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Por que a joaninha tem esse nome?

Saiba o que levou esse bichinho a ser "santificado" na Idade Média.

Por Diego Facundini 8 Maio 2026, 12h09

É uma provável homenagem a São João. Como qualquer nome popular, é difícil cravar sua origem exata. Mas o conjunto das evidências leva a crer que o surgimento da nossa “joaninha” está associado ao folclore popular e à tradição católica da Europa.

Uma primeira explicação tem a ver com a prática comum de dar nome de gente aos bichos. Entre os europeus, principalmente os falantes de línguas derivadas do latim (português, espanhol, italiano, etc.), a tradição de apelidar animais bem-quistos com nomes familiares, geralmente de santos, é antiquíssima.

“Joaninha” é diminutivo de “Joana”, que por sua vez é o feminino de “João” – o segundo nome masculino mais comum até hoje, tanto em Portugal quanto no Brasil.

Não faltam joões na natureza. No dicionário, o nome acumula mais de 30 designações para plantas ou animais, incluindo João-de-barro, João-teneném, João-bobo e João-liso. A mesma lógica vale para outros nomes comuns, como José ou Maria (no espanhol, o apelido das joaninhas é mariquita).

De onde vem o nome “kiwi”?

Só que a joaninha não homenageia qualquer João, e sim o São João, apóstolo de Jesus Cristo e um dos santos católicos que, junto com Santo Antônio, figura entre os mais cultuados em Portugal.

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Não à toa, entre os portugueses, as joaninhas por vezes são chamadas de bicho-de-são-joão ou bicho-de-santo-antônio – ao mesmo tempo que nomes como avinha-de-Nosso-Senhor e mosquinha-de-Nosso-Senhor também são comuns.

As evidências desse vínculo religioso também podem ser encontradas em outras línguas europeias – e, em grande parte desses apelidos, a homenageada tende a ser a Virgem Maria, mãe de Jesus. Em inglês, a Lady dos termos Ladybug e Ladybird refere-se à Nossa Senhora. No Francês, os Bêtes de la Vierge são “animais da Virgem”. Entre os escandinavos, a palavra Nyckelpiga se traduz para “Criada das chaves de Nossa Senhora”. Sem contar, é claro, a mariquita citada anteriormente.

De acordo com Rafael Rigolon, professor da Universidade Federal de Viçosa, essa associação aconteceu porque, na Europa, as joaninhas tinham fama de abençoadas – bichos divinos que vem de longe para trazer uma boa-nova.

“Sabe-se que desde a Idade Média joaninha é um inseto ‘santificado’. A tradição popular fala que é proibido matar joaninha, que é pecado ou que a pessoa que mata joaninha é amaldiçoada, porque [a joaninha] tem todo um vínculo com religião, uma vez que ela é benéfica”, afirma o professor de ensino de biologia, que, nas horas vagas, fala de etimologia em sua página no Facebook e Instagram, Nomes Científicos.

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Benéfica num sentido bem prático: esses besourinhos da família Coccinellidae têm um papel importante dentro da agricultura, ajudando no controle biológico das pragas. Mais especificamente, as joaninhas são carnívoras, e se alimentam dos pulgões, insetos sugadores que podem acabar com uma plantação.

“Então você imagina a plantação que estava sofrendo de uma infestação de pulgões e, de repente, quando as joaninhas aparecem, a plantação se livra daquilo. Era um inseto abençoado, né?”, comenta o professor. “Já se sabia dessa função de controle biológico desde que a gente planta as coisas, desde o cultivo primário. Então, sempre teve esse vínculo de colocar a joaninha como inseto sagrado”.

Isso – somado ao fato de que, diferente de muitos insetos, a joaninha não pica – foi receita para que a bichinha fosse canonizada e virasse sinônimo de boa sorte na cultura popular. A chegada das joaninhas passou a ser entendida como presságio de um clima bom; enquanto que matar uma daria chuva na certa.

A joaninha tornou-se associada, também, ao romance – possivelmente por aparecer no mês de Junho, época de Santo Antônio, o santo casamenteiro. No norte da Europa, por exemplo, o pouso de uma joaninha na mão de uma jovem menina passou a sinalizar um matrimônio eminente: basta deixá-la caminhar por toda a mão (medir as luvas de casamento, como dizem) e prestar bastante atenção no momento em que ela alça voo. A direção que ela foi será a mesma de onde um grande amor virá.

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Entre as crianças, também criou-se o hábito de cantar uma lenga-lenga – um tipo de cantiga curta e rimada – toda vez que uma joaninha era vista, ou quando uma subia nas mãos. Em Portugal, até hoje é comum ouvir alguma variação dos seguintes versos:

Joaninha, voa, voa

Que o teu pai está em Lisboa

Com um caldinho de galinha

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Para dar à Joaninha.

O curioso é que cada região possui suas próprias versões dessa canção, em suas próprias línguas, mas com estruturas muito parecidas. Sempre, no primeiro verso, consta o nome local da joaninha, um animal-assistente que é incentivada a voar.

Em inglês, por exemplo, os versos são:

Ladybird, ladybird, fly away home,

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Your house is on fire, your children will burn!

(Ladybird, ladybird, vá voando ao seu lar,

Suas casa está em chamas, suas crianças vão queimar)

Fontes: Rafael Rigolon, professor de ensino de biologia da Universidade Federal de Viçosa e dono da página Nomes Científicos; Artigo A joaninha era de Nossa Senhora. Designações açorianas no campo lexical da fauna; Artigo Arqueologia Etimológica: Três Estudos acerca da Continuidade Linguístico-Cultural do Paleolítico; Artigo Ladybug, Ladybug: What’s in a Name?

Pergunta de Robson Vilanova Ilha, de São Sepé  (RS)

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