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Como os mosquitos passaram a gostar de sangue humano

Novo estudo revela que a preferência dos pernilongos pelo nosso sangue surgiu há 2 milhões de anos, ligada à migração do Homo erectus.

Por Diego Facundini
28 fev 2026, 18h00 •
  • A preferência de certos mosquitos pelo sangue de seres humanos foi um gosto adquirido, e isso aconteceu há quase dois milhões de anos, segundo um novo estudo.

    Mais do que inconvenientes, os mosquitos ocupam a posição dos animais que mais matam seres humanos no mundo. Vetores de doenças como a malária, a dengue e a chikungunya, eles foram responsáveis pela morte de mais de 600 mil pessoas em 2022 – e isso só levando em conta os casos de malária.

    Ainda assim, as espécies letais são uma minoria. Dos aproximadamente 3.500 tipos de mosquito de que temos registro, menos de 10% podem carregar doenças que fazem mal aos humanos, e uma fração pequena deles gosta do sabor do nosso sangue (os chamados “antropofílicos”).

    Desses, um conjunto de 20 espécies ganha destaque: o gênero Anopheles. Enquanto outras espécies tendem a variar o cardápio chupando as veias de outros primatas, como orangotangos e bonobos, esse grupo é particularmente afeito ao nosso sangue.

    De acordo com um novo estudo, a formação desse paladar específico provavelmente aconteceu uma única vez, entre 2,9 milhões e 1,6 milhão de anos atrás. Esse surgimento deu origem a algumas das principais linhagens de mosquito que, hoje, picam a gente.

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    A evolução dessa característica coincide com a chegada de uma espécie anterior de seres humanos, o Homo erectus, em uma região conhecida como Sondalândia, há 1,8 milhão de anos. A pesquisa sugere que seres humanos deveriam ter estado presentes em números consideráveis dentro desse grande arquipélago, que hoje está submerso, para que tal gosto fosse adquirido pelos mosquitos.

    Para chegar a essa conclusão, o estudo publicado no periódico Scientific Reports analisou o DNA de 40 mosquitos de 11 espécies diferentes dentro do grupo Leucosphyrus, de forma a traçar a história evolutiva desses insetos. Os pesquisadores foram capazes de apontar onde e quando os mosquitos deixaram de picar outros primatas para beber o sangue humano.

    Uma mudança de paladar não é simples. São necessárias diversas alterações em genes relacionados ao olfato, que guiam os vampiros às suas presas. Isso sugere que, naquele período, os humanos e os mosquitos da região tiveram que conviver por um tempo considerável, em números grandes.

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    O estudo também traz contribuições importantes para a arqueologia. Mais especificamente, seus resultados ajudam a compreender quando exatamente os primeiros humanos saíram da África em direção à Ásia. Coincide, por exemplo, com a idade de fósseis com pelo menos 1,77 milhão de anos encontrados em sítios arqueológicos na China.

    Enquanto o grupo Leucosphyrus foi o primeiro a aprender a gostar do nosso sabor, ele não é o único sommelier do nosso plasma. Nos últimos 10 mil anos, outras espécies também passaram a adotar o mesmo paladar, como o Aedes aegypti, vetor de doenças como a dengue e a zika. São mudanças que continuam ocorrendo na medida em que cada vez mais pessoas ocupam áreas desmatadas e o número de animais cai, forçando os mosquitos a adotarem uma dieta mais humana.

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