Crash Crash

Por Atualizado em 21/07/2016

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O Hélio Schwartsman, articulista brilhante da Folha, deu mais uma bola dentro na semana passada, quando chamou o Isis de “Uber do terror”. Agora, que a Polícia Federal fez a primeira prisão por suspeita de terrorismo no país, o ponto de vista do Hélio ficou ainda mais pertinente – até porque, diz a PF, esses dez brasileiros são simpatizantes do Estado Islâmico, e estariam dispostos a representar o grupo terrorista, mesmo sem ter contato algum com os membros centrais do Isis, os que vivem na na Síria e no Iraque.

O raciocínio do Hélio é o seguinte: antes do Uber, quem quisesse virar taxista tinha que pagar trocentos mil reais por um alvará, tirar licença de taxista, comprar lugar num ponto de táxi, entrar para o sindicato… Depois do Uber, acabou.Basta ter um carro, uma ficha limpa, e vontade de trabalhar que, tudo certo, você consegue levantar dinheiro transportando gente. Se antes do Uber, então, não era simples virar taxista, antes do Estado Islâmico não era fácil virar terrorista. Então veio o Isis. E agora basta o sujeito ter um Whatsapp e vontade de matar que, tudo certo, consegue morrer sob a (doce) ilusão de que saiu da vida para entrar na história. Acha que está dando um salto quântico, de uma vida ordinária para uma morte extraordinária. E o único intermediário entre o aspirante a terrorista e a “grife” do Isis é a internet. Basicamente igual acontece com o Uber – e com o AirBnB, que permite a qualquer indivíduo com um apartamento abrir um hotel.

Esse sistema transformou o Uber e o AirBnB em gigantes – tanto em valor de mercado, (bilionário, nos dois casos), como em aceitação do público. E foi ótimo, já que eles baratearam dois serviços historicamente luxuosos – transporte particular e hospedagem decente -, além de prover renda para milhões, em todos os cantos do mundo.

O irônico, e trágico, é que o Isis opera um sistema tão sofisticado quanto esse. Antes do Estado Islâmico, algum mané poderia até ser um cara aberto à ideia de se suicidar cometendo uma chacina ao longo do processo – como fizeram o caminhoneiro de Nice ou atirador de Orlando –, mas dificilmente obteria o alvará de um IRA, de um ETA ou de uma Al Qaeda atestando que a sua morte foi heroica. Heroica só para os membros do grupo terrorista em questão, claro, já que o resto do mundo continuaria te vendo como um imbecil, mas ainda assim uma morte aparentemente mais gloriosa do que se matar sozinho, dentro de casa.

Mas aí veio o Isis e esse problema acabou. Qualquer Zé das Couves do planeta que promova uma tragédia passível de ser interpretada como um ato contra o Ocidente ganha um título de mártir dentro do Isis. Nessas, Hélio Schwartsman especula, muita gente que teria como destino um suicídio silencioso, dentro de casa, acaba tentado a transformar sua desgraça final num ato grandioso. Uma espécie de autoengano, movido mais pelos problemas internos do sujeito do que por religião ou qualquer coisa que dê para chamar de “causa”.

Esse, enfim, é o maior trunfo do Isis: sua capacidade de prover sentido a vidas tortas e pensamentos torpes, em todos os cantos do mundo.

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O artigo foi atualizado em 28/07/2016.

 

 

Por Atualizado em 20/07/2016

double_god

O Deus do monoteísmo não é só grande. Ele é dois. 

A prova disso está bem no comecinho da Bíblia.  O Gênesis deixa claro: o primeiro homem do  Bíblia não foi Adão, mas outro sujeito, com outra mulher. Depois de moldar o céu, a terra, as plantas e os animais ao longo da semana, Deus, o Criador, finaliza o Universo na sexta-feira. E deixa dois gerentes a cargo da operação: um homem e uma mulher. Mas não eram Adão nem Eva. Os primeiros humanos da Bíblia são um casal sem nome, sem personalidade. Criado ao mesmo por tempo.

Não é a história clássica, com Adão forjado a partir da terra, e Eva só depois, da costela do marido. E mais importante: o Deus que faz o casal anônimo não é o Deus de Adão. É outro sujeito – ainda que se trate de um Sujeito, com “s” maiúsculo.

O fato é que existem dois deuses com “d” maiúsculo nas páginas do primeiro livro da Bíblia. E cada um cria seu próprio mundo.

O primeiro mundo, do primeiro Deus, é o do comecinho da Bíblia. O Criador ali surge num cenário vazio, pairando sobre um mar negro, no escuro. Mas não por muito tempo.

– Que haja luz – ele diz.

E houve luz.

Foi o primeiro dia da criação (um domingo, se considerarmos que a obra termina seis dias depois, e esse dia é o sábado). Na segunda-feira, vem a parte mais pesada da construção divina. O Criador fatia o mar em duas partes. Uma em cima, outra embaixo. E instala a abóboda celeste no espaço aberto entre as duas massas de água, como se fosse uma redoma de vidro. “A essa divisão Deus pôs o nome de ´céu`”, segue o Gênesis. Depois de deixar metade do oceano primordial lá em cima, amparado pela abóboda, e metade aqui embaixo, com uma novidade chamada “céu” separando uma coisa da outra, Deus encerra os trabalhos do segundo dia. Na manhã do terceiro, quando o mundo ainda é só céu e mar, ele faz brotar terra seca. Então aproveita o espaço recém-inagurado para criar os vegetais. Quarta-feira é dia de instalar o Sol, a Lua e as estrelas na redoma celeste. Exato: na visão do Gênesis, não existe um “espaço sideral”. O mundo, o Universo todo, na verdade, é só uma planície enorme com uma cúpula em cima. Além dessa abóboda, o que existe é aquele mar suspenso. E fim de papo. A própria palavra “firmamento”, que às vezes confundida como uma espécie de de coletivo para estrelas, é só uma tradução para o latim para raqiya, a palavra hebraica que significa “cúpula”, ou “domo”, e que aparece nesse trecho do Gênesis original. Nas Bíblias em Latim, raqiya virou firmamentum, no sentido de “firme” mesmo, já que essa era a palavra romana para “domo de sustentação” – a interpretação mais comum em português, de que “firmamento” vem do fato de que as estrelas parecem “fixas”, “firmes”, no céu, é só um mito liguístico.

Mas vamos voltar para o Gênesis que ainda falta muito mundo para construir. Na quinta-feira, as águas ganham a fauna marinha e o céu recebe as aves. Na sexta é a vez dos animais terrestres.

Semana praticamente encerrada e… nada de humanos. Nós chegamos só no finalzinho mesmo. É quando Deus ordena o surgimento de um homem e de uma mulher, feitos “à imagem e semelhança” dele próprio. E abençoa o casal: “Tenham muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e dominem. E tenham poder sobre os peixes, as aves e os animais”. A Bíblia continua: “E Deus viu que tudo o que havia feito era muito bom. Assim terminou a criação do céu, da terra e de tudo o que há neles”.

E pronto. Acabou. Sem Adão, sem Eva, sem Jardim do Éden.

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Mas não termina aí, claro. A partir do segundo capítulo do Gênesis, o tempo rebobina. Estamos de novo num vazio. O mundo volta a ser uma folha em branco. O Deus que fez a luz e criou o mundo em sete dias não existe mais. Quem entra no lugar é a outra divindade, com um projeto diferente.

Depois de construir o céu e o chão, esse outro Deus já cria o homem de cara, bem antes de plantar a flora e produzir a fauna. Ele deixa o rapaz solteiro, inclusive, enquanto finaliza o resto do mundo. E só depois decide que não seria mal sua criatura ter uma fêmea como companheira. Aí sim: é a história que todo mundo conhece: Adão, Eva, Éden, Serpente…. O que nem todo mundo sabe é que os dois Deuses envolvidos em cada uma das histórias da criação têm até nomes diferentes.

Para quem lê a Bíblia em português, ou em qualquer outra língua que não seja o hebraico, é impossível perceber. Mas no idioma original está nítido. Ali, o Deus da primeira narrativa da criação se chama “Elohim”. Na segunda história, a que tem Adão e Eva, o nome dele é outro: “Javé”. O texto número um chama Deus de “Elohim” 35 vezes. O seguinte, de “Javé”. Onze vezes. E sem jamais voltar a usar “Elohim”. Em português Só que as traduções da Bíblia não usam os nomes hebraicos. “Elohim” virou “Deus”. E “Javé” foi traduzido como “Senhor”.

E a mudança de nome não é uma alteração cosmética. A maior parte dos pesquisadores bíblicos concorda: cada história foi escrita por um autor. O que indica isso são duas ciências: a arqueologia e a linguística. Na ponto da arqueologia, está claro hoje que os proto-israelitas, os povos que deram origem aos autores da Bíblia, reverenciavam El, o deus supremo da região onde viviam. E “El”, na Bíblia, virou “Elohim”. Engraçado que “Elohim” é o plural de “El”. Porque plural? Não existe uma explicação. O fato é que a evolução das línguas está cheia de exemplos em que o plural se tornou sinônimo do singular – “calça” e “calças”, por exemplo, são duas formas de ser referir ao singular daquilo que veste as nossas pernas (outro caso, mais célebre, é o da palavra “chopps”, que já foi sinônimo de “chopp”, até cair em desuso). “Elohim, em suma, virou sinônimo de “El”.

A linguística também é útil para dissecar a origem do outro deus, Javé. A leitura do texto original da Bíblia, em hebraico, revela quais são os trechos mais antigos. Natural. O livro foi escrito ao longo de 500 anos. Se fosse hoje, seria como se um livro iniciado quando Cabral aportou na Bahia só ganhasse sua versão final hoje. Os trechos compostos há 5 séculos soariam como Camões. Os do século 19, como Machado de Assis (mais provavelmente como Osório Duque Estrada…). Daria para dizer o quã antiga é cada parte do livro. Com  a Bíblia acontece a mesma coisa. E aí que vem o pulo do gato. Os trechos mais antigos ali, feitos por volta de 1.200 a.C., dizem que “Javé” é nome de um deus “que veio de Edom e de Teiman”. Edom ficava onde hoje está o sul da Jordânia. Teiman, mais longe, na atual Arábia Saudita. Diante disso, a conclusão dos especialistas mais citados de hoje, como Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, e Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte, é uma só: “Javé” é uma divindade importada pelos proto-israelitas. Algum povo vindo do sul, e que venerava um certo Javé, misturou-se aos ancestrais dos autores da Bíblia. Tudo isso por volta de 1.200 a.C., a transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro, e, como mostra a arquelogia, um período de reviravoltas climáticas que causou secas violentas, fome e, por consequência, gandes migrações humanas. A viagem dos adoradores de Javé até Canaã, onde hoje ficam Israel e Palestina, teria sido uma dessas grandes migrações – outra hipótese é que a história registrada no livro do Êxodo seja uma espécie de romantização desse período histórico de grandes migrações.

Seja como for, o fato é que os editores da Bíblia, os israelitas de 500 a.C., foram respeitosos com os textos antigos que tinham como fonte. Tão respeitosos que El e Javé aparecem no texto com personalidades nem distintas: enquanto Elohim é uma figura onipotente e onipresente, que age dando instruções para o Universo (“Que haja luz!”), Javé é uma divindade mais humana. Ele não fica o tempo todo distante, no céu. É um personagem pé-no-chão, que está mais para um síndico de meia-idade: faz caminhadas pelo Jardim do Eden à tarde, checando se está tudo indo bem no Paraíso (ao cruzar com Adão num desses passeios e ver que ele não está pelado, como deveria, percebe que existe algo de podre no reino da Criação).

O ponto é que El e Javé eram dois deuses tão distintos quanto Ganesh, o elefante hindu da sorte, e Odin, o chefe do panteão escandinavo – são divindades diferentes, cada uma criada por um povo específico. A dupla acabaria fundida numa única figura: justamente aquela que os ocidentais hoje chamam de “Deus”, e os muçulmanos de “Alá”. O nome da divindade única do Islã, vale lembrar,  é outra variação de “El”, mas criada em outro tempo e outro espaço – a Arábia tribal onde, no século 7, nasceria Maomé, o homem que reinterpretou o Deus bíblico a seu modo, tal como Jesus de Nazaré havia feito 600 anos antes.

El, Javé, Alá, Deus… Não importa. Todas essas palavras atestam uma coisa só: deuses são como os homens. Deuses se transformam. Se adaptam. Evoluem, enfim. Junto com seus criadores.

 

Por Atualizado em 14/07/2016

Vintage blue tile on a bathroom wall with only one piece of toilet paper left on the roll.

O governo da Venezuela ordenou a ocupação de uma fábrica de papel higiênico: a da Kimberly-Clark – aquela mesma marca americana que você vê em todo banheiro de rodoviária no Brasil.

A Kimberly da Venezuela tinha fechado as portas. Maduro reabriu, nacionalizou a fábrica e pôs os operários para trabalhar. À primeira vista, parece um ato heroico, até.

Mas não. Claro que não: a Kimberly não fechou por ordens do FBI, mas porque não fazia mais sentido manter uma empresa funcionando no país. Tudo porque o governo Maduro já tinha transformado a moeda venezuelana em notas de banco imobiliário.

O lastro da moeda deles era o petróleo – responsável por 90% das exportações da Venezuela. Com o colapso no preço do barril, a entrada de dólares minguou. O governo continuou fabricando bolívares, a moeda local, a rodo para bancar suas contas, cada vez mais gordas (quanto mais o seu governo estatiza, mais ele gasta). Resultado: com muito bolívar e pouco dólar no mercado, o preço da moeda americana começou a tender ao infinito. Junto com o dólar, sobem todas as outras moedas, incluindo o real. E as empresas da Venezuela passaram a ter dificuldade para importar qualquer tipo de matéria prima.

Não é só isso. O excesso de moeda local na praça também levou a inflação ao infinito (ela está em 500% agora, e a previsão para 2017 é de 1600%). Para combater a inflação, o governo decidiu tabelar os preços no varejo. Parece ok, mas equivale a matar a vaca para acabar com o carrapato: se o preço da matéria-prima só aumenta lá atrás (e não dá para congelar preço de matéria prima importada, como a que vai no papel higiênico, ou no pão), acaba-se o mundo: ninguém produz mais nada. Até por isso nenhum país digno de ter uma bandeira congela preço mais – Brasil incluído.

Vale lembrar que, entre as tragédias venezuelanas, não há embargo: o maior parceiro comercial de Maduro segue sendo os americanos. Eles compram 40% de tudo o que a Venezuela exporta – e quem sempre saiu no lucro foi o governo bolivariano, que nunca experimentou um déficit comercial com os EUA.

O problema da Venezuela foi outro: analfabetismo econômico – a doença que mais mata no mundo.

Por Atualizado em 08/07/2016

lesma 2

 

Eric Moussambani é aquele cara que nadou cachorrinho nas Olimpíadas de Sidney, em 2000. Ele só participou dos Jogos porque seu país, a Guiné Equatorial, tinha ganhado um convite para mandar um nadador. Escolhido, Eric treinou alguns meses na piscininha de um hotel. A primeira vez em que ele viu uma piscina olímpica, de 50 metros, foi nos próprios jogos. Na primeira prova, Eric sucumbiu diante daquele latifúndio aquático. Perdeu o fôlego e completou a prova dos 100 metros nadando cachorrinho – o equivalente a se arrastar pela água. Eric entrou para a história, ainda que pela porta dos fundos.

E é basicamente isso que o Brasil está fazendo  em outra modalidade. Viramos o Eric Mussambani da economia.

Dos 181 países que a agência de notícias Trading Economics monitora, o nosso está em 174o lugar no ranking de crescimento econômico.  Desses 181 países, só 26 estão em recessão. E entre os 26 cujos PIBs encolhem, o Brasil consegue ser o 19o pior colocado. Estamos nadando cachorrinho.

A variação anual do nosso PIB está em -5,4%, o que nos deixa encaixotados entre o Sudão do Sul (-5,3) e Líbia (-6%), dois países em guerra civil. Serra Leoa, Yemen, Omã, Venezuela e a Guiné Equatorial de Eric Musssambini completam essa rabeira da economia mundial.

Conforme o PIB cai, o governo recebe menos impostos, já que sem crescimento, o que aumenta é o desemprego e a falta de confiança no futuro. Sem emprego nem confiança a gente consome menos – e a receita do governo cai.

Sem levantar tantos fundos via impostos, o governo faz cada vez mais dívida para tocar o dia a dia. Essa dívida encerrou o ano passado em R$ 2,763 trilhões, com alta de 21,7% em relação a 2014. O  maior nível da história. No clube dos 10 maiores países do mundo, do qual o Brasil ainda faz parte, o crescimento médio das dívidas foi menor do que 5%. Em boa parte dos casos, de 0%. Ou menos – a da Zona do Euro, por exemplo, diminuiu.

Nessa turma, a de quem faz mais dívidas, estamos na companhia nada ilustre de Moçambique, Senegal e Tadjiquistão.

E vale lembrar: enquanto os países que costumam integrar os últimos vagões da economia mundial precisam de convites para participar de Olimpíadas, nós estamos organizando uma. Logo, esse não deveria ser o nosso clube. Mas, se continuarmos nos afogando nesse mar de dívida e recessão, vamos ter de nos acostumar com ele.

 

 

Por Atualizado em 04/07/2016

Trabant

 

Li ontem alguém dizendo o seguinte:

– O que acham que é o socialismo: “ninguém pode ter iPhone”.
– O que é o socialismo: “TODOS podem ter iPhone”.

Bonito. E ingênuo. Na Alemanha Oriental, o “iPhone”, o objeto tecnológico que todo mundo queria, era o Trabant, um carrinho simpático (tenho uma miniatura em casa), simplório a ponto de fazer uma Brasília parecer um Bentley, mas cheio de boas sacadas de engenharia (a começar pela carroceria, feita de “duroplast”, um derivado de petróleo que os alemães orientais desenvolveram para substituir o aço automotivo, em falta por lá, já que eles não tinham moeda forte para importar aço).

O Traby, fabricado pelo Estado, tinha o preço fixado em 4 mil Marcos Orientais (DDR-Marks). E de fato: TODOS podiam pagar, já que o salário médio (em 1985) era de 1.140 DDR-Ms. Um aninho de cinto apertado bastava para uma família ter um Traby. Wunderbar!

Só tinha um problema: se você não fosse membro do Partido Comunista nem desse um jeito de pagar ágio, a fila de espera por um Traby era de 15 anos.

Claro: a quantidade de Trabants que o Estado podia produzir era limitada. Duroplast, pistão, câmbio, estofamento de banco… Nada disso caía do céu. Equivalia a toneladas de matéria prima e de trabalho, tanto braçal quanto intelectual. Como matéria-prima e trabalho são recursos limitados, a produção não acompanhava a demanda. E o ato de comprar um carro equivalia a fazer um plano de previdência privada. Vc pagava o sinal aos 35 anos e recebia o carro aos 50 – e estamos falando de um veículo com motor de cortador de grama (26 cv), e que soltava tanta fumaça quanto um forno de pizzaria.

Houvesse liberdade para que a própria população produzisse Trabants (ou qualquer outra coisa com quatro rodas), via iniciativa privada, a oferta logo supriria a demanda. Mas não: a iniciativa privada era ilegal. Então o jeito era passar a vida na fila esperando seu carro sair das fábricas estatais.

Corta para hoje. Um iPhone típico no Brasil custa QUATRO salários mínimos – mesma proporção que um Traby custava em relação ao salário médio da Alemanha Oriental (que era meio que o equivalente ao salário mínimo deles, já que não havia grandes disparidades salariais). Logo, um iPhone aqui é um objeto tão inacessível quanto era um carro na velha DDR, a Deutsche Demokratische Republik. Estamos na pior, então, certo?

Não, porque tem uma diferença aí. O iPhone é um objeto de luxo, um Rolex da classe média: a Apple prefere vender caro para menos gente do que barato para mais gente. Paciência. Mas nem por isso o grosso da população fica sem WhatsApp, Waze, FB, Youtube. Gmail e câmera digital no bolso. Qualquer smartphone mais barato roda tudo isso. Como iniciativa privada não é crime, a gama de smartphones tende ao infinito, e cobre virtualmente todas as faixas de preço. Graças a Google, Samsung e outros tantos eles são produtos tão de massa quanto o salsichão era na DDR.

De massa mesmo: o Brasil tem hoje 168 milhões de smartphones em uso, segundo a FGV.

Isso dá 84% da população – contando os bebês. Mesmo no Brasil, um país-rascunho, que segue na fronteira entre o feudalismo e o capitalismo de fato, o grosso da população tem Smart Phone (se colocarmos celulares não-smart na conta, temos uma proporção tão grande quanto a de cidadãos com acesso a papel higiênico).

E nada disso acontece por ideologia do Google, da Samsung, da Huawei. Claro. Como Adam Smith escreveu em 1776: não é a bondade do padeiro que nos proporciona pão quente todas as manhãs. É a ganância do sujeito. Ótimo, então. Que o padeiro, a Samsung e o escambau continuem gananciosos.

Dito isso, eu gostaria de reescrever a frase lá de cima:

– O que acham que é o capitalismo: “Só os ricos podem ter iPhone”.
– O que é o capitalismo: “TODOS podem ter smartphone”.

E calma. Não estou dizendo que o capitalismo puro é a panacéia da humanidade – todo país precisa de algum meio de redistribuição de renda, a começar pelo nosso. Mais: a própria palavra “capitalismo”, como me lembrou hoje uma amiga, é uma distorção. Confunde liberdade de vender e comprar o que você bem entender, com coisas que ou são crime ou deveriam ser – oligopólios, cartéis, exploração, trabalho escravo, castas sociais.

O que eu defendo aqui é outra coisa: a liberdade de iniciativa. E faço isso por convicção de que essa é a arma mais eficiente contra a pobreza. Se a proibição da iniciativa privada reduzisse a probreza, eu iria para a rua exigir a estatização de tudo. Mas não é o que a realidade mostra. No mundo real, Estados agigantados simplesmente não conseguem prover suas populações. Não falta só smartphone nesses lugares. Falta papel higiênico.