Crash Crash

Por Atualizado em 02/12/2016

CRASH-aborto

Enquanto o feto depende do corpo da mãe para se desenvolver, ele é parte integrante do corpo dela. Então acho que cabe só a ela decidir o que fazer com essa parte – chame-se essa parte embrião, feto ou Ludwig van Beethoven.

Essa é a minha posição filosófica sobre o aborto. Se você acredita que não, que a vida começa no momento em que espermatozoide e óvulo encerram suas existências independentes e se tornam uma coisa só, eu respeito. Mas a nossa discordância é irrelevante fora do mundo das ideias, porque no mundo real a legalização do aborto não é uma discussão filosófica. É uma questão de saúde pública.

Uma em cada cinco brasileiras que estão hoje nos últimos anos da vida reprodutiva (35 a 39 anos) já passaram por pelo menos um aborto voluntário, segundo um estudo famoso da Universidade de Brasília. Ou seja: pelos padrões vigentes neste momento, você, mulher, tem 20% de chance de chegar aos 40 já tendo induzido voluntariamente um aborto.

Diante disso, tecer leis e punições contra interrupção de gravidez me parece tão produtivo quanto legislar contra o consumo de oxigênio.

Pior. No mundo real, as leis anti-aborto só tornam o procedimento mais caro para quem pode pagar e mais arriscado para quem não pode. E quem não pode acaba apelando para gambiarras suicidas, extremamente arriscadas. Como a maioria não pode pagar, temos que as nossas leis anti-aborto são, elas sim, uma afronta contra a vida. Uma afronta contra a vida das mulheres pobres.

Por Atualizado em 25/11/2016

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Foto: José Cruz/Agência Brasil

Dilma cometeu um crime de responsabilidade. Isso aliado àquele fantasma chamado “vontade política” lhe custou o mandato. Temer cometeu um crime de responsabilidade. E provavelmente vai perder o mandato também.

Deve perder porque “vontade política” não será o problema, de novo. Seu governo consegue ser ainda mais desastrado que o da antecessora. É um mandato frouxo, inconstante, feito de idas e vindas, ditos e desditos. Primeiro, Temer patrocinou a PEC 241, a do congelamento dos gastos públicos por 10 anos. Ótimo, a meu ver. Mas depois disse que não, que se o país voltar a crescer logo “é só fazer outra PEC” para revogar a de agora. E isso minou a confiança do mercado.

Adendo: “mercado” não é uma palavra-fantasma. O “mercado” sou eu. E provavelmente é você também. Porque “mercado”, neste contexto, significa “credores do governo”. E todo mundo que tem dinheiro aplicado em fundo de renda fixa, DI, ou qualquer outra coisa que envolva títulos públicos está emprestando para o governo. E eu só vou emprestar para um governo se confiar na capacidade de ele pagar suas contas. Se não, vou exigir juros bem altos. E se não me derem juros bem altos, compro tudo em dólar e o governo que se exploda. Desnecessário dizer que não sou só eu que penso assim. É todo mundo – e é por isso que, sob governos fracos, o dólar tende a subir e os juros, a não cair.

E o governo Temer não é exatamente fraco. É raquítico. Logo depois de manchar a PEC, por exemplo, Temer conseguiu enlamear outra necessidade urgente: a reforma da previdência. Nosso presidente decorativo garantiu que os militares continuarão com seus privilégiosde século 19, como pensão vitalícia pra as “filhas solteiras” dos oficiais. “Eba”, devem ter pensado as senhoras da Urca que já se casaram, já tiveram filhos, netos e, mesmo assim, jamais foram ao cartório mudar o estado civil, para não perder a boquinha – bocarra, na verdade, que garante pensões de até R$ 40 mil por mês e consome R$ 4,3 bilhões por ano. É quase o mesmo tanto que o Ministério das Cidades deve gastar neste ano com o Minha Casa Minha Vida.

Outra amostra da anemia deste governo é a queda crônica de ministros. Com Geddel, agora já são seis os que perderam suas pastas. E desta vez por conta de uma mesquinharia imobiliária – mostrando que, mesmo com o país ruindo, o governo Temer gastava seu tempo com pequenezas torpes, como mover palhas para que a família de um ministro consiga realizar o sonho do apartamento próprio com vista para o Farol da Barra, a despeito de a construção do prédio ter sido embargada pelo instituto federal que cuida da preservação do patrimônio histórico (posto que o tal prédio enfeiaria o skyline soteropolitano).

Gosto arquitetônico à parte, o fato é que Temer mandou o Ministro da Cultura retirar o embargo para afagar o Ministro da Secretaria de Governo (justamente o cara que deveria cuidar da articulação política…). E a gravação comprovando tal baixeza deve minar a continuidade de seu governo.

É essa gravação que trará “vontade política” para o que os 300 picaretas de sempre votem “sim”  de novo, em nome de seus filhos, de seus estados, da paz em Jerusalém e, principalmente, em nome do fato de que quem seguir no barco com Temer vai afundar junto com ele na vida pública. Tchau, querido.

 

Por Atualizado em 22/11/2016

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Tesla Model 3, o elétrico que periga se tornar um dos carros mais vendidos do mundo
Não tem o que discutir: carros elétricos são melhores que carros a gasolina – aceleram mais, fazem tanto barulho quanto uma biblioteca de convento e soltam menos gases do que a Rainha da Inglaterra num jantar de gala.

Mas ainda falta combinar com a humanidade. Nossa rede elétrica hoje não conseguiria abastecer a frota mundial de 1,2 bilhão de carros – muito menos os 2 bilhões previstos para estarem rodando logo ali, em 2035. Pior: vá até a vaga de garagem do seu prédio e procure uma tomada. Você não vai encontrar – e como um carro elétrico leva coisa de oito horas para “encher o tanque” de elétrons, talvez fosse um péssimo negócio você trocar seu bebedor de gasolina de quatro rodas por uma versão com baterias de lítio.

Mas mesmo com todos esses noves fora, a Agência Internacional de Energia prevê que em 25 anos o número de carros elétricos terá saltado dos atuais 1 milhão de unidades para 150 milhões. Ainda não será o bastante para superar a quantidade de carro a gasolina, mas marcará algo inédito: pela primeira vez desde o início do século 20, a demanda por gasolina deixará de crescer. E dali em diante irá ladeira abaixo.

Tem gente na indústria do petróleo que acha essa previsão exagerada. Mas não no sentido que você deve estar imaginando. Simon Henry, executivo-chefe de finanças da anglo-holandesa Shell imagina que a demanda por gasolina deva começar a cair bem antes: ainda em 2020, disse à Bloomberg. Isso aconteceria não só graças à ascensão dos carros elétricos, mas a motores convencionais mais eficientes, etanol e carros híbridos, que unem motor elétrico e à combustão. No Brasil existem alguns desses, como o Toyota Prius e o Ford Fusion Hybrid. Já nos EUA praticamente todos os modelos à venda têm uma versão híbrida. Mais: os modelos mais velozes da Ferrari, da Porsche e da McLaren são carro híbridos, que usam a aceleração alucinante do motor elétrico para ajudar seus gigantescos motores a combustão (“É como usar energia solar para construir uma bomba atômica”, brincou o jornalista inglês Jeremy Clarkson depois de testar um McLaren híbrido de quase mil cavalos).

 

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LA Ferrari, o híbrido de Marenello, e carro mais rápido da marca do cavalinho.

Seja como for, talvez o motor a combustão acabe completamente dispensável mesmo para quem só se importa com velocidade: o carro que acelera mais rápido hoje de zero a 100 km/h não é nem uma Ferrari, nem um Porsche nem uma McLaren. É um Tesla. O Model-S, carro mais caro da linha de montagem de Elon Musk (R$ 250 mil, nos EUA) ganhou um upgrade de software na semana passada que promete fazer o carro ir de zero a 100 em 2,4 segundos. Basicamente a aceleração de um Fórmula-1 (categoria que hoje também usa exclusivamente motores híbridos).

Não fica nisso. Se tudo der certo, o elétrico Tesla Model-3 deve se tornar logo um dos mais vendidos nos EUA. Ele ainda não entrou em produção, mas já 373 mil encomendas – o que teria sido o bastante para colocá-lo entre os cinco carros mais vendidos dos EUA em 2015 (atrás de três picapes e do Toyota Camry, o primo mais rico do Corolla).

Seja o CFO da Shell que esteja certo, seja a Agência Internacional de Energia, o fato é que a gasolina já tem mesmo prazo de validade. Melhor pra o mundo, melhor para os motoristas e pior só para os que apostavam o futuro do Brasil no pré-sal, cegos para o fato de que o mundo continuava girando.

Por Atualizado em 08/11/2016

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Se eu fosse dono de um site de fofoca, tentaria contratar Donald Trump como editor. Taí um cara que sabe entreter o público usando como ferramenta a própria selvageria enrustida do público.

Parte da audiência de um site de fofoca, creio, é composta de gente besta que nem eu, que vê um link do tipo “Caetano estaciona o carro no Leblon” e clica, cheio de culpa, com a certeza de que o ato vai fazer uns 500 neurônios cometerem haraquiri. Mas clica. E joga cinco valiosos segundos do milagre da existência pelo ralo só pelo prazer inconfessável de ver Caetano fazendo baliza em alguma travessa da Ataulfo de Paiva.

Dito isso, acho que boa parte dos eleitores de Trump pensa parecido. Muita gente que votou no sujeito ontem nem é tão lunático. É gente que quer diversão. Para esses pessoal, não basta mais Big Brother, O Aprendiz, Master Chef. Eles querem entretenimento na veia. Querem ver um filme merda, tipo “Um Gorila na Casa Branca”, com um personagem real “aprontando altas confusões”. O desejo desse eleitor é transformar o noticiário das 20h em recreação. Ele não quer um presidente governando. Quer um presidente mitando.

Sim, também existe outra explicação: o fenômeno Trump  reflete a ascensão mundial da direita linha dura, na esteira do Brexit e do ressurgimento da família Le Pen, os representantes máximos dos ultranacionalistas na França. Até na Alemanha a extrema direita xenófoba está crescendo. Lá os políticos evitam usar a palavra “povo” (volk) para não lembrar Hitler – o Führer, afinal, não cansava de repeti-la, e fez até um carro (wagen) com esse nome. Agora a terra da racional Angela Merkel tem sua primeira estrela política de extrema direita desde Adolf, a feroz Frauke Petry (a da foto ali em cima) – que começa a despontar como chancellerzável surfando na onda do ódio aos refugiados e do desprezo a bandeiras ambientalistas, como o controle das emissões de CO2 – ela nega o papel do dióxido de carbono nas mudanças do clima, e alega que sabe disso porque “é cientista” (ela formou-se em química). No Brasil não é diferente: de mitada em mitada, Bolsonaro só vê sua claque de bolsominions crescer.

De volta ao ponto: também acho que nem todo o eleitorado de Frauke Petry, Marie Le Pen ou Jair Bolsonaro seja formado por radicais como eles, mas por gente que quer diversão. Que quer ver o pau comer. Que acha que testemunhar a lona do circo em chamas é simplesmente mais legal do que comprar um ingresso na bilheteria para assistir palhaços, mágicos e trapezistas profissionais. E até é mais legal mesmo – ao menos para quem não se importa grande coisa com os efeitos colaterais de um circo pegando fogo, como as mortes por asfixiamento e as queimaduras de terceiro grau na plateia. Esse tipo de eleitor esquece que faz parte da plateia.

Texto editado às 10h32 de 9/11

Por Atualizado em 01/11/2016

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O caso das escolas ocupadas lembra um pouco o dos países de economia planificada. Mas não do jeito que você pode estar pensando.

Cuba e Coreia do Norte, para ficar nos dois exemplos mais óbvios, são lugares onde obedecer cegamente a lei é um hábito que pode ter efeitos colaterais graves.

Por isso mesmo, boa parte da população nesses lugares não obedece. O comércio é controlado com rédea curta pelo Estado. Você não pode abrir um negócio que não faça parte da lista, bem restrita, de atividades comerciais legalizadas. Mesmo assim, cubanos e norte-coreanos operam mercados negros vibrantes. E esses mercados são fundamentais para manter a população alimentada e vestida. Se todos respeitassem a lei nesses países, restringido-se a fazer só o que o Estado lhes determina, teriam morrido de fome. Sem desobediência civil, esses países já teriam decaído para a selvageria.

Mas o que o livre mercado tem de competente para prover comida, tecnologia e diversão, ele tem de inepto para erguer outro pilar civilizatório: a educação universal. O livre mercado é exímio em criar centros de excelência de ensino – as escolas particulares de primeira linha das grandes capitais estão de prova. Mas ensino básico nunca foi um bom negócio.

Talvez pelo mesmo motivo pelo qual a pediatria nunca foi um grande negócio. Os médicos pediatras reclamam por ter um padrão de vida bem inferior ao de seus colegas cirurgiões plásticos. Os pais, afinal, tendem a gastar mais com a própria beleza do que com a saúde de suas crianças. A caxumba do bacorinho vai pelo plano de saúde, as próteses de silicone da mamãe e os implantes de fios do papai, não.

Se faltam consumidores até para bons pediatras, imagine para bons professores. Nisso, o ensino de primeira linha se tornou um artigo de luxo. Quem paga R$ 3 mil numa mensalidade de ensino fundamental tende a ser só quem não olha para a coluna dos preços quando abre o cardápio do restaurante. Claro que há exceções – mas são casos tão brilhantes de abnegação paternal que a admiração que eles despertam só confirma a regra.

Por essas, 92% das crianças nos EUA estudam em escola pública, segundo dados do Banco Mundial. E não estamos falando e um país famélico, muito menos socialista. Até no Brasil a porcentagem de crianças sob os cuidados educacionais do Estado é menor: 84%.

De qualquer forma, estamos no brasilzão – e mesmo que todos os pais daqui fossem campeões mundiais de altruísmo, não surgiria um mercado vibrante de educação fundamental: quase todos esses pais seguiriam sem condições de pagar por educação de primeira linha para os seus rebentos.

E o que sobra para a maioria, no fim, é o Esquema Vampeta de Educação: a escola finge que ensina, o aluno finge que aprende, e bola pra frente. Até que 30 anos depois os potenciais Shopenhauers das escolas públicas e das particulares charlatonas estejam limpando as piscinas do pessoal dos colégios de 3 paus por mês.

Por tudo isso acho bem vinda a desobediência civil entre os alunos das escolas públicas. Sim, eles mal sabem contra o que protestam. A reforma do ensino médio, que tinha o mesmo texto de agora sob o governo Dilma, era celebrada pelas organizações estudantis – posto que vinha de um governo amigo. Agora, sancionada de sopetão pelo governo inimigo, virou obra de Satanás. Eles também são contra a PEC 241, ao mesmo tempo em que não nem fazem ideia de como a Proposta de Emenda Constitucional pode realmente impactar a educação pública. Por outro lado, o primeiro escalão do Ministério da Fazenda também não sabe quais serão as consequências da PEC – nem para a educação nem para nenhuma outra área. Trata-se de uma aposta macroeconômica, não de um modelo testado e aprovado severamente em outros países. Também não há dúvida de que os pequenos líderes das ocupações não fazem muito mais do que repetir jargões do século 19 que seus professores-vampetas fingiram lhes ensinar. Mas nem tudo nas ocupações é militância fossilizada. Lá no meio também temos Anas Júlias Ribeiros, capazes de reconhecer as próprias limitações de retórica sem que isso signifique aceitar de cabeça baixa o ensino porco que o Estado lhes impõe. Não acho que acabar com a PEC vá ajudar nisso. Mas respeito que Ana Júlia e seus colegas achem isso. Eles têm tanto direito a opinião quanto qualquer adulto. Sem falar que uma cabeça pensante de 16 anos vale mais que um cérebro acabrestado de 30, 40.

Se eu mesmo estivesse ocupando uma escola, faria um pedido mais razoável do que acabar com a PEC: reivindicaria tirar a educação do pacote. E que o governo fizesse como o mercado faz. No mercado, investimento não entra no balanço como um gasto, um custo. Se você lucra 2 milhões num ano e investe esses 2 milhões na companhia, você publica que teve lucro de 2 milhões, não de zero. Enfim: educação não pode ser vista como gasto, mas como investimento. O único investimento capaz de realmente tirar o país do vermelho.