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Em versão olfativa do teste do espelho, cobras parecem reconhecer próprio cheiro

Esse possível sinal de autoconsciência só apareceu em cobras com vida social mais complexa, o que demonstra a importância da dessa habilidade na hora de interagir com outros espécimes.

Por Leo Caparroz 5 abr 2024, 18h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h00
Em versão olfativa do teste do espelho, cobras parecem reconhecer próprio cheiro Priorizar nos meus resultados Google

Existe uma coisa nos estudos sobre cognição chamada “teste do espelho”. Ele é bem intuitivo: você põe animais na frente de um espelho e vê se eles admiram o próprio reflexo ou pensam se tratar de outro bicho. Para nós, humanos, é óbvio que aquela imagem refletida é nossa – bebês a partir de 18 meses já sabem disso. Mas essa capacidade não é universal. 

O teste geralmente envolve colocar alguma coisa estranha na cara do bicho. Pode ser um pingo de tinta colorida no pelo, um adesivo, um pedaço de pano… É importante que essa anomalia esteja fora do campo de visão do animal – na testa, por exemplo –, de modo que ele só consiga percebê-la quando estiver de frente para o espelho.

Se o animal nota e investiga a marca quando vê seu reflexo, isso pode indicar autoconsciência – a habilidade de se tornar o objeto de sua própria atenção. Quando um animal pode identificar sua própria imagem no espelho, existe a possibililidade de que ele consiga diferenciar outros seres de si próprio, reconhecer que seus colegas também têm intenções e até se colocar no lugar de outros indivíduos.

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Autoconsciência não é para qualquer um. Grandes primatas, elefantes asiáticos, golfinhos e corvos são algumas das poucas espécies aprovadas nessa seleta lista animal. Se quiser saber um pouco mais sobre o teste do espelho, recomendamos ler este texto da Super.

Agora que você conhece o teste do espelho, vem aí o “teste do perfume”.

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Um grupo de pesquisadores queria conduzir o teste do espelho com espécies de cobras. Porém, como esses répteis não tem lá a melhor das visões, os cientistas tiveram que adaptar a execução do experimento para o sentido predominante dessas pegajosas: o olfato. 

A descrição do estudo foi publicada em um artigo no periódico especializado Proceedings of the Royal Society B. Nele, o trio de pesquisadores conta como pegou amostras de cheiro das cobras, modificou essas amostras e então observou se elas se reconheceriam e sentiriam curiosidade com a mudança.

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O teste foi aplicado em 36 indivíduos da espécie cobra-liga oriental (Thamnophis sirtalis sirtalis) e 18 índividuos de píton-real (Python regius). A primeira é considerada mais social e a segunda, mais solitária. Eles coletaram  óleo corporal das cobras esfregando pedaços de algodão pela sua pele.

Então, eles deixaram cada cobra sozinha com um entre cinco aromas: o seu próprio, o seu com um pouco de azeite adicionado, apenas azeite, um de outra cobra da mesma espécie e um de outra cobra com um pouco de azeite.

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Os cientistas prestaram atenção no tempo que as cobras passavam agitando a língua. Esse é o principal indicador do interesse de um indivíduo por um cheiro.

As cobras-liga orientais exibiam movimentos de língua muito mais longos quando eram expostas ao próprio cheiro com azeite, em comparação com as outras quatro possibilidades.

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“Elas só fazem movimentos longos com a língua quando estão interessadas ou investigando algo”, diz Noam Miller, um dos pesquisadores do estudo. Isso sugere que as cobras-liga podem reconhecer quando há algo diferente em si mesmas. “Eles podem estar pensando: ‘Isso é estranho, eu não deveria cheirar assim’”.

Por outro lado, as pítons-reais respondiam de forma parecida a todos os cinco cheiros. Os pesquisadores supõe que espécies mais sociais, o caso das cobras-liga orientais, sejam mais propensas a ter autoconsciência.

Faz sentido. Outros animais autoconscientes, como nós, golfinhos e corvos, também são espécies com comportamentos sociais. A habilidade de se reconhecer parece essencial para interagir com outros espécimes da sua espécie. 

Alguns pesquisadores ainda não compraram a ideia de que as cobras seriam capazes de se autorreconhecer. Já outros biólogos consideram as descobertas significativas – e argumentam que esse experimento é mais realista do que o teste do espelho.

Afinal, uma superfície reflexiva não é nada comum na natureza. Contudo, encontrar e compreender a importância dos sinais químicos deixados por você e por seus parentes no ambiente é, provavelmente, um aspecto muito importante da interação rotineira entre esses animais.  

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