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O mar está pra peixe

Os oceanos abrigam 80% dos seres vivos. Lá tem de tudo, da imensa baleia-azul ao minúsculo fitoplâncton.

Spensy Pimentel

Você morre afogado no oceano se não souber nadar, mas saiba que lá é um lugar mais hospitaleiro para os seres vivos do que a superfície terrestre. Os mares concentram 80% dos 10 milhões de espécies de animais e de plantas no planeta. Com tanta variedade, por que será que os peixes são os únicos seres que vêm à cabeça sempre que a gente pensa nos bichos marinhos? Os peixes podem até ser “os organismos mais bem-sucedidos no ambiente aquático”, como define o zoólogo Naércio Aquino de Menezes, professor da Universidade de São Paulo. Mas esse fato não torna mais fácil sua sobrevivência em meio à complexa cadeia alimentar que sustenta os animais no oceano. A rede começa com o fitoplâncton, plantinhas cujo diâmetro raramente excede o de um fio de cabelo humano. Ele serve de alimento para o zooplâncton, bichos minúsculos que costumam acabar na barriga dos crustáceos (como o siri) e dos peixes menores. Esses carnívoros, por sua vez, são caçados por peixes maiores e estes, por outros maiores ainda. No topo da cadeia reina o tubarão – o maior predador dos oceanos – e os grandes mamíferos, como o golfinho e a orca. Numa exceção curiosa, o maior animal do planeta – a baleia-azul, com 30 metros e 130 toneladas – tem como alimento principal o krill, um camarãozinho dos arredores do Pólo Sul.

Pernas para quê?

Não é fácil se mover em um ambiente mil vezes mais denso que o ar. Para os vertebrados, tudo bem. Graças ao seu formato hidrodinâmico, os peixes (na foto, um bodião, no litoral brasileiro) e os mamíferos marinhos se locomovem na água com muita eficiência. Já os invertebrados usam métodos mais complexos. A lula tem um sistema de propulsão a jato – a água é sugada para uma bolsa e, em seguida, expelida com força, empurrando o bicho para a frente. A água-viva contrai e relaxa o capuz que a recobre para ser impulsionada na direção que quer seguir. Mas há sempre o perigo de ser levada por uma corrente, desviando-se do caminho.

Sexo aquático

A maioria dos animais marinhos se reproduz de uma forma que você dificilmente acharia divertida. A fêmea despeja os ovos na água e o macho espalha suas células sexuais por cima. Só os mamíferos – além de alguns peixes cartilaginosos, como o tubarão – têm contato físico no acasalamento. Nos golfinhos, os machos são dotados de pênis e os filhotes ficam em bolsas, no corpo da mãe, até serem capazes de se virar por si. Há quem dispense totalmente o sexo, como os corais. É o brotamento, em que um pedaço se desprende da mãe para dar origem a um novo ser. As esponjas, espertas, combinam o sexo com esse meio de reprodução.

Cada um por si

No mar, ao contrário da terra, tem pouca planta e muito bicho. Resultado: quase todos os animais são carnívoros, o que torna a existência um perigo constante. Nessa selva aquática, cada um se defende como pode. O mimetismo é uma das principais estratégias de proteção – para enganar os predadores, o bicho se confunde com o cenário onde mora, como esta solha. O peixe-leão parece um destaque de escola de samba, mas é muito perigoso. Suas vistosas plumas têm as pontas impregnadas de uma toxina que pode até matar. O polvo usa o equivalente à nuvem de fumaça das guerras na superfície. Acuado, lança um jato de tinta que deixa a água turva, facilitando a fuga.

Hora do almoço

No mar, a boca de cada bicho corresponde ao seu tipo de cardápio. O tubarão, um predador especialmente voraz, possui sucessivas fileiras de dentes. Quando os da frente caem, os de trás podem substituí-los prontamente. Moluscos que vivem em conchas, como as vieiras, não têm dentes nem boca. Eles são dotados de cílios que filtram a água do mar, retendo as plantinhas que compõem a sua dieta.