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Como a ciência ajuda a criar craques como Kaká?

Por Redação Mundo Estranho Atualizado em 4 jul 2018, 20h26 - Publicado em 18 abr 2011, 18h49

Suplementação alimentar e musculação transformam craques em supercraques, fazendo com que eles fiquem mais fortes e agüentem melhor as inevitáveis pancadas dos “carniceiros” que infestam o mundo da bola. Mas a ciência não faz milagres. Jogadores como Zico e Ronaldo “Fenômeno”, que só passaram a figurar entre os maiores do mundo depois de ganharem músculos em academias, já não eram atletas comuns antes de serem turbinados. “Alguns jogadores raciocinam mais rápido que os outros. Se em um segundo um atleta comum tem três reações mentais, o Zico tem quatro e o Pelé tem cinco”, diz o preparador físico José Roberto Francalacci, responsável pelo pioneiro trabalho de fortalecimento muscular com o maior ídolo do Flamengo. Nos grandes clubes, os jogadores “superdotados” passam por um trabalho específico para adequar sua musculatura à rapidez de raciocínio. Um dos casos mais conhecidos é o do meia Kaká, que hoje faz sucesso no Milan e na seleção brasileira. Logo que chegou à equipe profissional do São Paulo, em janeiro de 2001, Kaká chamou atenção pela habilidade, mas era muito franzino. “Durante um ano, fizemos um trabalho intenso com ele. Nos primeiros seis meses, entramos com musculação para fortalecer os membros inferiores e, no resto do ano, os superiores. Some-se a isso um cardápio saudável, uma complementação alimentar com 1 500 calorias diárias e aplicações de creatina para estimular o crescimento muscular”, afirma o fisiologista Turíbio de Barros Neto, do São Paulo. O esforço deu resultado: no começo de 2003, Kaká ganhou 10 quilos e tinha quase três quartos do corpo compostos só por massa muscular.

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Na livraria:

Ciência do Futebol – Turíbio Leite de Barros Neto e Isabela Guerra, Manole, 2004

Efeito estufa
Mistura de alongamento, alimentação refroçada e musculação começa a dar resultados em dois meses

1. Enquanto o craque ainda está nas categorias de base, a única coisa que dá para fazer é apostar nos exercícios aeróbicos e nos alongamentos musculares. Musculação, por enquanto, nem pensar. “Nessa idade, o metabolismo está no osso. Se trabalharmos os músculos, acabamos atrofiando o crescimento”, diz o preparador físico José Roberto Francalacci

2. Depois dos 16 ou 17 anos, o trabalho de ganho da massa muscular começa de vez. O primeiro ingrediente é um reforço alimentar, com dietas de até 4 mil calorias por dia — um adulto normal ingere pouco mais de metade disso. O cardápio inclui suplementos ricos em carboidrato, do tipo shake, e uma forcinha para o crescimento dos músculos com doses controladas de creatina, uma substância de alto poder energético produzida também pelo corpo humano

3. O terceiro passo é transformar em músculo as calorias ingeridas. Aí, entra em ação a musculação para desenvolver a “explosão” do craque, melhorando a força do chute e o vigor nas divididas, por exemplo. Esse trabalho envolve exercícios com poucas repetições (de 10 a 12), bastante carga (algo em torno de 70% do máximo que o atleta levanta em um único movimento) e pelo menos um dia de descanso por semana para evitar a sobrecarga

INÍCIO DO FORTALECIMENTO (JANEIRO DE 2001)

1,84 metro

71 quilos

9,6% de gordura

64% de massa muscular

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FIM DO FORTALECIMENTO (JANEIRO DE 2003)

1,84 metro

81 quilos

9,3% de gordura

73% de massa muscular

Verdades e mentiras
Respondemos três dúvidas freqüentes sobre reforço muscular

1) OS GRANDES CLUBES DÃO ANABOLIZANTES AOS ATLETAS

Mentira. Claro que alguns boleiros também usam “bomba”, mas é bem menos que em esportes como natação e atletismo. “Jovens ganham músculos rapidamente graças a uma característica natural da própria idade: a produção intensa de testosterona”, diz o fisiologista Renato Lotufo, do Corinthians

2) MÚSCULOS EM EXCESSO PODEM ACABAR COM UM CRAQUE

Verdade. O desenvolvimento exagerado deixa o jogador muito pesado, comprometendo sua agilidade. Outro perigo é o desequilíbrio muscular, quando o exercício é malfeito e um músculo cresce mais que outro. Esse problema pode gerar contusões sérias

3) RONALDO SE CONTUNDIU PORQUE GANHOU MUITA MASSA NA EUROPA

Mentira. “Ronaldo já tinha um osso do joelho problemático. Sua contusão não foi causada pelo trabalho muscular feito no PSV e no Barcelona”, diz Lotufo. É como se o “Fenômeno” tivesse uma espécie de barril de pólvora no joelho, que podia explodir a qualquer hora. De fato, explodiu

De galinho a galo de briga
Em sete anos, Zico ficou 22 centímetros mais alto e ganhou 33 quilos

O primeiro boleiro brazuca a passar por um trabalho de reforço muscular chegou ao Flamengo aos 14 anos. Dono de uma habilidade incrível, Zico tinha apenas 1,55 metro e acredite, 37 quilos (só para dar uma idéia, Sávio, outro “fiapo” flamenguista, tinha 1,69 metro e 57 quilos com a mesma idade). De cara, passou por uma superalimentação e, quando completou seu crescimento, foi para a academia. No fim do trabalho, aos 21 anos, tornou-se o primeiro “craque de laboratório” do país: media 1,72 metro, pesava 70 quilos, tinha pouquíssima gordura — e a genialidade de sempre.

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