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Mito: “a Igreja apoiava a Ditadura Militar”

A verdade: no início, a CNBB colaborou com a ditadura. Depois, militou contra a tortura e apoiou movimentos sociais.

Por Maurício Horta
1 out 2018, 19h09

São Paulo, 1964. A manifestação se estendia da Praça da República às escadarias da catedral da Sé, onde o senador Padre Calazans (UDN) discursava de microfone empunhado: “Hoje é dia de São José, padroeiro da família. Fidel Castro é o padroeiro de Brizola. É o padroeiro de Jango. É o padroeiro dos comunistas. Nós somos o povo!” A multidão da Marcha da Família com Deus pela Liberdade respondia ora bradando “um, dois, três, Brizola no xadrez”, ora rezando um Pai-Nosso.

Desde sua fundação, em 1952, a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) foi liderada por bispos progressistas, com d. Helder Câmara na secretaria geral. Mas a radicalização da esquerda no governo Goulart assustou a ala moderada, e, igual ao que aconteceu no Congresso, o centrão da CNBB migrou para o lado conservador.

Depois do golpe, a hierarquia católica permaneceu dividida e só quebrou o silêncio mais de um mês depois, com um manifesto. Nele, dava “graças a Deus” aos militares  “que, com grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses da nação”.

Mas o texto foi escrito a duas mãos  e a segunda era a de d. Helder, o “bispo vermelho”. “Não nos curvamos às pressões de grupos que pretendam silenciar nossa voz em favor do pobre e das vítimas da perseguição e da injustiça na urgência da restauração da ordem social”. Apesar do predomínio conservador, a queda de braço com os progressistas continuava.

Padres fazem barreira entre manifestantes e policiais para evitar confronto durante a missa de sétimo dia em memória do estudante Edson Luís, morto pela PM em 1968. (Folhapress/Montagem sobre reprodução)

No segundo semestre de 1964, bispos de todo o mundo se reuniam em Roma para discutir o papel da Igreja no mundo. Era a terceira sessão do Concílio Vaticano 2º (1962-1965), a maior reforma da Igreja desde o século 16. Com ele, a Igreja Católica se abria ao mundo. Mas a delegação brasileira estava preocupada com algo mais prosaico: derrubar os progressistas nas eleições da cúpula da CNBB.

D. Helder perdeu a secretaria geral para o obscuro d. José Gonçalves. Já a presidência foi para d. Agnelo Rossi (1964-1971), futuro arcebispo de São Paulo, mais conhecido pela capacidade de nada ver e nada ouvir. A CNBB se fechava para os abusos da ditadura.

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Mas a Igreja não tem a hierarquia dos militares. Apesar da cúpula conservadora, os progressistas eram livres para agir em suas dioceses e paróquias. Religiosos protegiam grupos de esquerda, inclusive armados. Em julho de 1967, a polícia deteve 11 padres do mosteiro de Vinhedo, SP, por abrigarem um congresso clandestino da UNE. Em novembro, o bispo de Volta Redonda, RJ, teve a casa invadida, por abrigar militantes da Juventude Operária Católica.

Embora conservadora, a CNBB ficou do lado dos religiosos nos dois casos. Afinal, a ditadura considerava um padre esquerdista apenas um esquerdista. Já para a Igreja, era apenas um padre, e a CNBB não aceitaria militar algum interferindo em seu clero.

Vergonha

Em 1968, as ruas foram tomadas por manifestações. Mesmo a classe média que apoiara o golpe começava a protestar. Na CNBB, os progressistas também davam sinal de recuperação. Em julho, ela encerrou sua Assembleia apelando a reformas, à não violência e a um retorno às liberdades individuais. Por fim, o progressista d. Aloísio Lorscheider foi eleito secretário-geral.

Embora o presidente d. Agnelo permanecesse omisso na CNBB, os progressistas ganhavam margem de manobra exatamente quando a ditadura montava seu aparato de tortura.

Em 1969, d. Aloísio incumbiu o professor Cândido Mendes de elaborar um documento a partir de relatos de tortura. Com um grupo de advogados, Mendes coletou os relatos e informou o Vaticano. No exílio, a esquerda se uniu a religiosos católicos e protestantes para denunciar a tortura a governos e imprensa estrangeiros.

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No dia 26 de janeiro de 1970, d. Helder foi pessoalmente encontrar o papa Paulo 6º, que disse que a Igreja não deveria mais tolerar tais atrocidades num país católico. Quatro meses depois, d. Helder discursava para 10 mil pessoas no Palácio dos Esportes, em Paris.

Quero pedir-lhes que digam ao mundo todo que no Brasil se tortura. Peço-lhes porque amo profundamente a minha pátria e a tortura a desonra.

D. Helder Câmara, em discurso em Paris, em 1970

“Meu governo propaga que quem fala de torturas é inimigo de sua pátria.” D. Helder tocava na ferida externa da ditadura – a legitimidade diante das outras nações. “Os culpados de traição ao povo não são os que falam, mas os que persistem no emprego da tortura. Quero pedir-lhes que digam ao mundo todo que no Brasil se tortura. Peço-lhes porque amo profundamente a minha pátria, e a tortura a desonra.”

D. Agnelo não arredava o pé. “Detesto a demagogia”, disse na missa de Páscoa, na catedral da Sé. “É indigno e impatriótico denunciar alguma coisa de seu País no exterior. Havendo roupa suja, lava-se em casa.”

Mas d. Agnelo preferia ficar de roupa suja. Em 1969, quando sete frades dominicanos foram presos na sede da Oban, o arcebispo foi visitá-los – e negou que tivessem sido torturados. Com um presidente desses, a CNBB só mudaria se pegassem um figurão do clero.

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Respeita o moço

No dia 7 de outubro de 1970, uma tropa do DOI-Codi no Rio invadiu um instituto dirigido por jesuítas. Prenderam alunos, professores, o provincial da Companhia de Jesus, o reitor da PUC – e o secretário-geral da CNBB, d. Aloísio. Ficou detido por quatro horas e foi fotografado de frente e de perfil. A ditadura atingia a cúpula da Igreja.

Numa rara demonstração de unidade, os cinco cardeais brasileiros protestaram numa carta ao presidente Médici, lamentando a “deterioração” de suas relações. Passados 12 dias, d. Aloísio se reuniu com o papa, em Roma, e a imprensa do Vaticano publicou uma advertência da CNBB – “o terrorismo da subversão não pode ter como resposta o terrorismo da repressão”.

Mais três dias, e o papa tirou d. Agnelo da arquidiocese de São Paulo e o substituiu por d. Paulo Evaristo Arns. No fim do ano, a CNBB elegeu d. Aloísio presidente da CNBB e seu primo d. José Ivo Lorscheider secretário-geral. Os progressistas reconquistavam a CNBB. Era o auge da ditadura, e a alta hierarquia católica estava na oposição.

A Igreja tinha penetração por todo o território nacional e por todas as classes sociais. Isso fazia dela uma ameaça maior que os pequenos grupos armados. E seu prestígio junto à sociedade deu-lhe uma imunidade da qual não gozaram os partidos políticos ou a imprensa.

D. Paulo organizou as denúncias de tortura, criou a Comissão de Justiça e Paz, o grupo Clamor e o projeto Brasil: Nunca Mais, que coletou processos judiciais movidos contra presos políticos. A pesquisa permitiu compreender a extensão e o funcionamento da repressão política e evitou a destruição de provas de crimes do Estado.

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As Comunidades Eclesiais de Base e pastorais como a da Terra, a Operária e a da Juventude deram a proteção institucional para movimentos sociais.

Já d. Helder foi indicado ao prêmio Nobel da Paz em 1970, 1971, 1972 e 1973 por sua campanha internacional contra a tortura. A ditadura boicotou sua candidatura, mas, na falta do prêmio, o Vaticano abriu em 2015 seu processo de beatificação e canonização.

A Igreja não foi um sustentáculo da ditadura. Foi um campo de batalha que oscilou entre o combate ao comunismo e o combate à tortura. A mesma Igreja que apoiou o golpe e que silenciou diante do AI-5 foi a que denunciou a tortura e gestou os movimentos sociais que definiriam a cena política da redemocratização – incluindo aí uma participação importante na criação do futuro Partido dos Trabalhadores.

Crimes que jogaram os bispos contra os generais

SETEMBRO, 1968
Três padres franceses e um diácono brasileiro são presos e torturados em Belo Horizonte. A CNBB reage dizendo que nenhuma autoridade pode julgar a pregação do seu clero.

MAIO, 1969
O padre Antônio Henrique Pereira Neto, 28, é encontrado no Recife morto, com corda no pescoço, feridas pelo corpo, tiro na cabeça e cortes de facão na garganta e na barriga. Era o padre auxiliar de d. Helder Câmara, arcebispo de Olinda.

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OUTUBRO, 1969
A madre Maurina Borges da Silveira, diretora do Lar Santa de Ribeirão Preto, SP, é submetida a choques elétricos e obrigada a assinar uma confissão dizendo ser amante de um guerrilheiro.

NOVEMBRO, 1969
Os freis dominicanos Fernando de Brito e Ivo Lesbaupin são presos e torturados. No interrogatório, é descoberto o paradeiro de Marighella, morto em seguida.

AGOSTO, 1974
O frade dominicano Tito de Alencar Lima, torturado na sede da Oban, em 1969, suicida-se no exílio, na França.

OUTUBRO, 1975
O DOI paulista simula o suicídio do jornalista Vladimir Herzog, torturado e morto em suas dependências. O arcebispo d. Paulo, o rabino Henry Sobel e o reverendo Jaime Wright celebram na Sé um ato em sua memória.

OUTUBRO, 1976
Um policial mata a tiro o padre jesuíta João Bosco Burnier, no Mato Grosso. Motivo do assassinato: o padre tinha ido à delegacia denunciar a tortura contra camponesas.

Este post é parte do dossiê “21 mitos sobre a Ditadura Militar”, que pode ser lido na íntegra aqui.
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