Crash Crash

Por Atualizado em 13/05/2016

Piggy bank with umbrella. Wealth protection concept in the design of information related to business

Taí o maior erro de quem não conhece o mercado financeiro: achar que ninguém gosta de crise. Quando o Ibovespa toma mais um tombo e o Carlos Alberto Sardenberg fala que o dia foi de “mau humor no mercado”, a gente imagina corretor de cara fechada e investidor amarrando uma gravata na outra para ver se serve como forca. Isso até acontece, mas o ecossistema das crises tem uma biodiversidade bem maior: uma parte considerável da fauna financeira é especializada em fazer dinheiro justamente nos momentos de baixa generalizada. Quanto maior o caos, mais o sorriso deles se abre.

Michael Lewis, um autor que já trabalhou em banco de investimento, sabe bem disso. E quando fez um livro sobre o maior apocalipse financeiro desta geração, o crash de 2008, decidiu contar a história justamente do ponto de vista de quem ganhou com a crise. Ele foi atrás de quem ficou bilionário com o colapso dos títulos imobiliários nos EUA. Achou uma dúzia desses investidores e contou a história deles em A Jogada do Século. O livro, de 2011, virou best seller, e o filme baseado nele (o A Grande Aposta) acabou indicado ao Oscar cinco anos depois.

No Brasil, o livro e o filme saíram com títulos diferentes. Lá fora, não rolou essa confusão. Tanto a obra em papel quanto a em película têm o mesmo nome: “The Big Short”.

O título original é uma referência justamente ao mecanismo financeiro que você deve usar quando quer ganhar na baixa: o “short sale”. “Venda a descoberto”, em português.

“Vender a descoberto” é o seguinte: eu tenho um milhão de ações da Petrobras e acredito que o preço delas vai subir. Você não tem ação nenhuma e tem certeza de que elas vão cair. Vamos dizer que cada ação da Petro esteja a R$ 5 hoje. Aí você vem e me faz uma proposta: “Alê, meu, vou te vender mais um milhão de ações da Petro. Mas você é meu brother. Então te vendo por R$ 4. Beleza?”. “Uhú!”, eu digo.

E você só me pede uma única: que essa venda aconteça daqui a três meses. Como eu acredito que as ações vão ter subido lá na frente, fecho o acordo de olho fechado. Te pago uma cerveja até, pô. Vou comprar por R$ 4 uma coisa que já vai estar valendo uns R$ 10. Negocião.

O tempo passa e o que acontece? Putz. A ação da Petrobras derreteu. Está valendo R$ 1. E eu fiz a besteira de assinar com você um contrato me comprometendo a comprar um milhão delas a R$ 4. Tenho que cumprir, se não vou para a cadeia.

Não se esqueça: você não tinha nenhuma ação quando me propôs a venda. O que você faz, então? Pega dinheiro emprestado no banco e compra um milhão de ações a R$ 1. Então me vende imediatamente a R$ 4, e sai da operação R$ 3 milhões mais rico. Você acabou de lucrar com uma “venda a descoberto”. Você me vendeu algo que não tinha, por um preço que eu mesmo achava vantajoso.

Parece ficção, mas isso acontece todos os dias no mercado financeiro. O colapso das empresas do Eike Batista, por exemplo, transformou muito investidor pequeno em milionário. As quedas recentes da Petrobras e da Vale também. Lá atrás, na crise de 2008, alguns especuladores de sangue frio fizeram exatamente esse movimento. Não com ações, mas com títulos hipotecários. Não importa: dá exatamente na mesma. E é o que Michel Lewis conta em The Big Short, um livro que, ironicamente, nasceu como uma aposta editorial arriscada, dada a aridez do tema. Mas que acabou se mostrando um belo investimento para o próprio Michael Lewis. Sem crise.

 

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Este texto foi publicado originalmente na Ilustrada.

 

 

 

 

 

 

 

Por Atualizado em 09/05/2016

House of Cards Brasil Super

Segunda, 9 de maio de 2016, 8h da manhã. A equipe de roteiristas de House of Cards Brasil está reunida.

– Ferrou, pessoal. A audiência tá indo pro saco – diz o roteirista-chefe – Tamos precisando de novidade na série!

– Mas a gente acabou de derrubar o Cunha, chefe, e logo depois da votação do impeachment. Se tiver mais reviravolta no roteiro, isso aqui vai ficar mais zoado que Game of Thrones. Não dá pra ficar ressuscitando personagem…

– Pára, pára. Ressuscitar pode ser uma boa. Vamos ver… E se a gente colocar o Lula de ministro do Temer?

– Esquece, chefia. O público não ia engolir. Não faz sentido

– Não tem que fazer sentido, mané. Um professor de química de 50 anos que vira um puta traficante faz sentido, por acaso? A gente precisa de uma virada forte agora.

– Então e se a gente… Ressuscitar a Dilma?

– Não rola. O personagem não tem carisma. Por que é que você acha que a gente tirou ela da série, porra? Porque a atriz não quis renovar? Acorda.

– Mas é justamente por isso que eu tô falando, chefia!

– Por isso o que?

– O público sabe como a gente faz as séries. Sabe que a gente mata personagem que não tá dando certo.

– Com os textos que você fez pros discursos dela, aí que não tinha como dar certo mesmo…

– Desculpa. Eu tava misturando uísque com rivotril na época. Mas então: o público sabe que a gente elimina personagem que não funciona. Então vamos dar pro público a coisa que ele menos espera: a volta da Dilma.

– Mas não faz sentido…

– Professor de química de 50 anos vira traficante também não faz, chefe…

– Tô começando a gostar da ideia…

– Mas, ei – pergunta outro roteirista – O que é que a gente faz com aquelas setecentas páginas de roteiro sobre o ministério do Temer? A gente passou as últimas semanas enterrado nisso. O Marcos aqui criou aquela história de botar um pastor da Universal na Ciência e Tecnologia. Gênio. A gente também botou o Serra. Vai gerar meme pra caramba!

– Ah, joga essa porra toda fora – diz o chefe – Não tava dando certo. Na real, o pessoal já não falava da nossa série direito desde o episódio 9, o da votação do impeachment. E a nossa meta aqui é voltar pro auge, que nem quando a gente emendou o Lula na Casa Civil com os grampos do Moro. Mas vem cá: como é que a gente vai colocar a Dilma de volta?

– Tem esse presidente novo da Câmara que a gente colocou no lugar do Cunha. É um personagem tampão. Mas a gente pode dar um papel forte pra ele, fazer o cara trazer a mulher pra dentro do baralho de novo.

– Mas ele é do PP. Não vai fazer sentido nenhum…

– Justamente por isso vai ser mais inesperado, chefia!

– Boa. Então vai lá: taca pau. Inventa aí qualquer coisa pra que ele faça a Dilma voltar.

– Certo. Vou colocar o cara anulando o processo de impeachment. Ele pode alegar que, tipo, foi tudo zoado demais.

– Sem chance, cara. Aí essa merda dessa série vira um Lost, e a gente acaba tudo na rua. Inventa outra.

LEIA MAIS: Impeachment não pode mesmo ser de qualquer jeito

 

Por Atualizado em 19/04/2016

credito-reuters

Um informação bastante compartilhada ontem (inclusive por mim) não faz o menor sentido. É a de que só 36 dos 513 deputados “tiveram o número mínimo de votos para garantir um assento”, como aparecia em destaque no site da Câmara.

Está errado. Esses 36 deputados não tiveram “o número mínimo de votos” para nada. Eles só obtiveram votações enormes, acima do “quociente eleitoral” de seus Estados.

Quociente eleitoral é o número de votos que um PARTIDO precisa para colocar pelo menos um deputado na Câmara. Esse número varia de Estado para Estado e de eleição para eleição. Em São Paulo, no pleito de 2014, um partido (ou coligação de partidos) precisava ter no mínimo 300 mil votos.

O cálculo para chegar nesses 300 mil foi o seguinte: SP teve 21 milhões de votos válidos para deputado nas últimas eleições. E o Estado tem direito a 70 vagas na Câmara, por lei. O quociente sai da divisão do total de votos do Estado pelo número de vagas reservadas para ele. Ou seja: 21 milhões dividido por 70 = 300 mil.

Funciona assim: vamos dizer que você seja um candidato por SP, e o seu partido lançou três nomes: Tiririca, você e Marcelinho Carioca.
O quociente de SP é 300 mil. Tiririca consegue 501 mil; Marcelinho, 49,4 mil e você, 49,6 mil. Total: 600 mil votos. Seu partido ganha o direito de colocar dois deputados. Nisso, entram você e Tiririca. Marcelinho fica de fora, mesmo tendo uma votação virtualmente igual a sua.

Bom, quando alguém só vota na legenda, bomba o quociente eleitoral do partido – no nosso exemplo aqui em cima, bastaria um punhado de votos de legenda para que Marcelinho também garantisse um lugar na Câmara. Já quem vota num candidato específico faz duas coisas: ajuda o partido a chegar ao quociente e eleva o seu candidato no ranking interno do partido.

Não parece um sistema injusto. Mas ele tem seus vícios. Os partidos acabam estimulados a lançar candidaturas de celebridades, para que elas levem os macacos velhos do partido no vácuo. E isso funciona mesmo que as celebridades nem consigam tantos votos assim. Sérgio Reis teve “só” 45 mil votos. Sem as cinco vagas abertas pelos 1,5 milhão de votos de Russomano, seu colega de PRB, o sertanejo não teria sido eleito. Mesmo assim, seu Pacaembu lotado de votos ajudou a engordar o quociente eleitoral do partido, ajudando a fila do PRB a andar.

É isso. O voto acaba diluído: você vota no candidato x e isso pode acabar servindo só para eleger o candidato y. Se houver coligação, pior: você perde toda a noção sobre onde o seu voto vai parar. Os partidos são livres para coligarem-se à vontade. No Ceará, por exemplo, 11 partidos se juntaram para eleger seus deputados, numa coligação que atravessava todo o espectro político, do marxista PC do B ao malufista PP. Nisso, quem apertasse na urna o número do candidato sindicalista com camiseta de Che Guevara filiado ao partido da esquerda podia muito bem estar dando o voto que faltava para o engravatado da direita. E vice-versa. 

Mas o bode que zoneia mesmo a sala da nossa política é outro: a maior parte dos nossos partidos não representa nada. São meras empresas especializadas em desviar dinheiro público. Enquanto isso não for corrigido, vamos continuar andando em círculos, perseguindo o próprio rabo – não importando se quem faz o papel do referido rabo atenda pelo nome de Maluf, Temer, Cunha, Renan ou o escambau. Sem uma reforma partidária, estaremos apenas enxugando gelo.

Por Atualizado em 18/04/2016

Tiririca

Por menos estado na economia, por austeridade fiscal, pelo fim do uso de ministérios como moeda de troca, que transformou a Esplanada numa comédia de mau gosto, eu votaria sim.

Mas “pelos militares de 64″? “Pelo ‘Grande Arquiteto do Universo'”? “Pela minha família”?, “Pelo Coronel Ustra”?, “Pela nação evangélica”? “Pela paz em Jerusalém”?, “Pelo povo da minha linda puta-que-o-pariu?”

Vergonha desse obscurantismo.

Mas uma coisa me deixa feliz, porque houve um momento histórico ontem. Não exatamente o impeachment, já que este nem é o primeiro de uma geração que ainda lembra bem do último. Histórico mesmo foi a população inteira ter passado o domingo ouvindo cada um dos deputados discursar, e então constatarmos todos que ferrou, que a Câmara hoje é uma versão mal roteirizada da Escolinha do Professor Raimundo. Uns 300 Tiriricas com crachá de “autoridade”.

Isso coloca no mesmo barco quem até agora vinha cruzando o mar em naus diferentes.

A minha embarcação é o dos que defendem o seguinte: que a estrada para o bem-estar comum é a do empreendedorismo individual, do livre comércio, do fim das estatais. O outro barco, que eu vejo a bombordo aqui do meu convés, é o que entende o empreendedorismo estatal, em suas diversas formas, como o caminho para a diminuição da desigualdade. O objetivo mais concreto dos dois barcos é o mesmo: exterminar a miséria, promover uma vida digna para a população inteira. Mas as vias são tão díspares que na maior parte das vezes as tripulações dos dois barcos, o da esquerda e o da direita, passam boa parte do tempo atirando bolas de canhão um contra o outro no oceano dos debates.

Mas hoje é um dia especial. A acefalia explícita do congresso uniu os nossos barcos: tornou-se o inimigo comum. Ficou nítido que o grosso do parlamento não representa porcaria nenhuma além da própria família – daí as citações infinitas a cônjuges, mães, filhos. Até porque que o “bem da família” é a grande justificativa para que boa parte deles roube. Temos um congresso de Walter Whites – sujeitos que usam a família como desculpa moral para seus ilícitos.

Não é exagero: dos 108 congressistas mais votados, 40 são investigados pela justiça – entre eles, claro, Eduardo Cunha, o vigésimo mais votado. Um índice de 37%. É como se o Congresso tivesse tantos criminosos de fato quanto o SISTEMA PRISIONAL – caso descontarmos da população de criminosos do sistema prisional quem está ali mais pelo delito de ser preto e pobre do que pela transgressão que realmente cometeu.

 

Bom, esteja você à direita ou à esquerda, numa coisa nós concordamos: o problema real do país tem mais a ver com boletins de ocorrência do que com folhetins ideológicos. A começar pela ficha suja do próprio grupo que está assumindo o poder, que tem Cunha, um delinquente serial, na “articulação política”.

A solução mais redonda aí seria convocar eleições presidenciais em outubro. Mas, como Temer não consegue votos nem para se eleger deputado por conta própria,  as urnas não lhe interessam.

Cabe a nós, então, exigir um novo pleito e um sistema eleitoral mais eficiente, porque não são esses 300 Tiriricas que vão fazer isso.

 

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Artigo atualizado em 19/04

 

 

 

Por Atualizado em 11/04/2016

Ceci n’est pas gasoline

No último fim de semana vimos que o pessoal do Centro Acadêmico de Letras da USP alega a existência de uma grande conspiração, segundo a qual:

1) Nosso Poder Judiciário está a mando de um certo “Departamento Americano dos Estados Unidos”.

2) Esse “Departamento” usa juízes brasileiros como fantoches com o objetivo de “entregar a Petrobras para a Shell”.

3) Tudo isso é financiado pelo “dinheiro do trabalhador brasileiro, desviado para pagar juros da dívida externa”, enriquecendo ainda mais os EUA, e retroalimentando a formação de mais juízes fantoches em território americano. Solução: deixar de pagar a dívida, naturalmente.

Enquanto isso, no mundo real:

– Obama cede a pressões de ambientalistas e bane a exploração de petróleo na costa do Atlântico.

– O Model 3, novo carro elétrico da Tesla, recebe 300 mil encomendas e segue firme para se tornar o automóvel mais vendido dos EUA – talvez do mundo, sem jamais usar uma gota de petróleo.

– O preço do barril segue em baixa, quebrando a indústria petroleira dos EUA, que só nos últimos anos, graças ao xisto, tinha aumentado sua produção em 4 milhões de barris por dia (duas Petrobras).

– As quatro maiores empresas do mundo não são petroleiras, nem americanas. São quatro bancos chineses, credores da dívida externa americana.

– A dívida externa do Brasil é de US$ 330 bilhões. A dívida que o resto do mundo tem com o Brasil é de US$ 375 bilhões. Estamos no azul desde o boom das commodities, e somos o quinto maior credor dos EUA. Só eles nos devem US$ 225 bilhões, e pagam os juros bonitinho, como todos os nossos outros devedores.

– O grosso da dívida brasileira é interna. Em real, moeda que, olha só, nós mesmos produzimos. E os credores dessa dívida somos todos nós que temos conta em banco, já que a maior parte do dinheiro dos bancos está aplicada em títulos da dívida pública. Se o governo deixar de pagar essa dívida, o real deixa de existir como moeda. Converte-se em papel colorido com desenhos de gosto duvidoso. E quando você quiser comprar pão, vai ter que dar para o padeiro algo que ele aceite como moeda de troca (talvez um abraço, uma palavra amiga, ou uma nota de dólar).

O mundo real, enfim, é um lugar onde uma Petrobras é um ativo altamente arriscado, que “a Shell” ou qualquer petroleira saudável do mundo não pegaria nem de graça, já que quem pegar “de graça” ganha uma dívida de US$ 120 bilhões (uma Volkswagen inteira) para pagar.
O mundo real é um lugar que está deixando o petróleo para trás.
O mundo real é um lugar onde a maior dívida externa do mundo é a americana
O mundo real é um lugar onde calote é punido com descrédito. E só nos damos ao luxo de ter uma moeda nacional porque ainda existe a crença de que, um dia, o governo tratará sua dívida interna com alguma responsabilidade, e que não vai haver calote, nem que um hipopótamo assuma a presidência.
O mundo real, em suma, é um lugar mais complexo que o das teorias infantilóides. Mas também é um lugar bem mais difícil de entender.
Se você, revolucionário de CA, não quer entender como o mundo realmente funciona, beleza. Só não se meta a tentar ensinar o que você ignora.