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Análise de DNA revela o caso mais antigo de incesto já conhecido entre pai e filha, há 3.700 anos

Descoberto em um cemitério da Idade do Bronze no sul da Itália, o achado foge do padrão arqueológico, geralmente restrito a parentes de segundo grau.

Por Luiza Lopes 21 dez 2025, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2026, 16h30
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Um conjunto de ossos enterrados há cerca de 3.700 anos, no sul da Itália, revelou a evidência genética mais antiga já identificada de incesto entre pai e filha.

A descoberta, publicada na revista Communications Biology, surgiu a partir da análise de DNA antigo de indivíduos sepultados na Grotta della Monaca, uma caverna usada como cemitério durante a Idade do Bronze Médio, entre aproximadamente 1780 e 1380 a.C., na região da Calábria.

O achado é considerado excepcional porque, embora o incesto já tenha sido documentado em contextos arqueológicos, os casos conhecidos envolvem uniões de segundo grau, como entre irmãos. Relações reprodutivas entre pais e filhos, classificadas como de primeiro grau, são muito mais raras e nunca haviam sido identificadas de forma inequívoca em material genético tão antigo.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional liderada por cientistas do Centro de Pesquisa Max Planck Harvard para o Mediterrâneo Antigo, na Alemanha, e da Universidade de Bolonha, na Itália. O objetivo inicial era reconstruir o perfil genético e social de uma comunidade pequena que viveu em uma região montanhosa do sul da península Itálica. O incesto não era algo que os pesquisadores esperavam encontrar.

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Ao todo, foram analisados os restos mortais de 23 indivíduos enterrados na caverna. Os esqueletos estavam fragmentados e misturados, o que dificultou o trabalho arqueológico. Ainda assim, os cientistas conseguiram determinar o sexo genético de 18 pessoas, sendo dez mulheres e oito homens, além de reconstruir vínculos familiares e padrões de ancestralidade.

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Os resultados mostraram que os indivíduos não pertenciam a um único grupo familiar fechado. O DNA revelou uma variedade de marcadores genéticos herdados tanto pelas linhagens maternas quanto pelas paternas, o que indica que aquelas pessoas tinham ancestrais diferentes. Em outras palavras, a comunidade não se formou a partir de um pequeno grupo isolado ao longo de muitas gerações, mas incluía indivíduos com origens diversas.

As análises também revelaram dois casos de parentesco de primeiro grau. Um deles era esperado: uma mulher e sua filha enterradas próximas uma da outra, algo comum em muitos contextos funerários antigos. O outro caso, no entanto, chamou atenção. Tratava-se de um homem adulto e de um menino pré-adolescente.

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Para investigar essa relação, os pesquisadores analisaram os chamados trechos de homozigose, conhecidos pela sigla ROH. Esses trechos são regiões do DNA em que as duas cópias herdadas, uma do pai e outra da mãe, são muito semelhantes. Em populações em que os pais não são parentes próximos, esses segmentos tendem a ser curtos e pouco frequentes. Já níveis elevados de ROH indicam endogamia, ou seja, reprodução entre indivíduos geneticamente aparentados.

A maioria das pessoas enterradas na Grotta della Monaca apresentava níveis de ROH compatíveis com parentescos distantes, sugerindo que seus ancestrais compartilhavam algum grau de relação ao longo das últimas seis a dez gerações. O menino, porém, destoava completamente do padrão. Segundo os autores, ele tinha “a maior soma de segmentos ROH longos já relatada em conjuntos de dados genômicos antigos até o momento”.

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Análises adicionais permitiram concluir, de forma inequívoca, que o garoto era fruto de uma união incestuosa de primeiro grau. Ele era filho do homem adulto enterrado no mesmo sítio e da filha desse homem. Os restos mortais da mãe do menino não foram identificados na caverna.

Apesar do alto grau de consanguinidade, os pesquisadores não encontraram evidências de que o adolescente tivesse desenvolvido doenças genéticas raras, algo que costuma ser mais comum em casos de incesto entre parentes muito próximos.

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A descoberta se soma a outros exemplos conhecidos de incesto no passado humano, mas se destaca pela natureza da relação identificada. Estudos genéticos anteriores já haviam mostrado, por exemplo, que uma neandertal encontrada nas montanhas de Altai, na Sibéria, era filha de pais que provavelmente eram meio-irmãos.

Há também evidências históricas de casamentos entre irmãos em dinastias reais do Egito Antigo, além de um homem da Idade da Pedra encontrado na Irlanda cujos pais eram, ao que tudo indica, irmãos. Todos esses casos, porém, envolvem uniões de segundo grau.

Segundo os autores do novo estudo, a relação entre pai e filha identificada na Calábria é “uma descoberta excepcionalmente rara e notável” e representa a evidência mais antiga desse tipo no registro arqueológico.

O contexto social em que essa união ocorreu, no entanto, permanece um enigma. A comunidade da Grotta della Monaca não parecia ser particularmente pequena, nem apresentava sinais claros de uma hierarquia rígida ou de um sistema de herança elitista, como aqueles em que casamentos entre parentes próximos poderiam servir para concentrar poder ou riqueza.

“A união reprodutiva entre pais e filhos observada em nosso estudo pode refletir um comportamento socialmente aceito”, escreveram os pesquisadores. Eles levantam a hipótese de que isso poderia explicar por que o homem envolvido no caso era o único adulto do sexo masculino enterrado em um cemitério composto majoritariamente por mulheres e crianças.

Ainda assim, não há como saber se a relação foi amplamente aceita pela comunidade, se foi um evento isolado ou se envolveu coerção ou violência. “Este caso excepcional pode indicar comportamentos culturalmente específicos nesta pequena comunidade, mas seu significado, em última análise, permanece incerto”, concluiu Alissa Mittnik, arqueogeneticista do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em comunicado.

 

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