Crash Crash

Por Atualizado em 29/08/2016

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Quem inventou o avião? Santos-Dumont ou os Wright? Um sujeito que tiver nascido na Alemanha talvez nem entenda a pergunta. É que o homem conhecido por lá como “Pai da Aviação” é outro cara: Otto Lilienthal, o pioneiro que conseguiu voar mais de 250 metros ainda no século 19, 1893. Otto realizou a façanha a borde de um planador, não de avião-avião-mesmo. Mas não importa, pelo menos para os alemães, que consideram seu compatriota como o inventor do avião. E não sem uma certa razão: o mais difícil na hora de voar é a parte aerodinâmica. E Otto acertou nesse quesito. Colocar um motor na coisa, então, seria questão de tempo.

Lilienthal não teve esse tempo. Morreu em 1896, vítima de uma queda de avião (uma morte estranha para americanos e brasileiros, que acham que o avião ainda não estava devidamente inventado).

Cientes dos feitos de Lilienthal, e de outros construtores, os irmãos Wright foram os primeiros a “motorizar um planador” com sucesso. Voaram com motor em 1903. E em 1905 chegaram a registrar um voo de 39 km com sua máquina, o Flyer – que àquela altura já dispensava catapulta.

Isso foi um ano antes de o 14 Bis ter voado 220 metros em Paris.

Mas quando Santos Dumont fez seu voo ainda havia dúvidas na Europa sobre se os Wright eram ou não uma farsa. Em 1908, esse problema acabou. Wilbur Wright levou o Flyer para a França e fez vários voos, traçando curvas fechadas no céu, coisa que os europeus nunca tinham visto. Para garantir o ouro entre os pioneiros da aviação, fez um voo de 120 km em duas horas. Ninguém jamais tinha cruzado tamanha distância em tão pouco tempo sem estar dentro de um trem.

O ano seguinte, 1909, não foi menos importante para a aviação. Santos-Dumont voava pelos arredores de Paris com sua obra-prima, o Demoiselle – uma máquina voadora que merece tranquilamente o título de primeiro ultra-leve da história. Àquela altura, vários inventores já tinham acertado a mão e construído aviões funcionais. Mas nenhum aviador foi tão bem-sucedido em 1909 quanto o francês Louis Blériot. O homem fez a primeira travessia do Canal da Mancha de avião. E note que já era um avião digno desse nome. É aquele ali em cima, que ilustra este artigo,  já com leme na parte traseira (coisa que o dos Wright não tinha) e sacadas de design que seguem firmes nos jatinhos de hoje.

O avião como o conhecemos nascia ali, com o DNA de vários gênios da engenharia. Porque o avião tem vários pais: Lilienthal, os Wright, Santos-Dumont, Blériot… Os europeus (Dumont incluído) trabalhavam juntos, trocavam informações. Nisso, evoluíram rápido, e em conjunto. Eles também roubaram algumas ideias que os Wright tinham desenvolvido na surdina, lá nos EUA – e os brothers americanos também roubariam criações dos europeus para aprimorar o Flyer, já que ninguém é de ferro. No fim das contas, o avião moderno simplesmente não tem um único inventor. O que não é surpresa: o carro, a TV e o computador pessoal também não têm. E ninguém fica inventando inventores únicos para eles. Deixemos Santos-Dumont em paz. E celebremos o verdadeiro criador do avião: a inteligência coletiva.

PS. Santos-Dumont também não inventou o relógio de pulso.

Por Atualizado em

Fim Presidencialismo
Primeiramente, fora Collor. E fora FHC. Fora Dilma, também. E fora Temer. Pois é. Quando o Brasil não está derrubando um presidente, está pedindo a destituição de outro. No que faz muito bem: é parte da democracia requisitar a cabeça de um governante antes que ele termine o mandato contratado. Quando a referida cabeça é cortada, porém, o que entra em jogo é a própria democracia.
E isso é um problema maior que qualquer processo de impeachment isolado. É uma falha do nosso sistema de governo. Um cientista político de Yale, Juan Linz, definiu isso bem. Ele diz que tanto o Congresso como o presidente podem argumentar que falam pelo povo, já que ambos foram eleitos pelo voto direto. E que, quando esses dois poderes discordam frontalmente – como no caso de um pedido de impeachment – temos um problema. “Não há princípio democrático para resolver esse tipo de disputa”, Linz afirma.
Mas opa. Espera um pouco. Temos uma Constituição. Se o presidente fere uma lei constitucional (como a da responsabilidade fiscal) deve perder o mandato e pronto, certo? Mais ou menos : “Os mecanismos legais que a Constituição dá para um impeachment podem se provar áridos aos olhos do eleitorado”, ele diz.
Linz escreveu isso em 1990, como uma crítica ao regime presidencialista americano. Mas sua análise parece feita sob medida para o caso que estamos vivendo agora: a maioria absoluta de quem é a favor da queda de Dilma não entende o que foram as pedaladas fiscais. O mesmo vale para a facção “Fora Temer”. A aridez legalista de um processo de impeachment é tamanha que até fatos que deveriam soar banais começam a parecer esdrúxulos. Por exemplo: se Dilma ficar, Temer não sai. Segue como seu vice – uma peça de decoração que a chefe de estado certamente não gostará de ter perfilada ao seu lado em eventos oficiais.
É aí que mora a essência do problema pelo qual estamos passando hoje. A presidente e seu vice têm visões praticamente opostas sobre como tocar o governo. E por mais que um lado desse fla-flu argumente que Temer foi, sim, eleito, não é a visão de mundo do vice que venceu nas urnas – Dilma mesma bateu nessa tecla várias vezes hoje de manhã, no Senado.
Mais do que desnudar um sintoma da esquizofrenia da chapa Dilma-Temer, isso deixa às claras um problema do próprio regime presidencialista: a impossibilidade de “demitir” um chefe de estado por incompetência. Fosse num regime parlamentarista, a impopular e politicamente desastrada Dilma seria trocada não pelo presidente do PMDB, mas por algum correligionário com os mesmos princípios – não importa se esses princípios estejam certos ou errados, mas seria alguém que, em tese, representa as mesmas diretrizes que saíram vitoriosas da eleição.
Por essas, quase todos os países desenvolvidos são parlamentaristas. David Cameron, no Reino Unido, cedeu sua cadeira à correligionária Theresa May logo que os britânicos votaram pela saída da União Europeia, numa clara mostra de insatisfação com o próprio Cameron, defensor da permanência na UE. E não houve trauma – muito pelo contrário: Theresa é considerada a pessoa certa para tocar o barco do Brexit. O mesmo vale para casos opostos, o de quando o melhor para o país é a permanência do mesmo governante. É o caso da Alemanha. Angela Merkel veste como ninguém o manto de chefe de estado. Como o sistema permite, ela segue no poder desde 2005. E, no que depender da vontade dos alemães e do resto do mundo, continuará como líder do quarto maior país do mundo por um bom tempo.
No Brasil, o parlamentarismo nunca passou por plebiscito nenhum por um motivo ignóbil: a ideia de que “a população não elegeria o chefe de estado”. Elegeria, sim. No parlamentarismo você vota no partido, mas já sabe quem será apontado como Primeiro Ministro, ou Primeira Ministra. Você vota numa pessoa. A diferença é que, se essa pessoa se mostrar incapaz de governar, será substituída por outra, do mesmo partido, encarregada de fazer com que o programa de governo eleito siga sendo implementado. Sem ameaça à democracia. Sem legalismos áridos. Sem trauma.

 

 

Por Atualizado em 26/08/2016

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Todo mundo sabe qual é a resposta mais canalha para a tradicional pergunta de entrevista de emprego:
– Qual o seu maior defeito?
– Sou perfeccionista demais. Não sossego enquanto tudo não estiver c-e-r-t-i-n-h-o.

Tradução: “Eu não tenho defeitos”.  À merda, meu filho.

Dilma, esses dias, cometeu algo da mesma estirpe. À pergunta “Qual foi o seu maior erro?”, ela respondeu: “Ter aceitado o Temer como meu vice”.

Tradução: “Eu nunca errei”.

Diante uma resposta tão isenta de verdade, me atrevo a responder por conta própria. O maior erro de Dilma se deu no dia 31 de agosto de 2011. O Brasil vinha de um crescimento anual recorde: 7,5% em 2010 – o maior aumento de PIB desde 1986, quando o país teve um ano chinês em meio à (efêmera) euforia do Plano Cruzado.

2011 prometia um índice de crescimento bem mais modesto: na faixa de 3%. Mesmo assim, já era o dobro do crescimento dos EUA, em crise, e uma sambada na cara da Europa, que amargava sua maior recessão desde a Segunda Guerra.

A inflação também começava a sair da toca naquele agosto de cinco anos atrás. Tinha fechado 2010 em 5,9%, maior nível em seis anos. Natural: crescimento econômico puxa inflação – os ganhos da população aumentam, começa a circular mais dinheiro, e, se a produção de bens e serviços não acompanhar a quantidade extra de dinheiro na praça, os preços sobem.

Ciente do problema, o Banco Central vinha subindo a taxa de juros paulatinamente. De 8,5% no começo de 2010 até 12,5% em agosto de 2011. Subir a taxa de juros significa drenar dinheiro da economia, o que diminui a pressão inflacionária. O efeito colateral desse remédio contra a inflação não é banal. Ele freia o próprio crescimento da economia. Mas o País estava com a imunidade alta: mesmo com os juros subindo, vínhamos de um crescimento recorde. E caminhávamos para mais um ano de PIB gordo.

Aí entra Dilma. E seu maior erro. Ela e o trapalhão Guido Mantega chamaram o Banco Central na chincha e demandaram, exigiram, que os juros começassem a cair já, para deixar a economia crescer sem freio. Faltava combinar com a inflação. Ela continuava crescendo, com tudo apontando que o teto da meta do BC (6,5%) acabaria estourado naquela.

Mas dane-se. Numa atitude imperial, Dilma forçou o BC a baixar os juros, torcendo para a que a inflação caísse por vontade divina – ou por respeito aos seus milhões de votos.

A baixa dos juros, então, veio feroz. Quase 50% de queda – despencando dos 12,5% de agosto de 2011 para 7,15% no começo de 2013. A inflação continuou pressionando. Para segurar o dragão, Dilma adotou artificialismos: congelou o preço da gasolina (sangrando a Petrobras) e baixou as tarifas e energia ma marra. Esse cabresto nos preços controlados manteve a inflação relativamente quieta, na faixa dos 6%. E lhe garantiu a reeleição.

Fechadas as urnas, o governo liberou os aumentos dos preços controlados – de outra forma, levaria a Petrobras à lona e destruiria nossa infraestrutura de energia elétrica. Aí a barragem dos preços represados estourou, e a inflação deu as caras de vez. Saltamos de 6,5% em 2014 para 10,7% em 2015. Quase 50% de aumento. O que os juros tinham caído lá atrás a inflação subiu aqui na frente.

Não foi uma coincidência de números. Dilma apenas colhia a cicuta que tinha plantado em agosto de 2011, ao forçar uma baixa de juros no pior momento possível, ignorando 200 anos de teoria econômica.

Com a inflação, veio a queda de popularidade. Sem popularidade, ela perdeu o Congresso. Sem o Congresso acabou picada por sua cobra criada, o PMDB.

Sim, Dilma. Seu casamento com Temer não foi exatamente um acerto. Mas o erro que lhe custaria o cargo foi outro: o de agosto de 2011, que completa 5 anos justo agora. A economia não perdoa.

Por Atualizado em 17/08/2016

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Um terço da delegação brasileira nos jogos é composta por sargentos. Entre eles, estão os três medalhistas de ouro: Rafaela Silva, sargento da marinha, Thiago Braz, da aeronáutica e Robson Conceição, também da marinha. Nove dos onze medalhistas, na verdade, são terceiros-sargentos das forças armadas.

Quem tem fetiche político por farda tece loas à disciplina militar pelo feito.

Quem não tem, tende a achar que é tudo farsa, já que ninguém ali é sargento de porcaria nenhuma. Eles são filhotes do “Programa Atletas de Alto Rendimento”: as Forças Armadas pegam o atleta pronto, dão automaticamente uma patente de terceiro-sargento e um salário de R$ 3.200. Em troca, esperam que eles batam continência num eventual pódio. Ninguém ali presta serviço militar. Eles só treinam. E se quiserem, podem usar as instalações dos quartéis para praticar seus esportes – coisa que muitos deles não fazem, já que treinam em clubes.

Ok. A questão aqui é a seguinte: esses dois pontos de vista estão certos. Consequentemente, estão errados também.

Porque esse caso, como todos os casos em que resolvem politizar qualquer coisa, não é 8 nem 80. Primeiro, o programa não é iniciativa de um Bolsonaro da vida, mas do governo Lula, numa parceria que o Ministério do Esporte e o da Defesa firmaram em 2008.

A ideia ali é aproveitar a capilaridade das Forças Armadas. Tem quartel em todo canto. Logo, atletas do Brasil todo passam a ter instalações para treinar – coisa que boa parte deles não tinha. Os salários equivalem a uma carta de alforria para a maior parte deles, já que sem esses R$ 3.200 os atletas sem patrocínio teriam de trabalhar – aí tchau olimpíada. Esses salários custam R$ 18 milhões por ano ao governo. Merreca. Isso é o que a Petrobras gasta em 20 dias com o aluguel de uma única sonda de petróleo. E a empresa opera 45 sondas. O ganho em “Felicidade Interna Bruta” para o país a cada medalha supera fácil um gasto desses.

É isso. Eles não são militares de verdade. Mas nem por isso o apoio das Forças Armadas é puramente midiático – ele faz diferença para os atletas, e proporciona um belo entretenimento para o resto dos brasileiros, a custo baixíssimo, aproveitando a estrutura que Exército, Marinha e Aeronáutica já têm. Aí tem é que bater continência mesmo, mas sem confundir as bolas.

Por Atualizado em 04/08/2016

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Goonies, Poltergeist, Caverna do Dragão, Spielberg, Stephen King. Difícil você ainda não ter lido sobre as referências culturais de Stranger Things – e sobre o mérito que a série teve ao amalgamar todos esses elementos numa história envolvente. Mas essas são só as referências mais óbvias. Porque há outras ali. Nem tão famosas, mas tão importantes quanto para a trama. Falo de Theodor Kaluza, Oscar Klein, Edward Witten e Hugh Everett – este último, por sinal, é tão referência que o nome dele chega a ser mencionado, pelo professor de física dos meninos.

O professor cita a “Hipótese dos Muitos Mundos”, que Everett lançou em 1957. Trata-se da primeira teoria científica a abraçar o conceito de “universos paralelos” – hoje já bem popularizado: o próprio “Mundo Invertido” de Stranger Things é, dentro da mitologia da série, um universo paralelo. Menos popularizado é o motivo que fez Everett propor a existência de universos paralelos.

O físico americano estava intrigado com uma característica da física quântica, a ciência que descreve o comportamento das partículas subatômicas. A seguinte: se você fosse uma partícula, você não seria você. Seria uma nuvem. Da mesma forma que uma nuvem comum é feita de moléculas de água, a nuvem que eu falo aqui seria formada por muitas, infinitas, versões de você.

Mas quando alguém fosse te visitar, as coisas mudariam de figura. O sujeito não veria essa nuvem cheia de clones seus. Na hora em que ele se aproximasse da nuvem, só uma das infinitas versões de você apareceria na frente dele. Todas as outras deixariam de existir, imediatamente.

Parece imbecil. É imbecil. Mas é assim que a física quântica de verdade funciona. Um elétron, ou qualquer outra partícula pequena o bastante, não é um elétron. É uma “nuvem de probabilidades”. Se você quiser observar o elétron (ou “visitá-lo”, como no exemplo antropomorfizado que dei antes), terá, tipo, 20% de chance de encontrar o elétron numa parte da nuvem, 99,7% de achá-lo em outra, 5,14% em mais outra. Nunca 100%; nunca 0%, mas todas as (infinitas) possibilidades entre a certeza absoluta e total falta de chance.

Todas essas possibilidades são reais. É como se cada uma delas correspondesse de fato a um elétron independente. Para todos os efeitos, o mesmo elétron está em vários lugares ao mesmo tempo. Guarde isso.

Bom, vamos dizer que você encontra o elétron no ponto da nuvem em que ele tinha, digamos, 5,14% de chance de aparecer. O que acontece? Bom, todos os outros (e infinitos) pontos da nuvem em que ele poderia ter surgido deixam de existir. É como se um infinidade de elétrons tivesse abandonado o Universo para que a nuvem de probabilidades desse à luz uma única partícula. Mas engraçado: se você tivesse encontrado um elétron no setor da nuvem em que havia 99,7% de chance de aparecer um, a partícula que você achou na região dos 5,14% deixaria de existir. Desapareceria com o resto da nuvem. O elétron, lembre-se, estava em todos os lugares da nuvem ao mesmo tempo. Mas quando você o encontra num ponto específico, todos os outros “clones” somem.

Isso não é ficção científica, nem uma teoria solta. É um fato, comprovado por um século de experimentos. E fica a questão: para onde vão “os outros elétrons”?

Para Everett, cada um vai para um universo paralelo diferente. O físico postulou que, quando você chega perto da nuvem de probabilidades e só encontra um elétron não significa que todos os outros evaporaram, mas que você se dividiu em cópias infinitas, espalhadas por vários universos paralelos. Uma dessas suas cópias vai encontrar o elétron na área em que a probabilidade era de 99,7%, outro, na de 99,6%, outro na de 20%, outro na de 4,535534%…. Infinitos “vocês” encontram infinitos elétrons na nuvem de probabilidades. Cada um dentro de um universo paralelo.

Essa solução que Everett encontrou para o maior paradoxo da física quântica não é um chute no escuro. Trata-se de uma teoria feita com base em matemática sólida.

E ela não se restringe a nuvens de probabilidade em laboratórios de física. A teoria prevê que não existe um único universo, mas uma miríades deles, todos contidos num gigantesco, descomunal e eventualmente infinito “multiverso”. Dentro do multiverso, tudo o que pode acontecer, dizem Everett e seus seguidores, acontece. Num desses universos, você nunca nasceu. Em outro, nenhuma estrela jamais se formou, e tudo o que há é uma escuridão sem fim. Já um outro é exatamente igual a este aqui, com a diferença de que, neste momento, você está na Vila Olímpica, esperando para disputar os 400 metros medley da natação.

É como diz outro admirador de Everett, o professor Clarke, de Stranger Things: “Pela Teoria dos Muitos Mundos, existe um universo onde esta tragédia [a morte do Will] não aconteceu”.

Daria para a gente entrar em contato com esses outros universos? Na prática, não. Mas a prática, na teoria, é diferente (hehe). À luz da física teórica de hoje, eventuais outros universos podem existir sem problemas, contanto que estejam em “outras dimensões” (um conceito postulado por Theodor Kaluza e Oscar Klein, dois físicos do início do século 20). Kaluza propôs que, se o nosso universo tivesse quatro dimensões de espaço (em vez das três que conhecemos), a gravidade funcionaria de acordo com as equações que regem o eletromagnetismo. Ou seja: a gravidade seria tão poderosa quanto a força eletromagnética.

Mas o nosso mundo tem só três dimensões. Logo, as contas de Kaluza não serviriam para nada. Mas então Klein veio e o salvou, com outra tese: a de que poderiam haver mais dimensões, sim, só que elas estariam “enroladas” em espaços microscópicos.

Dessa ideia, veio um exemplo clássico da física: o da formiga dentro de um canudo. Imagine um canudo enorme, do tamanho do Corcovado. Visto de longe, ele pareceria uma linha finíssima. Um coisa unidimensional. Mas do ponto de uma formiga lá dentro do canudo, a paisagem seria bem diferente. Ela poderia andar em qualquer direção, dando voltas pela circunferência interna do canudo – uma circunferência que, do ponto de quem vê a coisa de longe, parece nem existir.

É desse exemplo da formiga e do canudo, feito lá nos anos 20, que os roteiristas tiraram aquela história da “pulga e do equilibrista”, que dá título a um dos episódios da série. O equilibrista seria você, para quem a corda só permite andar para frente ou para trás (uma única dimensão de espaço, sendo que as outras duas são para cima/para baixo, esquerda/direita). E a corda, aí, é o canudo de Klein – a pulga move-se livremente pela corda, atravessando as três dimensões de espaço, igual a formiga do canudo. Em suma: o “Mundo Invertido” da ciência é o mundo das dimensões enroladas.

Hoje, o conceito das dimensões enroladas é a base da teoria das cordas. Os físicos partidários dela acreditam que o mundo tem nove dimensões (e que essas dimensões todas são as responsáveis pelo eletromagnetismo ser mais forte que a gravidade, entre outras coisas). O lance é que seis dessas nove dimensões estariam “enroladas”, e as outras três, as que nós vivenciamos, seriam as “estendidas”. Grosso modo, essa lógica dá sentido à ideia de Kaluza: a gravidade seria uma força que só existe no macrocosmo das dimensões extendidas. Já o eletromagnetismo seria a gravidade sob a ação de uma ou mais dimensões (nota: não é exatamente assim que os teóricos das cordas acham que a coisa funciona, mas é parecido, então vale dar essa imagem simplificada aqui).

Desnecessário dizer, como os meninos da série sempre lembram, que tudo isso “é só teoria”. É mesmo. Nunca, jamais, encontraram vestígio de outra dimensão. Alguns físicos imaginam que, para “furar” uma dimensão enrolada (e ver que aquilo realmente se trata de uma outra dimensão), seria necessária uma força descomunal, que nem o LHC, o maior acelerador de partículas do mundo, com 27 km de circunferência, poderia atingir. Brian Greene, da Universidade Columbia e fanático pela teoria das cordas, imagina que só com um acelerador do tamanho do sistema solar vamos descobrir se ele e seus colegas estão certos ou não. Pode esperar sentado.

Enquanto isso, os teóricos seguem imaginando como seria o mundo multidimensional que surgem em suas equações. A melhor teoria recente nessa área é obra de Edward Witten, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton – um sujeito reverenciado como gênio por gente que tem Nobel na estante da sala.

Witten concluiu que o multiverso é composto por vários universos com 10 dimensões cada – nove de espaço e uma de tempo. Das nove de espaço, um universo pode três dimensões estendidas e seis enroladas (caso do nosso); outro universo, cinco enroladas e quatro estendidas – as eventuais formas de vida de um mundo assim experimentariam um surreal ambiente “4D” de espaço. Weird. Para a física teórica de hoje, então, a noção de multiverso é ainda mais abrangente que a de Everett. TUDO o que pode acontecer realmente acontece, inclusive realidades com mais de três dimensões estendidas.

A teoria de Witten, de quebra, envelopa seus infinitos universos de dez dimensões em mais outra dimensão, uma décima-primeira. Essa dimensão número 11 faria o papel do “caldo” por onde flutuam todos os universos do multiverso. Poeticamente falando, essa 11a dimensão seria quintessência do Cosmos, a única coisa que “toca”, que “tem acesso”, a todos os universos paralelos. Talvez não seja coincidência, então, que a menina ali chame “Eleven”. Se existe um número em que os físicos mais atrevidos, e geniais, apostam para explicar o universo é justamente esse.