Não é só o ser humano: pinguins também se prostituem
Alguns pinguins coletam pedras para fazer ninhos. Outros trocam pedras pela suposta mercadoria mais antiga da humanidade: sexo.
Uma pinguim-de-adélia fêmea caminha nas escarpas nuas e frias do litoral da Antártida. Ela precisa construir um ninho para seus filhotes, mas, ao contrário dos pássaros comuns, não tem acesso a gravetos e folhas. Para a Pygoscelis adeliae, só resta uma matéria-prima: pedras.
Até aqui, parece só o começo de um documentário do Discovery Channel. Calma: algo inusitado vai acontecer. Durante a busca, a fêmea adentra o espaço de um macho desconhecido, onde ele está empilhando um conveniente montinho de cascalho. Ela se inclina em direção ao chão, de costas para ele, para roubar uma pedra e sair discretamente. Mas ele percebe, e se aproveita do gesto para uma rápida cópula. Ao final da interação, o macho, satisfeito, faz vista grossa ao furto, e a fêmea sai com a mercadoria – mais valiosa que cigarro em cadeia – em mãos.
A prática de trocar sexo por objetos de valor, na espécie humana, tem nome (e, em alguns países, carteira assinada). Mas será que a prática acima – relatada em um artigo científico de 1998 – pode ser chamada de prostituição? É difícil saber.
Fiona Hunter, bióloga da Universidade de Cambridge e uma das autoras do artigo, relata ter observado dez fêmeas interagindo sexualmente com machos que não eram seus parceiros habituais. (Aqui é importante dar uma explicação: os pinguins-de-adélia formam pares fiéis e duradouros durante a temporada reprodutiva – mais monogâmicos que muito ser humano por aí.)
Todos os casos seguiam o padrão narrado nos primeiros parágrafos: na ausência do “namorado” oficial, a fêmea oferece sexo a estranhos em troca de pedras, essenciais para a construção de ninhos. Algumas cobram mais caro: uma chegou a levar dez calhaus, e o macho não fez objeções. Em qualquer outra situação, um furto desse porte no ninho causaria uma reação violenta.
Outras dez fêmeas transformaram a prostituição em golpe: começam o ritual de acasalamento, mas o interrompem na metade, antes da penetração. Pegam uma pedra e dão o fora. Uma delas chegou a levar 62 pedras (!) sem nunca completar a cópula.
Os casos acima são diferentes dos das fêmeas que tentam simplesmente roubar pedras, sem segundas intenções. Os machos se aproximam, tentando acasalar, mas elas se esquivam e vão embora – na maior parte dos casos, sem levar pedra nenhuma. De fato, essa é média: só uma parcela muito pequena das fêmeas “se prostitui” deliberadamente.
Segundo Hunter, do ponto de vista evolutivo, a relação só é vantajosa para o macho: uma ou duas pedras são um preço baixo a se pagar diante da possibilidade de fertilizar uma fêmea e passar os próprios genes para a frente. Para a fêmea, por outro lado, uma ou duas pedras para o ninho não são lá muita vantagem. “A fêmea só leva uma ou duas pedras”, afirmou a pesquisadora à BBC na época do estudo. “São necessárias centenas para construir o ninho.”
Essa desvantagem, justamente do lado de quem toma a iniciativa, pede outra explicação. “Acho que elas estão copulando por outra razão, e levar as pedras é só um efeito colateral. Elas estão usando os machos de alguma maneira.” Umas das hipóteses é que a prática seja útil para manter uma agenda de contatinhos – possíveis pretendentes no caso do macho atual morrer antes da próxima temporada reprodutiva. Os estudos sobre a prostituição antártica, infelizmente, nunca foram além disso.






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