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Cores mortíferas dos sapos

Nos sapos das florestas úmidas, a ciência está descobrindo as formas e os tons mais elegantes da natureza. E também os venenos mais violentos do reino animal.

Flávio Dieguez

Nos últimos anos, dezenas de espécies de sapos tropicais foram capturados e estudados pela primeira vez. É que eles armazenam sob a pele um coquetel de substâncias com propriedades extraordinárias. Algumas são venenos fulminantes: a dose de um único sapo, em certas espécies, pode liquidar 20 000 ratos. Ou dez homens. Para os cientistas, essas toxinas podem servir de modelo para fabricar diversos medicamentos novos. Aqui você vai ver as últimas espécies capturadas na Amazônia e na África pelos biólogos da Universidade Paris VII. E vai notar que a riqueza bioquímica guardada sob o couro dos batráquios só é comparável à variedade das estampas que cobrem a sua pele.

Recém-chegada

Com menos de 5 centímetros de comprimento, o Megophrys nasuta é uma das últimas capturas dos cientistas franceses nas selvas da América Latina. Os pesquisadores ainda nem tiveram tempo de analisar suas substâncias.

Feito detergente

O Agalicris callidryas secreta moléculas da classe das proteínas. Feito um detergente, as substâncias bloqueiam a infecção por micróbios. De uma ponta à outra, o sapo mede 10 centímetros.

Pequenos frascos, grandes poções

Eles são minúsculos e belíssimos, mas não se deixe enganar. Basta tocar no corpo de alguns deles para absorver o veneno escondido sob a pele. Aí, é mortal.

Enigma vermelho

Pintado assim, o Mantella aurantiaca não engana ninguém. Sua cor significa “perigo de morte” na gramática da natureza. Para a ciência, que ainda não o estudou direito, é um mistério. Comprimento: cerca de 1 centímetro.

Ouro sobre preto

Por cima, parece uma roupa de gala. Por baixo, a pele do Dendrobates leucomelas está cheia de glândulas produtoras de substâncias da classe dos alcalóides. O bicho tem uns 3 centímetros de comprimento.

Variante em verde

Como o leucomelas, à esquerda, o Dendrobates auratus tem uns 3 centímetros. Também fabrica venenos da classe dos alcalóides, que são 1 000 vezes mais fortes que o curare, tirado das plantas e usado nas flechas dos índios.

Antibiótico vivo

A Phyllomedusa bicolor fabrica uma espécie de antibiótico que ajuda a combater infecções. Os mamíferos também têm esse tipo de proteção, mas a Phyllomedusa, de 5 centímetros, produz 100 000 vezes mais substâncias.

Novata africana

Uma espécie recém-capturada na África, o Kasina senegalensis ainda não teve as secreções de sua pele analisadas por completo. Tem 7 centímetros de comprimento.

Uma farmácia nas costas

Das mais de 300 toxinas produzidas pelos sapos, uma boa parte foi identificada no Instituto Jacques Monod, da Universidade Paris VII. Os especialistas do instituto acham que os anfíbios podem ajudar a criar antídotos para diversas doenças, entre elas o câncer e a asma, e infecções como a leishmaniose e a malária. Para eles, a pesquisa avançaria mais depressa se os animais ficassem em cativeiro. Só que a poção dos bichos perde força se eles recebem uma dieta de insetos pouco variada, como acontece no laboratório. Assim, sem poder avaliar o efeito real das toxinas, os biólogos têm que voltar à floresta com freqüência. É uma grande perda de tempo, sem dúvida. Mas a aventura sempre compensa.