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Como o sorriso conta a história da humanidade

Pensou que dentes brancos serviam apenas para comer carne? Errou. Eles também podem contar a história do homem. Bem-vindo ao fabuloso mundo do riso

Álbum de família. Chegou a hora de dizer “xis”, a famosa tática para que saia um sorriso estampado no rosto. Todos se esforçam para ficar bem, mesmo sem estar lá muito contentes da vida. Já sem paciência e com a boca quase travada, atendem ao último pedido do fotógrafo: “Só mais uma”. E começam a ver as estrelinhas causadas pelo flash. Não importa. Tudo vale para que sejamos, ao menos naquela foto, felizes para sempre.

A cena, que poderia acontecer em qualquer macarronada de domingo, expressa como o sorriso deve ser registrado na atualidade. O padrão é mostrar que estamos de bem com a vida. Mas nem sempre o sorriso feliz esteve em moda. Na Idade Média, por exemplo, artistas adoravam usar a imagem de bruxas, monstros e traidores de Cristo para retratar sorrisos para lá de aterrorizantes. Outros pintores gostavam de dar um ar enigmático à risada, como na Mona Lisa. Derrubar o mito de que o sorriso significa apenas alegria é o que pretende o curador do Centro de Arte Britânica de Yale, o australiano Angus Trumble, autor de A Brief History of the Smile (“Uma Curta História do Sorriso”, inédito no Brasil).

Trumble identificou o sentido artístico do sorriso, das pinturas às propagandas de pasta de dente. Apesar de ser curador, o australiano não se restringiu a obras de arte. Pelo contrário: buscou uma abordagem ampla, com a ajuda de especialistas, para discutir a função do sorriso e suas mudanças de significado cultural e ao longo da história.

Sorrir para quê?

Verdadeiro ou falso, amigável ou assustador, o estilo não faz muita diferença. O fato é que o sorriso sempre serviu como forma de comunicação – talvez a maneira não-verbal mais rápida e eficiente de fazer contato. Tanto é verdade que o sorriso é uma forma de interação social que todo mundo sabe como é difícil vermos pessoas rindo sozinhas. De tão esquisito, começamos a imaginar o porquê. Será que é de mim? Ou o sujeito não bate bem da cabeça?

Uma pesquisa norte-americana de 1978 comprova a teoria do sorriso como fator de ligação social. Em Seattle, 328 pessoas foram observadas enquanto comiam num restaurante fast food. Os pesquisadores Adams e Kirkevold observaram que os solitários não davam uma risada sequer. Os mais idosos sorriam pouco. Na guerra dos sexos, os estudiosos confirmaram a tese de que a mulher é mais extrovertida: elas riam mais e mais alto que os homens. Chegaram à conclusão de que a intensidade do sorriso está relacionada com fatores hormonais – os homens com mais testosterona riem menos.

Em outro estudo, pesquisadores japoneses mostraram o poder terapêutico do sorriso. Em 2001, um grupo sofrendo de alergia viu seus problemas de pele melhorarem mais rápido após assistir a filmes de Charles Chaplin do que outro que foi submetido a torturantes boletins de previsão do tempo. Na Índia, a onda do momento é um tipo de ioga chamado “terapia do riso”.

Comunicação

Em 2002, Amrozi bin Nurhasyim, suspeito de participar do atentado que matou cerca de 180 pessoas numa discoteca em Bali, na Indonésia, deu uma videoconferência que chocou a imprensa ocidental. Durante seu depoimento, a mídia flagrou uma troca de sorrisos entre Amrozi e o chefe da polícia local. Faltou aos jornalistas a percepção de que a risada na Indonésia poderia ter outro sentido que não amizade e gentileza. Lá, o sorriso é apenas uma forma de saudação. O pesquisador Ariel Heyanto, da Universidade de Melbourne, afirma ainda que na principal língua local, o bahasa, só se pronunciam as letras “c”, “j”, “t” e “p” com um sorriso nos lábios. Assim se justificaria a risada durante a entrevista.

O Japão é outra nação que tem visão diferente do sorriso. No país do sol nascente a risada pode ser tanto sinônimo de força como de sedução. Os antigos guerreiros samurais faziam os dentes parecerem podres pintando-os de preto. Assim eles acreditavam espantar inimigos e proteger as famílias de raptos e estupros. Com o passar dos anos, os dentes negros foram encampados por mulheres mais velhas e endinheiradas, que tranformaram o costume em atitude. Até pouco tempo atrás, a moda do sorriso escuro atingia até gueixas, que escondiam dentes cobertos de tintura negra por trás do riso emoldurado em camadas de batom vermelho.

Apesar de o Ocidente geralmente associar o riso a aspectos positivos, cada povo possui sua interpretação. Os franceses não riem para estranhos porque acham essa atitude estúpida e gratuita. Os ingleses consideram a gargalhada vulgar e cínica. Na Grã-Bretanha, existe até a expressão “I should smile” (“eu deveria sorrir”), algo como “você está de brincadeira comigo”. No Brasil, a arte costuma mostrar um sorriso largo, numa provável influência dos dentes brancos e bem-alinhados dos negros. O curador australiano encontrou nos países com passado escravocrata a tendência de retratar negros risonhos e com semblante alegre.

Análise do sorriso

Trumble elaborou uma lista determinando diferentes tipos de sorriso e seus significados. É uma abordagem pessoal, mas que passa por diversos momentos do desenvolvimento político e social da humanidade. A relação vai da plasticidade da Mona Lisa ao riso plastificado dos apresentadores de televisão. A seguir, alguns dos sorrisos mais marcantes da história.

O primeiro sorriso

Os registros mais antigos de sorrisos na arte estão em máscaras, esculturas e estátuas gregas que começaram a surgir no século 7 a.C. Os artistas deixavam os dentes escondidos, com uma abertura média dos lábios. É aquele sorriso meio tímido e com o mínimo de alteração nos músculos da boca. As máscaras eram usadas no teatro e para esconder o rosto durante o Carnaval e as guerras. As esculturas e estátuas faziam um agradecimento aos deuses gregos, sobretudo Apolo, que representa a música, a arte e a poesia. A homenagem era tal que obras decoravam o túmulo de pessoas queridas, com valor simbólico semelhante ao que os santos têm nas sociedades católicas.

Trumble enxerga no sorriso grego uma relação com a juventude e a vitalidade dos antigos atletas olímpicos. Mas a risada de um jovem não seria mais expansiva? O australiano afirma que na Antiguidade havia grande dificuldade em retratar o movimento do rosto durante o ato de sorrir, com seus músculos e articulações em ação. Artistas utilizavam até cadáveres em suas pesquisas para imitar a boca e seus movimentos. Daí a explicação para esse sorriso sempre sem graça, de representação contida e dentes escondidos.

Sorriso apavorante

Na Idade Média, por volta do século 12, sorrisos podiam ser vistos no rosto de homens e mulheres considerados bruxos, feiticeiros, vampiros e traidores da fé cristã. Às vésperas de terminar a vida queimados na fogueira, os condenados eram registrados para a eternidade ao receber a visita de um artista. Outras vezes, os pintores nem se inspiravam na suposta bruxa. Apenas imaginavam como eram essas “pessoas do além”.

Nos quadros, o sorriso já aparece com os dentes à mostra, embora eles estejam sempre sujos e afiados. A inexistência de tratamentos odontológicos deixava-os com aparência ainda mais desagradável e assustadora.

Assim, o sorriso da idade das trevas recupera a função que tinha na Pré-História: apavorar. Mesmo que não existam indícios de risadas nas pinturas deixadas em cavernas, sabe-se que nossos ancestrais geralmente sorriam para afastar inimigos na luta pelo território. Os dentes ficavam expostos e a mandíbula superior se juntava à inferior. Era necessário deixar claro que a força começava pelos dentes.

Sorriso à grega

Como todo o movimento artístico renascentista, o sorriso do século 16 é completamente inspirado pela representação grega. O mais famoso deles está nos lábios da onipresente Mona Lisa, do italiano Leonardo da Vinci. Assim como o restante da obra, a análise do sorriso é polêmica – e as interpretações vão do enigmático ao diabólico. O influente crítico inglês John Ruskin afirmou não ter encontrado nada de revolucionário no quadro. Para ele, Da Vinci é escravo do sorriso grego, chamado de arcaico. Até Freud tentou explicar a obra mais famosa do mundo. No artigo Um Estudo da Psicossexualidade, o pai da psicologia diz que o sorriso é uma referência à mãe de Da Vinci e à homossexualidade dele.

Sorriso conquistador

O sorriso como método de sedução está na arte de todos os tempos por ser o mais infalível dos artifícios de atração humana. Os olhos podem até ser a janela da alma, mas prestamos atenção na boca mais que em qualquer outra parte do corpo humano, afirma o australiano. As pessoas também ficam mais bonitas quando riem, de acordo com uma pesquisa publicada pelo Jornal de Psicologia Social Europeu. Quem já não paquerou lançando mão de um sorrisinho sem graça?

Sorrir para atrair é tão importante que o batom enfeita as bocas das mulheres desde a Antiguidade. A tintura de alga marinha marcou época na moda da Mesopotâmia, enquanto a henna adornava o lábio das mulheres egípcias antenadas com as últimas tendências do mundo fashion. Atualmente, sabe-se que o consumo de batom costuma aumentar em momentos de crise econômica, num provável efeito da tentativa feminina de turbinar a beleza e assim fazer um contraponto com a falta de dinheiro. Em plena recessão norte-americana de 2001, por exemplo, as vendas do cosmético cresceram 6% em relação ao ano anterior. Foram gastos nada menos que 836 milhões de dólares na compra de batom.

Na arte e na fotografia, o sorriso charmoso é mostrado com os dentes expostos ou não. O que vai determinar isso é o momento histórico. Mais importante que a abertura dos lábios é o objetivo do sorriso. E assim uma certa malícia, sutil e conquistadora, torna-se ponto comum entre as imagens.

Sorriso falso

O sorriso atual ficou mais aberto e expansivo. Mas, para Trumble, o que poderia ser um sinal de mais alegria virou falsidade. Basta ver a performance dos apresentadores de noticiário na televisão. A maioria muda de semblante com enorme facilidade. Vão da tristeza para a alegria a cada corte de câmera.

A fotografia também facilitou o retrato do sorriso com os dentes expostos. Primeiro, porque não havia mais a dificuldade de os pintores mostrarem de forma fidedigna os músculos e articulações. Depois, o sorriso foi uma maneira de dar movimento à imagem, numa tentativa de imitar o cinema. Quando a fotografia foi desenvolvida, é bom lembrar, havia pessoas que acreditavam que suas almas seriam capturadas pela imagem. A descontração da risada ajudou a amenizar esse trauma.

O sorriso começou a aparecer nas fotografias em 1860, 40 anos após os primeiros experimentos de foto, quando a tecnologia conseguiu diminuir o tempo de exposição necessário para marcar o filme. É difícil imaginar que alguém agüentaria ficar 45 minutos sorrindo, como era preciso nos primeiros retratos. Ainda mais quando sabemos como é difícil fixar um simples sorriso, nem que seja por alguns segundos.

Outra falha do retrato do sorriso na atualidade é o glamour criado em torno dos dentes brancos e saudáveis, como nas propagandas de creme dental. No futuro, afirma o pesquisador, as representações dos dentes ficarão cada vez mais brancas e maiores. Trumble, no entanto, quer distância desse modismo. “Tenho dentes pequenos e descoloridos. Se eles mudarem, meu sorriso não será mais o mesmo”, afirma. E, de sorriso falso, já basta nossa história.

Como extrair um sorriso

Diga “xis” e um brasileiro mostrará seus dentes. A senha mais manjada pelos fotógrafos é uma tropicalização do britânico cheese (“queijo”), utilizado nos países de língua inglesa. Ao redor do mundo, cada lugar tem seu dicionário para fazer rir.

Japão – Whisky
República Checa – fax
Austrália – sex (sexo)
Suíça – omelett (omelete)
China – qiezi (beringela)
Espanha – patata (batata)
Finlândia – muikku (peixe)

Para saber mais
A Brief History of the Smile
Angus Trumble, Basic Books, 2004