o apoio mútuo e a confiança depositada nos companheiros com quem têm mais proximidade. E é exatamente esse tipo de relação que a nova pesquisa demonstra: assim como os seres humanos, chimpanzés têm expectativas sociais uns com os outros.

Não somos os únicos: primatas também têm “animais de estimação”

A equipe examinou 800 horas de gravações do santuário em Uganda para identificar quais chimpanzés eram amigos. Em seguida, pesquisadores formaram duplas entre chimpanzés quer eram amigos ou duplas de apenas conhecidos, dando a chance de que eles de agissem como ladrões e roubassem frutas do colega. 

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Durante os testes, os animais ficavam em salas separadas. Em uma delas ficavam as bandejas de metal com fatias de abacaxi. Na outra, o ladrão tinha à disposição cordas ligadas às bandejas que poderia puxar caso quisesse ficar com a fruta. De modo geral, a dupla de amigos era menos propensa a roubar uns dos outros e afastaram as bandejas com abacaxi em 61% das vezes, em comparação com 70% quando se tratava apenas de conhecidos.

Quando um chimpanzé roubava um amigo, a reação era caótica. A vítima começava a fazer coisas como esmurrar o chão, soltar gritos altos ou se coçar em um ataque de ansiedade. Depois disso, porém, eles perdoavam os amigos com rapidez e, nos testes seguintes, acabavam tolerando a trapaça. Já aqueles que eram apenas conhecidos não ganhavam o mesmo benefício: a raiva permanecia a mesma durante todo o experimento.

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Na natureza, as amizades entre chimpanzés se desenvolvem principalmente entre machos, que cultivam laços para se defender de alfas ou para procurar apoio em confrontos contra outros grupos. Já em cativeiro, as amizades se desenvolvem de forma mais ampla dentro do grupo, com menor diferença entre os sexos.

Uma vez estabelecidas, as amizades trazem muitos privilégios. Amigos passam tempo juntos, dão as mãos, se aninham à noite, cuidam uns dos outros em confrontos e se consolam após brigas ou quando um filhote morre. Às vezes, um chimpanzé chega a “sentir ciúme” ao ver um amigo cuidando da pelagem de outro e interfere para impedir que eles criem laços. 

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