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Por que voltar à Lua?

A nova era da exploração lunar pode trazer vantagens para a ciência e para a economia, além de ser um feito que nos define como humanidade.

Por Filipe Vilicic 17 jun 2026, 12h05
Por que voltar à Lua? Priorizar nos meus resultados Google

“Por que você resolveu escalar o Monte Everest?”, perguntou um repórter do New York Times em 1923 ao alpinista George Mallory, que participou das três primeiras expedições da Inglaterra à montanha. “Porque está lá”, respondeu o aventureiro.

Mallory morreu em 1924, aos 37 anos, durante uma nova tentativa de chegar ao pico do Everest. A primeira subida bem-sucedida ao cume só ocorreu nos anos 1950.

O engenheiro Marco Antonio Chamon, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), lembrou dessa história quando questionado sobre por que voltar à Lua agora. Em abril, a missão Artemis II, da Nasa, realizou o primeiro voo tripulado para o satélite em mais de 50 anos.

Estima-se que o Programa Artemis já gastou mais de US$ 90 bilhões desde seu início, em 2012. Cada dia de lançamento de foguete custa em torno de US$ 4 bi. Será que vale a pena gastar toda essa grana só porque a Lua “está lá”?

Artemis III: como será a próxima missão lunar, prevista para 2027?

“Por trás desse desafio tecnológico está uma injeção muito grande de recursos no sistema industrial”, diz Chamon. Não só nos EUA. “A ESA [Agência Espacial Europeia, na sigla em inglês] participa, o Japão também, além de várias nações integrantes do projeto Artemis, do qual o Brasil é signatário.”

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O orçamento da Nasa para 2026 é de US$ 24 bilhões. De acordo com relatórios do governo dos EUA, calcula-se que a agência gere, hoje, US$ 70 bi anuais em produção nacional. Isso dá 3 dólares para cada 1 investido.

A Nasa tem uma página em seu site dedicada a explicar esse retorno financeiro. Desde 1976, inovações desenvolvidas pela agência levaram à criação de mais de 2 mil produtos, em áreas como computação, agricultura, meio ambiente, medicina, segurança pública, transportes e entretenimento.

A lista inclui GPS, filtros de água, pequenas lentes fotográficas de smartphones, robôs de fábricas, impressoras 3D que fazem alimentos, equipamentos de combate a incêndio, aspiradores de pó portáteis, ou mesmo a espuma viscoelástica – aquele material que se ajusta ao formato do corpo e é usado nos famosos “travesseiros da Nasa” (que não são vendidos pela Nasa, diga-se).

“Tem motivos econômicos que se pagam, outros investimentos que você vê em outras áreas não dão o mesmo retorno a longo prazo”, diz o engenheiro Lucas Fonseca, que trabalhou na ESA e hoje está à frente da Garatéa-L, missão privada brasileira que planeja enviar uma sonda para o entorno da Lua.

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Legal. Mas, se há tantas benesses, por que só estamos voltando agora?

Primeiro, a questão geopolítica. Há uma nova corrida espacial, desta vez entre EUA e China. As duas potências têm como meta enviar naves tripuladas para o solo lunar antes de 2030, e mandar humanos a Marte na década seguinte. A disputa por hegemonia fez todo mundo aquecer os propulsores.

Há também a ambição de explorar as riquezas da Lua. Hoje, o foco é o Hélio-3, um isótopo raro na Terra, mas abundante no solo lunar, cotado como combustível ideal para a fusão nuclear limpa, que pode revolucionar o setor de energia.

A Lua também é rica em substâncias valiosas, como minérios. “Cada cratera é uma reserva de material metálico, porque algum asteroide caiu ali”, diz Fonseca. Existe ainda a perspectiva de a Lua virar um entreposto para a exploração no Sistema Solar.

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“Veem a Lua como um lugar em que vamos desenvolver as tecnologias que possibilitarão a exploração humana de Marte”, afirma o cientista Nilton Rennó, professor da Universidade de Michigan e que participou da missão Phoenix, da Nasa, responsável por descobrir que há água sob o solo marciano. Rennó aponta como a exploração lunar faz brilhar os olhos até do setor privado: “A Blue Origin, de Jeff Bezos [fundador da Amazon], aposta em colocar lá servidores de dados, que demandam muita energia na Terra e causam impactos ambientais e sociais”.

Nesse cenário, energia solar e o Hélio-3 da Lua abasteceriam os servidores sem demandar recursos da Terra. Rennó diz que a Nasa vislumbra, no futuro, uma estação lunar permanente, com um potencial comercial enorme, que vai da extração de minerais e do mercado de dados digitais à instalação de painéis solares com eficiência maior que os na Terra, já que na Lua não há atmosfera significativa.

A importância de ser curioso

É natural que, ao ler sobre a Artemis, você faça a seguinte reflexão: por que não investir todos esses bilhões em urgências mais, digamos, terrestres, como ações humanitárias?

Esse é um questionamento válido. Mas é preciso considerar que o valor destinado à exploração espacial é mínimo se comparado ao de outras áreas. Nos EUA, o orçamento da Defesa é de US$ 900 bilhões, mais de 37 vezes o da Nasa. No Brasil, a ciência espacial custa R$ 139 milhões por ano, pouco se comparado a pastas como Educação (R$ 540 bilhões), Saúde (R$ 260 bi) e Defesa (R$ 142 bi).

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“Com todo o dinheiro da ciência espacial, não se resolveria uma grande mazela imediata da humanidade nem por um ou dois dias”, diz Fonseca. “Porém, o que pode acontecer é que, através do que é descoberto e inventado pela exploração do espaço, se descubram soluções para essas mazelas bem maiores.”

Toda a indústria moderna de telecomunicações só existe porque, lá atrás, o soviético Sputnik 1 inaugurou a era dos satélites. Na medicina, as contribuições da Nasa vão de avanços na detecção de tumores a terapias de estímulos musculares. Ferramentas que salvam vidas.

O caminho para essas invenções, porém, não é sempre tão claro. Quando Michael Faraday descobriu o princípio da indução eletromagnética (um ímã em movimento é capaz de gerar corrente elétrica), ele jamais poderia imaginar como os geradores nascidos a partir daí revolucionariam a sociedade.

“Em nenhum período de sua carreira ele se interessou por utilidade”, escreveu o educador Abraham Flexler (1). “Ele estava absorto em desvendar os enigmas do Universo.”

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A boa ciência anda a passos lentos, e é preciso que gerações de cientistas, curiosos incansáveis, conduzam pesquisas e expedições para responder às questões que tiram o sono deles – e o nosso.

Na jornada em busca do conhecimento, podemos encontrar pelo caminho respostas para os problemas que nos cercam. Mas isso só é possível se nos lançarmos ao desconhecido. A montanha não virá até nós. Cabe a
nós escalarmos.

Fonte (1) ensaio The usefulness of useless knowledge.

Filipe Vilicic é jornalista especializado em divulgação científica, mestre em Ciências da Comunicação pela USP e autor, dentre outros, do livro O Clique de 1 Bilhão de Dólares, sobre a história do Instagram.

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