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Como funciona a Covaxin, vacina da empresa indiana Bharat Biotech

Aprovado para uso emergencial na Índia, imunizante está na mira da rede privada brasileira – mas ainda não teve dados que comprovem sua eficácia publicados.

Por Carolina Fioratti Atualizado em 5 jan 2021, 18h04 - Publicado em 5 jan 2021, 17h59

No último domingo (3), a Índia aprovou o uso emergencial de duas vacinas: a Covishield e a Covaxin. A primeira, apesar de aparentemente desconhecida, é a famosa vacina de Oxford, produzida em parceria com o laboratório AstraZeneca. Sua aplicação em regime emergencial também foi liberada, até agora, no Reino Unido e na Argentina.

A Covaxin, por sua vez, é um imunizante produzido pela empresa indiana Bharat Biotech, em colaboração com o Instituto Nacional de Virologia e o Conselho Indiano de Pesquisa Médica. Ela foi aprovada para testes clínicos em junho de 2020, tendo os resultados das fases 1 e 2 divulgados em dezembro do ano passado. Os dados mostram que a vacina produz anticorpos contra o novo coronavírus sem causar efeitos colaterais graves. 

A fase 3, etapa de testes com grandes grupos de pessoas, começou em outubro de 2020. Ela é essencial para comprovar eficácia e segurança do composto, envolvendo uma ampla gama de voluntários nos testes – no caso Covaxin, cerca de 25,8 mil participantes. Tais resultados, imprescindíveis para a liberação do uso, ainda não foram divulgados.

No Brasil, há um acordo selado entre a Fiocruz e Oxford/AstraZeneca para o oferecimento da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS). Parte desses imunizantes estava sendo fabricada no instituto indiano Serum, mas o governo do país vetou a exportação para dar prioridade à vacinação da população local.

A Fiocruz ainda não solicitou à Anvisa o uso emergencial da vacina, já que aguarda dados mais consistentes de sua eficácia. De toda forma, o pedido deve ser formalizado nesta semana – ainda que o cronograma previsto de vacinação possa atrasar devido à falta de lotes iniciais.

Clínicas privadas brasileiras anunciaram que estão negociando com a Bharat Biotech para comprar 5 milhões de doses da vacina indiana. Geraldo Barbosa, presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), disse em entrevista à GloboNews que os resultados da terceira fase do imunizante são esperados para janeiro e, caso isso se confirme, o laboratório deve entrar com pedido de registro para a Anvisa em fevereiro. 

O plano é ter vacinas na rede privada na segunda quinzena de março. Nesta semana, uma comitiva de brasileiros visita a Índia a fim de saber mais sobre a vacina e conhecer a fábrica da empresa.

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Como funciona a Covaxin

O laboratório indiano utiliza o vírus inativado em seu imunizante, uma tecnologia usual na fabricação de vacinas. Funciona assim: a partir de uma amostra isolada do Sars-CoV-2, os cientistas cultivam o vírus, acumulando um grande estoque. Então, mergulham o vírus em uma substância química chamada beta-propiolactona, que “desliga” o micróbio e o deixa inofensivo à saúde humana. O vírus perde a habilidade de se replicar, mas permanece com suas proteínas intactas.

Os vírus inativados são misturados a um adjuvante, que nada mais é do que um composto que fortalece a resposta imune, tonificando, por tabela, a eficácia das vacinas. Quando o imunizante é aplicado no paciente, os vírus inativados são engolidos por células que contêm antígenos – substâncias que desencadeiam a produção de anticorpos -, como os macrófagos. É neste ponto em que a batalha começa.

Ao engolirem o Sars-CoV-2 e digerirem suas proteínas, as células com antígenos tomam para si certas proteínas do vírus. Algumas delas acabam sendo deixadas à mostra, na superfície da célula, como um sinal. Assim, os linfócitos T, células de combate viral, reconhecem fragmentos de vírus dando sopa e podem iniciar sua luta. Ao se conectarem ao invasor com ajuda de suas proteínas, convocam também outros soldados do sistema imunológico.

  • Os linfócitos B, outras células especialistas em combater vírus, também entram na guerra. Eles possuem, na sua superfície, uma série de proteínas com diferentes formatos. Algumas delas funcionam como chaves, sendo capazes de se ligar à coroa do coronavírus.

    Além de se conectarem aos vírus, os linfócitos B também podem grudar também em linfócitos T que já estiveram conectados a fragmentos do invasor. Nesse caso, se houver compatibilidade e a célula T se agarrar ali, a célula B também acaba ativada, se multiplicando e liberando mais anticorpos.

    Com todo esse processo, o sistema imunológico fica pronto para responder a uma infecção real de coronavírus. Se o invasor der as caras no futuro, os linfócitos B saberão que precisam produzir anticorpos para se fixar nos invasores, dificultando sua entrada nas células. Diz-se, então, que o paciente está imunizado.

    A Covaxin está sendo testada em duas doses, administradas com intervalo de 28 dias. Assim como a vacina de Oxford, ela pode ser armazenada em temperaturas entre 2 e 8 ºC.

    A Índia é o segundo país mais atingido pela pandemia de Covid-19, somando mais de 10,3 milhões de casos confirmados e quase 150 mil mortes. A meta do governo local é começar a vacinação em janeiro, imunizando 300 milhões de pessoas até agosto. 

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