Nova espécie rara de macaco descoberta no Congo coaxa como sapo
Vivendo recluso em uma das regiões mais biodiversas da África Central, o Colobus congoensis acaba de ser descrito pela primeira vez por cientistas
No centro-leste da República Democrática do Congo, mata adentro, dá pra ouvir um coaxar profundo vindo lá do alto das árvores, como se um sapo tivesse feito um pulo impossível até o topo da floresta. Olhando para cima, porém, o que se veria é um pequeno macaco, de um tipo raramente flagrado por qualquer ser humano, com uma distinta mancha alaranjada que vai da boca até o nariz.
Após anos de investigação, pesquisadores acabam de confirmar que esse animal – apelidado de Likweli pelo povo local Balanga – é uma espécie inédita, diferente de qualquer outra da região. O Colobus congoensis foi descrito pela primeira vez em artigo lançado nessa quarta-feira (15) no periódico PLOS one, sendo a quinta espécie de primata africano descoberta nos últimos 75 anos. E, segundo os autores, ele já está sob risco de extinção.
Por muito tempo, o Likweli fugiu dos olhares de cientistas. O primeiro registro desse animal foi feito em 2008, enquanto pesquisadores da Lukuru Wildlife Research Foundation expedicionavam para dentro da mata que hoje foi incorporada ao Parque Nacional de Lomami. Do chão, eles fotografaram um macaco de pelagem preta avistado na copa de uma árvore. Mas a imagem saiu borrada.
Ainda assim, a partir dos poucos pedaços visíveis do animal, uma grande suspeita se instaurou entre a equipe, de que aquele macaco não seria igual a nenhuma outra espécie conhecida da região. Mas o bicho misterioso nunca mais deu as caras – pelo menos pelos próximos dez anos.
Daí, em 2018, o pesquisador Jean Pierre Kapale liderou uma nova patrulha para dentro da região, e conseguiu uma fotografia nítida do animal – um macaco de pelos desgrenhados e escuros, com uma calda compridíssima e marcas pálidas ao redor da boca. Não poderia ser nenhum outro macaco. Assim, teve início uma nova investigação. Nos dez meses seguintes, os pesquisadores conseguiram fotografar o animal mais sete vezes. No final, comparando as fotos novas com o borrão de 2008, ficou claro que se tratava do mesmo bicho.
As buscas se estenderam até 2022, enquanto cientistas procuravam pelo animal nas florestas úmidas que ficam entre o rio Lomami e o rio Congo (Lualaba) – uma das regiões mais biologicamente significativas da África Central. No total, foram feitas 114 observações, todas dentro de uma área com mais ou menos 1.700 km², pouco maior que o município de São Paulo.
O macaco parecia fugir dos olhares até de quem vivia logo ao lado. Os pesquisadores perguntaram para moradores de 52 vilas locais os tipos de primata que reconheciam. Em apenas oito vilas havia quem descrevesse a espécie rara. Entre os Balanga, o nome do macaco era Likweli. Já entre as comunidades Mituku, ele era chamado de kasaba nkoni – algo como “aquele que chacoalha os galhos”.
As observações feitas em campo mostraram que o primata tinha quatro dedos em cada mão, incluindo polegares bem pequenos. Essa característica dava uma pista de que a espécie poderia pertencer à subfamília dos colobíneos, um tipo de macaco social que se alimenta de folhas.
Para provar que o Likweli era, de fato, uma nova espécie, os pesquisadores realizaram testes genéticos em laboratório. Para a análise, foram utilizados espécimes desses animais que haviam sido confiscados de caçadores pelos guardas do Parque Nacional.
Os testes confirmaram que a espécie pertencia ao gênero Colobus, e encontraram, também, um parentesco interessante com outra espécie, de outra região. O Likweli é uma “espécie irmã” dos Colobus satanas, que vive a cerca de 1.200 km de distância, no centro-oeste do continente africano. As duas espécies teriam se separado durante a evolução há mais ou menos 4 ou 5 milhões de anos. Não por acaso, as vocalizações (ou, em outras palavras, o coaxar) das duas espécies são similares.
As análises anatômicas do crânio, dos dentes e do rosto também ajudaram a confirmar que essa era uma nova espécie. Com base nos achados, os cientistas descreveram e deram nome científico ao novo macaquinho: Colobus congoensis, em referência à bacia do Congo, onde ele foi descoberto.
O Colobus congoensis é um animal coberto de pelos escuros e, a depender da iluminação, um tanto brilhosos. Ainda assim, o rosto se destaca com uma cor profunda de piche, e os contornos da face, as pronunciadas maçãs do rosto e os olhos de um preto maciço dão a impressão de uma máscara. O rabo é comprido, as orelhas são grandes e o animal todo pesa pouco mais de 5 quilos, sendo mais leve que seus primos do gênero Colobus.
“Continuamos sendo lembrados de que a Bacia do Congo permanece uma das últimas grandes fronteiras do mundo para a descoberta de mamíferos”, disse, em comunicado, John A. Hart, primeiro autor do estudo. “Mesmo em regiões que já foram exploradas cientificamente, espécies completamente novas ainda estão sendo descobertas. Essa descoberta reforça o quanto da biodiversidade da Bacia Central do Congo ainda permanece sem documentação e como essa região continua a transformar nossa compreensão da evolução e da conservação dos primatas.”
Os indivíduos dessa espécie não são muito numerosos, vivem em uma área relativamente restrita e ainda sofrem com a perda do habitat e com a ação de caçadores. Por isso, no artigo, os pesquisadores argumentam que o Likweli já se encontram sob risco de extinção, e recomendam que a espécie seja colocado na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) das espécies ameaçadas.
“A descoberta de Colobus congoensis é, ao mesmo tempo, um triunfo científico e um lembrete preocupante de que algumas das criaturas mais raras da Terra podem desaparecer antes mesmo que o mundo saiba de sua existência”, disse Kate Detwiler, pesquisadora que coordenou o estudo.






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