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Ultraprocessados podem afetar a atenção, mesmo com dieta saudável

Mesmo um aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados provoca uma queda mensurável na capacidade de concentração, diz estudo

Por Ana Clara Caielli Barreiro 13 jun 2026, 12h00
Ultraprocessados podem afetar a atenção, mesmo com dieta saudável Priorizar nos meus resultados Google

Os alimentos ultraprocessados, como bolachas recheadas, salgadinhos, refrigerantes e macarrão instantâneo, são um dos calcanhares de Aquiles do mundo moderno. Eles são tão saborosos quanto são prejudiciais à saúde. Mais de 30 consequências já foram associadas ao seu consumo, incluindo diabetes, problemas cardiovasculares e distúrbios metabólicos.

Esses alimentos passam por processos industriais excessivos, que envolvem a adição de aditivos artificiais, como emulsificantes e corantes, além de outras substâncias industriais, podendo até alterar a estrutura original do alimento. Eles não são a mesma coisa que os alimentos processados comuns, como macarrão, frutas em calda, legumes em conserva e sardinha em lata.

Uma nova pesquisa, desenvolvida em parceria pela Universidade de São Paulo (USP), pela Universidade Monash e pela Universidade Deakin, investigou os impactos cognitivos do consumo desse tipo de alimento. E as pessoas estudadas não foram só aquelas com as piores dietas – a ideia era analisar também se haveria efeitos em pessoas com a qualidade geral da dieta considerada boa. Os resultados foram publicados em 23 de abril no periódico científico Alzheimer’s Association.

Os pesquisadores analisaram dados de 2.192 adultos australianos com idades entre 40 e 70 anos. Além de responderem questionários sobre hábitos alimentares, os participantes realizaram testes cognitivos para medir atenção e velocidade de processamento de informações. O risco de demência foi avaliado e, a princípio, nenhum deles tinha o diagnóstico da doença.

Em média, os participantes consumiam cerca de 41% de suas calorias na forma de alimentos ultraprocessados, número compatível com a média nacional australiana, de 42%.

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O resultado foi preocupante. O estudo associou o consumo elevado de ultraprocessados com dificuldades de concentração e a um processamento mental mais lento, mesmo entre pessoas que, no geral, tinham uma alimentação saudável e de qualidade. Essa relação foi observada até em participantes que seguiam a dieta mediterrânea, considerada uma das referências mundiais em alimentação saudável e frequentemente associada a benefícios cognitivos.

Além disso, a pesquisa sugere que o consumo excessivo de ultraprocessados contribui para fatores de risco ligados à demência, como obesidade e hipertensão. Novamente, esse padrão apareceu mesmo entre indivíduos com dietas saudáveis.

Esses efeitos são observados até mesmo quando há aumentos relativamente pequenos no consumo desses produtos. “Para cada aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados, observamos uma queda nítida e mensurável na capacidade de concentração dessa pessoa”, explica a Dra. Barbara Cardoso, uma das autoras do estudo, em comunicado.

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Isso equivale a cerca de 150 gramas de comida. Na prática, seria como adicionar um pacote de salgadinho à alimentação diária – um hábito aparentemente comum, mas que o estudo associou a prejuízos cognitivos.

A cada aumento de 10% na ingestão de ultraprocessados, os participantes apresentavam uma redução de 0,05 ponto nos testes de atenção e um aumento de 0,24 ponto nos indicadores de risco de demência. Quanto maior o consumo desses alimentos, mais acentuados eram esses efeitos.

A pesquisa não encontrou associação entre o consumo de ultraprocessados e a memória. Cabe ressaltar que a diminuição da atenção vai muito além da dificuldade de se concentrar em frente ao computador no trabalho. A atenção é uma função cognitiva essencial para a aprendizagem, a resolução de problemas, a tomada de decisões e diversas outras atividades mentais.

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O trabalho mostra que o impacto da alimentação na cognição vai muito além dos indicadores tradicionais de qualidade da dieta ou do simples consumo de alimentos nutritivos. Para os autores, o estudo reforça a necessidade de aprimorar as diretrizes alimentares, mostrando que o grau de processamento dos alimentos deve ser considerado juntamente com a composição nutricional da dieta.

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