Nitazeno: novo derivado da droga é detectado no Brasil
A chegada da nova classe de substâncias no país exige testes em massa para evitar crise sanitária, segundo especialistas.
O nitazeno é um substância sintética cinquenta vezes mais potente que o fentanil – opioide que protagoniza uma epidemia de drogas nos Estados Unidos. Agora, um novo composto dessa classe de drogas, conhecido como N-pirrolidino protonitazeno, causou a primeira hospitalização no Brasil, segundo pesquisadores da Unicamp.
A substância foi detectada em um paciente atendido no Hospital de Clínicas de Campinas após o consumo de uma dose de ecstasy adulterado.
O homem chegou ao pronto-socorro com sonolência intensa e perda de consciência, sintomas comuns de intoxicação grave por opioides. O quadro se estabilizou após a administração de naloxona, um antídoto usado em casos de overdose.
O risco vai além do poder letal. “Essas substâncias misturadas [o N-pirrolidino protonitazeno e o ecstasy] causam efeitos inesperados. As pessoas usam drogas misturadas, e, por exemplo, podem fazer o uso de antidepressivos. Isso acaba potencializando os efeitos. Pense que são os mesmos receptores do cérebro recebendo todos esses estímulos”, explica José Luiz da Costa, coordenador do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp, para o g1 Campinas.
O N-pirrolidino protonitazeno pertence ao grupo de drogas conhecidas como novas substâncias psicoativas (NSPs) – compostos criados em laboratório que imitam o efeito de drogas conhecidas, mas são quimicamente diferentes o suficiente para escapar da legislação vigente.
“Alguns nitazenos foram sintetizados no passado como tentativa de serem fármacos analgésicos, mas nunca foram para o mercado, justamente por não terem margem de segurança terapêutica. No caso do componente N-pirrolidino protonitazeno, nunca foi nem testado”, Costa ao g1.
A descoberta ocorreu no âmbito do Projeto Baco, uma parceria entre o CIATox e o Ministério da Justiça, que entre 2022 e 2025 analisou amostras de saliva de frequentadores de festas em todo o país. O estudo revelou que mais de 70% dos voluntários haviam consumido drogas ilícitas, e que a maioria desconhecia as substâncias realmente presentes no que haviam ingerido.
Entre as drogas mais encontradas estavam MDMA, cocaína e metanfetamina, mas também apareceram compostos menos conhecidos – derivados do MDMA, cetamina e catinonas sintéticas.
Nos Estados Unidos, o fentanil foi responsável por cerca de 78 mil das 105 mil mortes por overdose em 2023. Como outros opioides, ele é usado em contexto clínico para sedação e manejo de dor. Ele é 100 vezes mais potente que a morfina e 50 vezes mais que a heroína. O nitazeno, por sua vez, é 50 vezes mais potente que o fentanil.
Em janeiro deste ano, o nitazeno foi incluído pela Anvisa na lista de substâncias proibidas. A Polícia Federal já havia apreendido nitazeno misturado a outras substâncias em estados como São Paulo e Minas Gerais.
Os especialistas alertam que a proibição sozinha não é suficiente. Falta ao Brasil uma política robusta de redução de danos, que inclua uma intensa testagem de substâncias em eventos e capacitação dos serviços de emergência para lidar com opioides sintéticos.
No entanto, uma das problemáticas que envolvem o fentanil, por exemplo, é a dificuldade de detecção. Essa droga pode ser misturada com outras, atrapalhando o diagnóstico em um paciente com overdose, afetando o rastreamento no tráfico.
“Eu acho que deveríamos avançar mais na testagem de substâncias. Eu conheço alguns grupos que fazem testes colorimétricos. Mas esses testes são mais limitados, e funcionam melhor para as drogas mais clássicas. Eles não conseguem diferenciar essas drogas novas”, conclui.
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