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As mudanças climáticas comprometem a produtividade ou qualidade do grão de soja?

Estudo brasileiro indica que altas temperaturas, seca e excesso de CO₂ alteram a composição nutricional da soja, mesmo com aumento da produtividade.

Por Ana Clara Caielli Barreiro 19 Maio 2026, 08h00

O Brasil se destaca como o maior produtor mundial de soja. Só na safra 2025/26, o país produziu 180,13 milhões de toneladas do grão, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Diante dessa importância econômica e alimentar, pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) decidiram investigar como as mudanças climáticas, que vêm ganhando força nas últimas décadas, podem afetar a produção e a qualidade nutricional da soja.

Para isso, os cientistas analisaram dados sobre a composição dos grãos e cruzaram essas informações com três fatores associados às mudanças climáticas: aumento da temperatura, períodos de seca e maior concentração de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera. O objetivo era prever como esses elementos, atuando simultaneamente, alterariam o metabolismo da planta.

Os resultados chamaram atenção: as mudanças climáticas poderiam aumentar a produtividade da soja em cerca de 50%. Em compensação, a qualidade nutricional do grão cairia significativamente, com alterações importantes em sua composição.

A combinação dos três fatores reduziria em cerca de 20% a quantidade de amido presente na soja, o que diminui o valor energético do produto. Já o teor de proteínas cairia 6%, uma mudança relevante, considerando que a soja é uma importante fonte de proteína tanto para rações animais quanto para dietas vegetarianas e veganas.

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Por outro lado, os pesquisadores observaram um aumento de 175% na concentração de aminoácidos, resultado que surpreendeu a equipe. Voltando para as aulas de biologia do ensino médio, os aminoácidos são moléculas orgânicas simples, que se unem para a formação de proteínas. Os cientistas ainda investigam quais impactos essa grande quantidade de aminoácidos pode causar na nutrição animal e humana.

Os resultados foram publicados no periódico científico Food Research International e se trata do primeiro estudo a estimar o impacto simultâneo desses três fatores climáticos sobre a soja.

Pesquisas anteriores já haviam mostrado que o aumento do CO₂ poderia proteger as plantas da redução da produtividade causada pela seca e altas temperaturas. No entanto, os três fatores nunca haviam sido calculados em conjunto.

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“Eu esperava que os três fatores de estresse se anulassem e o crescimento da planta não se alterasse muito. Me surpreendeu o fato de ela crescer mais sob três fatores de pressão. Isso significa que a temperatura e o alto CO2 estão contribuindo para esse efeito, já que a seca, sozinha, faria a planta produzir menos”, afirmou Marcos Buckeridge, um dos autores do estudo, em comunicado.

A título de comparação, estudos prévios mostraram que, considerando apenas o aumento do dióxido de carbono, a produtividade da soja aumentaria 142%. Já o aumento isolado da temperatura reduziria a produção em 91%, enquanto a seca (considerada isoladamente) causaria uma queda de 60%.

Esses resultados mostram como a interação entre diferentes fatores climáticos é essencial para compreender os impactos reais das mudanças climáticas sobre a agricultura.

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Um método de pesquisa inovador, com IA

Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram uma modelagem preditiva feita por inteligência artificial. Basicamente, é uma técnica estatística que analisa dados experimentais e realiza projeções estatísticas sobre cenários futuros. Os dados usados na modelagem foram produzidos pelos próprios pesquisadores, em experimentos científicos validados em laboratório.

Esse tipo de abordagem é importante porque experimentos que simulam simultaneamente aumento de temperatura, seca e elevação de CO₂ exigem estruturas tecnológicas extremamente complexas. Na USP, por exemplo, existem as chamadas “câmaras de topo aberto”, que contém as plantas e são capazes de manipular o ambiente, aumentando a temperatura, injetando gás carbônico e simulando seca nas plantas, por exemplo. A questão é que isso pode ser feito apenas de forma isolada ou em combinações de dois fatores. Utilizando somente essa tecnologia, seria impossível fazer um experimento triplo.

Estufas de vidro em formato de sino abrigam plantas verdes em vasos pretos, com um túnel transparente horizontal no centro, em um laboratório de pesquisa agrícola, experimento com plantas de soja sob alto CO2 e alta temperatura.
(Lafieco/IB-USP/Reprodução)
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Por isso, a solução dos cientistas foi realizar os testes experimentais de forma individual e em pares, com os equipamentos disponíveis e, em seguida, usar a inteligência artificial para projetar as alterações desses três fatores climáticos de forma conjunta. É um processo complexo, e a IA não realiza a pesquisa sozinha. Na verdade, ela é utilizada como ferramenta pelos pesquisadores.

Agora, a próxima etapa da pesquisa é identificar quais genes da soja estão envolvidos nessas alterações metabólicas.

A expectativa é que os resultados possam ajudar no desenvolvimento de modelos agrícolas para cenários de mudanças climáticas. Além disso, espera-se que a metodologia também seja aplicada a outras espécies agrícolas.

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