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Beber até morrer

O caso do estudante que morreu de vodca acende um alerta: a indústria da bebida, como qualquer outra, busca crescer amealhando consumidores cada vez mais jovens, e o problema só piora. Mesmo assim, há uma saída. E não é a que você imagina.

Por Marcos Nogueira - Atualizado em 31 out 2016, 19h04 - Publicado em 5 dez 2015, 16h45

Numa festa universitária, alunos são desafiados a beber uma dose de vodca a cada 60 segundos. É claro que isso terminaria mal, mas o desfecho da competição em Bauru, interior de São Paulo, foi particularmente desastroso: Humberto Moura Fonseca, 23 anos, estudante de engenharia da Unesp, morreu após tomar 30 doses – 1 litro e meio, ou 600 ml de álcool puro. Outros três jovens foram hospitalizados em estado grave.

O caso, dado seu absurdo, transformou-se numa oportunidade de emplacar um discurso antigo, que prega todo tipo de restrição ao álcool. Ame ou odeie os arautos da sobriedade, porém, o fato é que uma postura policialesca simplesmente não funciona – mesmo nas teocracias islâmicas, onde beber é crime, o alcoolismo é um problema.

Por outro lado, o caso de Bauru serve de alerta para outra realidade: o brasileiro bebe muito. Formulando melhor: o brasileiro que bebe exagera na dose. Temos uma percepção distorcida desse fato porque as estatísticas mais divulgadas diluem o volume de álcool consumido por toda a população. Elas incluem os abstêmios: 42% dos brasileiros. Segundo esse critério, ocupamos a 53ª posição do ranking mundial da Organização Mundial de Saúde, com 8,7 litros de álcool puro anuais por habitante. Mas, se levarmos em conta somente os bebedores, temos um consumo per capita de 15,1 litros. Dá 18 latas de cerveja por semana, ou duas doses diárias de birita forte, como cachaça ou vodca, por dia. Isso é o dobro do que o corpo consegue assimilar sem que você tenha problemas de saúde. E coloca os cachaceiros do Brasil à frente até dos da etílica Irlanda no ranking da beberagem. Pois é. No país onde até café se toma com uísque, e que tem um índice de abstinência de apenas 19%, os bebedores entornam “só” 14,7 litros de álcool puro por ano.  

Eu mesmo sou um cara que bebe muito. Na época de faculdade, embora não houvesse competições cretinas como a de Bauru, fui protagonista de episódios nada edificantes – que envolveram vômito no sapato alheio e completo blecaute. Como Humberto, era um ingênuo com um copo na mão. Ao contrário de Humberto, sobrevivi. O tempo me amaciou, a exemplo do uísque que envelhece em barris. Ainda hoje meu consumo de álcool é maior do que o recomendado para uma vida saudável. Mas muito raramente fico bêbado. Parei de ter amnésia alcoólica, de apagar em público. Parei de fazer merda, enfim. Aprendi a distinguir e apreciar os sabores e aromas. Tornei-me jornalista especializado em bebidas e até tirei diploma de sommelier de cerveja.

Mas a tragédia de Bauru escancara verdades que nós, que escrevemos sobre bebida, não gostamos de admitir. Nossa classe depende de uma relação amistosa com a indústria para se sustentar. Compra o discurso dessa indústria, torna-se um instrumento dela e vive no autoengano. Passa a crer que as pessoas bebem cerveja por causa dos lúpulos aromáticos da Nova Inglaterra e tomam uísque para sentir o aroma defumado dos maltes de Islay, na Escócia.

Cascata.

As pessoas gostam dos efeitos do álcool. Começam a beber para se drogar. Mesmo quando aprendem a apreciar o sabor da bebida, nunca abandonam o prazer de ficar meio altas depois de alguns copos. Não fosse assim, os cursos de degustação de café e chá concorreriam em popularidade com os de vinho e cerveja.

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A indústria, espremida por limitações e obrigações legais, cria uma imagem pública de combate ao consumo precoce e irresponsável. Mas sua atuação vai na contramão desse discurso. Como todo negócio, o ramo da bebida busca crescer, ampliar o lucro e conquistar mais clientes. Interessa-lhe ganhar a simpatia dos adolescentes que acabaram de fazer 18 anos ou estão próximos disso. Assim, toda a estratégia de comunicação das marcas populares de cerveja e de vodca é dirigida ao público jovem.

Entre as ações de marketing dessas companhias, está o patrocínio de eventos cheios de adolescentes, como os carnavais de rua. E, claro, de festas universitárias como a de Bauru. Os produtos parecem ser feitos sob medida para os pós-pubescentes. Nas cervejarias, busca-se um líquido refrescante, de baixo amargor, leve, fácil de beber e, principalmente, barato. Ideal para quem tem pouco dinheiro, paladar infantil e muita sede.

A exceção nessa indústria vai para os setores de cerveja artesanal, de vinhos finos e para as companhias dedicadas exclusivamente ao segmento do alto luxo. Essas miram o consumidor adulto, que só vai morrer de beber caso tenha muito mais dinheiro do que cérebro.

Retomando o episódio de Bauru: ele ultrapassa qualquer noção de bebedeira irresponsável. Irresponsável é tomar quatro cervejas e voltar para casa de carro. O que aconteceu com o rapaz foi brutal – consequência de um comportamento que precisa ser combatido. Mas como? Criar mais proibições não adianta. Jovens sempre dão um jeito de burlar barreiras. Mais impostos? O efeito de uma alta nos preços é um tanto previsível no padrão de consumo: a molecada vai simplesmente migrar para uma bebida mais barata, e provavelmente mais tóxica.

Ações de redução de danos parecem uma alternativa melhor. O hábito de beber é um traço inerente à maior parte das culturas.  Colocá-lo no mesmo balaio das drogas pesadas é uma abordagem míope. A indústria, se fosse banida, seria substituída por outra indústria, clandestina e sem controle algum. Mas que tal então impedir que conglomerados cervejeiros banquem festas de faculdade e eventos culturais que atraem adolescentes? Que tal vetar campanhas publicitárias que estimulam o consumo de álcool como lubrificante social (e sexual)?

Outro caminho, mais difícil, é a educação. Em algum momento da vida, o sujeito descobre que ficar doidão não é o único prazer envolvido no ato de beber. Ele passa, sim, a sentir gostos e aromas na bebida. Torna-se mais seletivo. Toma mais tempo entre um gole e outro. Escolhe bebidas mais caras. Como consequência, bebe menos. E é melhor que esse processo aconteça cedo.

Que fique entre nós: se a sua filha ou o seu filho toma muita bebida vagabunda, você não vai conseguir forçá-lo a virar abstêmio. Então apresente-lhe um bom vinho ou cerveja (caso ele tenha mais de 18, claro). E, se você é o jovem bêbado em questão, experimente coisas mais elaboradas. Uma hora ou outra a transformação da quantidade para a qualidade acontece. É um caminho sem volta – e muito, mas muito mais seguro.

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