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Covid-19: Escassez de macacos nos EUA é empecilho para o avanço de vacinas

A aplicação em animais é o último passo antes da testagem em humanos – mas a alta demanda está fazendo com que os laboratórios revejam seus métodos.

Por Carolina Fioratti 31 ago 2020, 17h47

Há mais de 160 vacinas em desenvolvimento para a covid-19 no mundo, das quais nove já se encontram no último estágio de testes, com aplicação em humanos. Mas aqueles imunizantes que estão sendo produzidos em laboratórios americanos e ainda não chegaram na fase 3 de testes podem demorar ainda mais para serem liberados, já que os Estados Unidos estão enfrentando uma escassez de macacos. 

Talvez você não ligue rapidamente os macacos à pandemia, mas a associação é bem simples: estes animais são necessários para a testagem das vacinas. Os compostos só podem ser aplicados em voluntários humanos após a confirmação da segurança nestes primatas. A notícia da falta de animais foi divulgada nesta segunda-feira (31), na revista americana The Atlantic.

Para entender a falta de macacos, é preciso entender de onde eles vêm. Nos EUA, há instalações de reprodução dos mamíferos, incluindo centros de primatas financiados pelo Instituto Nacional de Saúde do país (NIH) – mas elas são insuficientes. Então, o país também importa macacos da China, que é um grande fornecedor destes primatas. Lá, o custo para a criação dos macacos é bem menor, além dos movimentos pelos direitos dos animais serem mais tímidos. 

Em 2019, cerca de 60% dos 35 mil macacos importados para os EUA eram de origem chinesa. Neste ano, com o crescimento da pandemia, a China parou de exportá-los. A atitude do país asiático pode ser justificada por duas razões: os bloqueios ao comércio e exportação de animais, impostos ainda no início da pandemia, e a necessidade do país em concentrar os macacos nas suas próprias pesquisas.

Os macacos representam apenas 0,5% dos animais usados em pesquisas biomédicas americanas, mas eles são extremamente importantes nos ensaios clínicos de vacinas, pois apresentarem um sistema imunológico semelhante ao dos humanos. Com a alta demanda, o NIH está tendo que decidir quais laboratórios podem ou não fazer testes em animais. Enquanto isso, outras pesquisas não relacionadas a covid-19 estão estagnadas.

  • E quais são as opções para que os estudos referentes ao coronavírus não sejam interrompidos? Alguns laboratórios passaram a pular a fase de testes em animais e aplicar o composto direto em humanos, mas essa não é a atitude mais indicada, já que, sem a comprovação de segurança em animais, o teste pode colocar as pessoas em risco. Além disso, o ensaio em animais é vantajoso pela possibilidade de infectar o macaco com o vírus após a aplicação da vacina, podendo acompanhar como os anticorpos se desenvolvem no organismo e lidam com o problema. Já com voluntários humanos, os cientistas não podem deliberadamente infectá-los com o Sars-CoV-2. A exposição ao vírus, caso ocorra, deve ser de forma natural (causada pelo contato com outras pessoas infectadas sem as devidas precauções), e não induzida. 

    Num primeiro momento, surgiu também a opção dos pesquisadores reutilizarem macacos que haviam participado de estudos não relacionados à covid-19. Mas estes também ficaram indisponíveis. Usar novamente os próprios macacos dos ensaios de covid-19 nem é uma opção, pois eles são eutanasiados logo após o estudo para evitar possíveis contaminações em pessoas ou outros animais.

    Importante ressaltar que, quando falamos em macacos, nos referimos principalmente às espécies rhesus e cynomolgus. Estes, apesar de serem os mais utilizados para estudos devido às semelhanças com os humanos, não apresentam sintomas graves de covid-19. Os hamsters, por outro lado, são mais afetados pelo vírus, sofrendo perda de peso e tendo sua respiração afetada. Os roedores também são mais baratos e se reproduzem rapidamente, diferente dos macacos, que estão custando cerca de US$ 10 mil. 

    Por enquanto, autoridades indicam que os pesquisadores façam a coleta de dados nos hamsters de forma provisória. Koen Van Rompay, cientista de doenças infecciosas do Centro Nacional de Pesquisa de Primatas da Califórnia, disse ao The Atlantic que “fazer experimentos em roedores é muito mais barato”, completando que as vacinas mais promissoras poderão ser observadas nos hamsters e só depois testadas nos primatas. 

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