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Telescópio no Chile registra imagem inédita de “borboleta cósmica”; confira

Registro revela detalhes do fim violento de uma estrela que colapsou e espalhou gás quente pelo espaço ao seu redor.

Por Luiza Lopes
3 dez 2025, 16h00 •
  • O telescópio Gemini Sul, instalado no alto do Cerro Pachón, nos Andes chilenos, acaba de registrar uma das imagens mais marcantes de sua história: uma visão detalhada da Nebulosa da Borboleta, uma estrutura de gás em expansão que fica entre 2,5 e 3,8 mil anos-luz da Terra, na constelação de Escorpião. 

    O retrato foi divulgado no fim de novembro e marca os 25 anos da primeira imagem capturada pelo observatório, inaugurado em novembro de 2000. A escolha do alvo veio de estudantes chilenos que participaram de um concurso para selecionar qual objeto celeste deveria ser fotografado na data comemorativa.

    A nebulosa também é conhecida pelo nome de catálogo NGC 6302. Apesar do apelido soar poético, a estrutura não é o resquício de um inseto espacial, mas o fim turbulento da vida de uma estrela semelhante ao Sol, só que com mais massa.

    Esse tipo de objeto é chamado de nebulosa planetária. O nome engana: quando os primeiros astrônomos do século 18 observaram essas nuvens arredondadas através de telescópios rudimentares, acharam que elas lembravam a forma de planetas. O termo permaneceu, embora hoje se saiba que elas representam a fase final de estrelas de baixa e média massa – e não tenha nada a ver com planetas.

    No caso da NGC 6302, as formas amplas e alongadas lembram asas abertas, o que rendeu apelidos como Nebulosa do Inseto.

    Como ela surgiu?

    O processo que leva a essa aparência é violento. A estrela original cresceu até virar uma gigante vermelha, chegando a um diâmetro cerca de mil vezes superior ao do Sol. Depois expeliu suas camadas externas de gás. A ejeção principal saiu pela região do equador a uma velocidade relativamente baixa e formou uma faixa escura em forma de rosca, ainda visível no centro da nebulosa.

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    Em seguida, parte do material escapou perpendicularmente a essa faixa, criando uma estrutura bipolar, dividida em duas grandes extensões que hoje chamamos de asas. A imagem sugere texturas irregulares, com cristas e filamentos. Esses detalhes surgiram quando um vento estelar mais rápido, liberado nos últimos estágios de vida da estrela, colidiu com o gás que havia sido expelido antes. Estimativas apontam velocidades superiores a três milhões de quilômetros por hora.

    No coração da NGC 6302 está a responsável por tudo isso: uma anã branca extremamente quente, com temperatura superficial acima de 250 mil graus Celsius. Ela é o núcleo remanescente da estrela original, que expulsou suas camadas externas há mais de dois mil anos.

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    Essa anã branca concentra cerca de dois terços da massa solar em um corpo do tamanho aproximado da Terra. Em 2009, a câmera Wide Field Camera 3 do telescópio espacial Hubble conseguiu identificá-la de forma clara dentro da nebulosa. Desde então, ela é estudada como uma das anãs brancas mais quentes conhecidas.

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    A radiação intensa que parte dessa estrela compacta aquece o gás das asas a mais de 20 mil graus Celsius. É esse calor que faz a nebulosa brilhar. Nas imagens produzidas pelo Gemini Sul, regiões avermelhadas indicam áreas dominadas por hidrogênio ionizado – átomos que perderam elétrons pela ação da radiação.

    Partes azuladas revelam oxigênio ionizado. Também há presença de nitrogênio, enxofre e ferro. Todo esse material está sendo devolvido ao meio interestelar e, no futuro, poderá compor novas estrelas e sistemas planetários.

    A descoberta da NGC 6302 não tem uma data única. O crédito mais frequente é dado ao astrônomo americano Edward Emerson Barnard, que a registrou em 1907. Há, porém, registros anteriores do escocês James Dunlop, que pode tê-la observado ainda em 1826.

    O objeto manteve-se um desafio para astrônomos desde então. Sua distância exata continua incerta, e a complexidade das suas formas sugere ao menos dois episódios de ejeção de material ao longo da vida da estrela original.

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    A imagem capturada agora pelo Gemini Sul ganhou colorização científica para destacar diferentes tipos de gases e permitir que pesquisadores e público percebam contrastes que, a olho nu, seriam invisíveis.

    O resultado integra o Programa de Imagens Legadas do NOIRLab, que destina parte do tempo de observação dos telescópios a registros com qualidade visual voltada ao engajamento público e à produção de material educativo. O programa é uma continuação de um esforço iniciado em 2002 pelo próprio Observatório Internacional Gemini.

    O aniversário de 25 anos do telescópio reacende a discussão sobre a importância de equipamentos terrestres de grande porte. O Gemini Sul tem 8,1 metros de diâmetro e utiliza técnicas de óptica adaptativa, que compensam distorções causadas pela atmosfera terrestre. Ele faz par com o Gemini Norte, situado em Mauna Kea, no Havaí.

    Ambos foram projetados pelo astrônomo Fred Gillett para garantir cobertura contínua do céu em ambos os hemisférios. O Gemini Norte recebeu, inclusive, o nome de Frederick C. Gillett após sua morte, poucos meses depois da inauguração. O observatório é operado pelo NOIRLab, vinculado à Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, com participação de vários países, incluindo Brasil, Canadá, Chile e Reino Unido. 

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