Crash Crash

Por Atualizado em 24/06/2016

bandeira

A Inglaterra vai provar do próprio veneno. Mais de 60% dos escoceses votaram para continuar na União Europeia. De todas as regiões do Reino Unido, a Escócia foi a que mais rejeitou o Brexit – seguida pela região metropolitana de Londres e pela Irlanda do Norte.

Para os londrinos, não há mais o que fazer. O interior da Inglaterra, bem mais xenófobo e retrógrado que a capital britânica, decidiu por eles. E agora não tem mais volta.

Mas na Escócia a história é outra. Eles quase se separaram do Reino Unido em 2014. Só que ninguém tinha como cravar qual seria o futuro de uma Escócia independente dentro da União Europeia. Os separatistas escoceses queriam seu país na UE, mas o que restasse do Reino Unido talvez vetasse a entrada da Escócia, como retaliação contra a rebeldia do pessoal das gaitas de fole.

Agora é diferente. A Escócia acaba de deixar a União Europeia. Contra a vontade. E por decisão de um povo que eles entendem como inimigo histórico, não como compatriota.

Por essas, a própria Primeira Ministra da Escócia já avisou que deve haver outro plebiscito até 2018 (que é quando a saída do Reino Unido da UE será ratificada de vez). Nisso, o mais provável é que, sim, a Escócia dê uma bundada na Inglaterra e anuncie do divórcio com o Reino Unido, caindo nos braços da União Europeia.

A bandeira do Reino Unido, então, deve perder seu fundo azul, que representa a Escócia. E a União Europeia ganhará um novo membro, cheio de petróleo, gás natural, e um PIB per capita maior que o da Bélgica, da França, do Japão e do próprio Reino Unido.

Num segundo momento, os ventos separatistas podem soprar na Irlanda do Norte também, que empresta as listras diagonais fininhas de sua bandeira para a do Reino Unido. Hoje, o governo de lá é pró-Inglaterra. Já a oposição, muito pelo contrário. E a população, que é quem conta de fato, queria ter ficado na UE – esse foi o voto de 56% dos norte-irlandeses.

Uma eventual saída deles deixaria o Reino Unido com apenas dois membros: Inglaterra e País de Gales. Ou seja: não existiria mais Reino Unido. Até porque o País de Gales, onde a maioria decidiu por sair da UE, há tempos se contenta em ser só um time de futebol – um time ajeitado, pelo menos: o melhor jogador do Reino Unido, Gareth Bale, é de Cardiff, a capital galesa. Bale, que joga no Real Madrid, foi assediado pela Inglaterra, que queria o rapaz no English Team. Ele recusou: “Se eu aceitasse jogar com os ingleses, nunca mais me deixariam pisar em Cardiff”.

Legal, Bale. Só pena que agora essa xenofobia que vocês adoram cultivar até entre vocês mesmos deixou de ser só uma brincadeira de torcida. A partir de hoje, ela passa a tornar o mundo um lugar pior.

POST ANTERIOR: Teoria dos Jogos: a arma mais letal contra a máfia das empreiteiras. 

Por Atualizado em 21/06/2016

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As palavras “Brasil” e “inteligência” não têm se bicado nos últimos 500 anos. Mais do que um país corrupto, este é um país burro, que glorifica a estupidez.

Um país onde confundem burocracia com disciplina – quando burocracia, na verdade, é sintoma de desordem generalizada. Um país onde empulhadores se dizem “juristas”. Um país onde as auto-escolas que ensinam a dirigir estão entrando em extinção, porque temos uma máfia incentivando a compra da carteira de motorista, que te livra do incômodo de aprender a dirigir antes de obter uma licença para dirigir.

Bom, corta desse país burro e cheio de incentivos torpes para o momento mais importante da Lava Jato inteira: agora, que Odebrecht e OAS montam suas delações.

A atitude mais “brasileira” ali seriam as duas empreiteiras formarem um cartel de delação. Ambas falariam só o estritamente necessário para livrar seus executivos da cana. E sairiam para comemorar com uma orgia gastronômica no Fasano, felizes com suas tornozeleiras eletrônicas e garrafas de vinho de R$ 2 mil.

Mas, olha só, a procuradoria miou essa possibilidade. Os caras avisaram que só vão aceitar UMA das delações. OAS e Odebrecht vão entregar suas respectivas papeladas de confissões. Quem soltar mais sujeira vai jogar tênis em Angra. Quem ficar em segundo, mesmo tendo falado só 1% menos, apodrece na cadeia.

Isso é pura Teoria dos Jogos, a ciência que lida com recompensas e incentivos entre humanos – e que foi obra de John Nash, o matemático que o Russell Crowie lá em cima interpretou em Uma Mente Brilhante.  No contexto da Lava Jato, funciona assim: a Odebrecht não vai aceitar que a OAS se livre dessa. E vice-versa. Não há incentivo mais poderoso para que AS DUAS falem de uma vez o que sabem. Sem lenga-lenga de advogado, sem empulhação, sem negociata. Ou fala tudo ou fala tudo. E torça para ter falado mais que o outro.

Essa situação é uma variante do “Dilema do Prisioneiro” – um conceito central na Teoria dos Jogos. No Dilema original, você tem dois prisioneiros que foram cúmplices num crime. Vamos chamá-los de Marcelo Odebrecht e Léo Pinheiro. Se Marcelo delatar Léo, é solto – mas só se Léo, que está em outra sala de interrogatório, não delatar Marcelo. Léo, que não quis colaborar com a polícia, pega 30 anos de prisão e Marcelo acaba livre.

Se a situação for inversa, com Léo dedurando Marcelo, e Marcelo fechando a boca, quem se livra é Léo. E Marcelo é quem passa 30 anos preso.

Caso os dois se dedurem mutuamente, cada um pega só 15 anos. Se os dois ficarem quietos, sem colaborar com a polícia, pegam 5 anos.

Nenhum dos dois, veja, tem como se comunicar com o outro para combinar aquilo que seria melhor para ambos: os dois ficarem quietos e pegar só 5 anos de cadeia.

E agora? Se você fosse o Marcelo ou o Léo, o que faria? Ficar quieto seria a melhor opção, mas você não sabe se o outro abriria a boca. E se você ficar quieto e o outro rte delatar, danou-se: você vai passar 30 anos na cadeia, e ainda ver o outro sair livre.

O que você faz, então? A maior parte das pessoas prefere evitar o pior (30 anos de cana) e delatar de uma vez.  Nisso você garante que, na pior das hipóteses, passará 15 anos preso. E, na melhor, sairá livre. Se ficasse quieto, passaria 5 anos preso na MELHOR das hipóteses. E 30 na pior. Logo, o melhor é confessar tudo de uma vez.

Bom, ao propor que só vai dar a liberdade para o grupo de empreiteiros que delatar mais, a procuradoria mata dois coelhos da Teoria dos Jogos. Primeiro, impede que eles combinem qualquer coisa – um dos dois lados vai rodar, então não existe acordo possível. É como se as duas partes estivessem de fato isoladas uma da oura, igual acontece no Dilema do Prisioneiro original. Segundo, como você já leu aqui, a jogada da procuradoria incentiva os dois lados a soltar absolutamente tudo o que sabem, pois não existe outra saída.

É isso aí. Temos um poder público usando a Teoria dos Jogos, uma ciência tão jovem quanto sofisticada, para conseguir o que precisa. Ótimo. Eis uma coisa que torna as palavras “Brasil” e “inteligência” menos antônimas. Que continuemos nesse caminho. Que a nossa tradição de estupidez comece a apodrecer junto com quem perder esse jogo.

Por Atualizado em 15/06/2016

folha2

Do ponto de vista de quem edita notícias, precisa. As pessoas querem ver a cara do matador. Vai fazer o quê? Fingir que o cara não existe?

Mas espera um pouco.

Ontem mesmo na TV um apresentador falava do sofrimento dos parentes e dos amigos das vítimas. O repórter abraçava um rapaz que, às lágrimas, dizia não ter notícias de um amigo desde a noite da chacina. Aí, enquanto o áudio segue, vem uma torrente de selfies do atirador. As mesmas selfies que aparecem o tempo todo no noticiário desde o começo da semana.

Precisa disso? Claro que não. A informação sobre o rosto do assassino já era conhecida. Nada justificava mostrar um álbum todo do indivíduo. Exposição post mortem é tudo o que esses caras desejam antes de cometer o que cometem. Transformar todo e qualquer terrorista de merda num rosto conhecido mundialmente só ajuda a trazer cada vez mais malucos para esse bonde.

Não estou pedindo censura. Se tiver relevância mostrar a cara de um desses sujeitos, ok. Mostra. Mas não é o que está acontecendo. Na Folha de hoje, por exemplo, uma foto do atirador ilustra um artigo sobre a feira de armas de Jacksonville, na mesma Flórida onde aconteceu a chacina. Aqui:

Folha

Bom, qualquer foto de arquivo de qualquer feira de armas ilustraria melhor o (ótimo) artigo que um catzo de uma selfie do artrópode em questão fazendo bico – uma selfie da mesma série que está todo mundo reproduzindo o tempo todo (e que eu mesmo só tinha como colocar aqui com um “x” na cara do boçal).  

No fim, acho que não faria mal alguma espécie de acordo entre meios de comunicação para não mostrar a cara desses sujeitos. Pelo menos não TANTO.

Porque isso, de novo, só reforça para alguns milhões de acéfalos que cometer assassinato em massa é um jeito eficaz de sair de uma vida medíocre e entrar para a história. Pior: isso também joga gasolina no ódio contra qualquer um que nasceu com traços faciais que remetam a etnias do Oriente Médio – tipo eu mais uns dois bilhões de indivíduos.

E se nada disso for motivo para parar de mostrar as poses que esse entulho humano fazia para o celular, beleza. Vamos parar, então, por respeito aos amigos e parentes das vítimas; e, lógico, por consideração a todos os que de alguma forma se sentiram tocados pelo episódio – todo mundo, basicamente.

Já deu. Que a imagem desse cara volte para o limbo, de onde nunca deveria ter saído. E de onde, para todos os efeitos, jamais saiu.     

 

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PS: a versão online do artigo da Folha sobre a feira de Jacksonville, assinado pelo Álvaro Pereira Júnior, está ilustrada justamente com imagens de arquivo de outras feiras de armas nos EUA. Aí sim.

 

 

Por Atualizado em 03/06/2016

Realidade-Alternativa-1-Danilo-Z

“Mas pneu ainda fura?” – pensei. Ô se fura. Ainda mais quando você tá no meio da putaqueopariu, sem sinal de celular, com o estepe murcho, em algum lugar entre Porranópolis e Santa Rita do Caralho a Quatro. (“Mas como tem cidade nesse Estado, meu deus; se começar a ter voto distrital, aí que ferra tudo de vez” – pensei também –, mas não é hora de falar de política.)
Também não era nada hora de falar de política quando fui pedir ajuda num sobradinho que tinha lá longe, a quase um quilômetro da estrada. O incrível é que não era só um sobradinho. Era um bar. Um bar bem grande para estar ali, no meio do nada – com balcão pra umas dez pessoas, um monte de mesa, um escadão bonito de madeira, daqueles bem de saloon de filme mesmo.
Fui direto até o balcão. Chamei o cara que estava ali. Um cara grandão, 50 e muitos anos, com bigode de morsa.
– Amigão, por favor, meu pneu estourou ali na beira da estrada, e…
– O do rapaz ali de vermelho também.
Cacete. No outro canto do balcão, de costas, tinha um cara de camiseta do PT. A minha era da seleção. Não era hora mesmo para falar de política.
“Vai vir cuspir na minha cara, esse filho da puta. Se vier, vai ter…”.
O petista virou a cabeça na minha direção, quase como se estivesse lendo meu pensamento, o safado. E foi ali que eu perdi as pernas: o cara tinha o meu rosto. Fora o nariz meio torto e cabelo mais ralo, o bicho era um espelho encarnado. Um petista talhado à minha imagem e semelhança. Era quase como se eu fosse personagem de um conto de realismo fantástico mal escrito, com lição de moral embutida, sabe?
– “Oi, meu. Tudo bem? Cara… Ou eu tô enganado ou a gente é bem parecido, né? Tipo irmão gêmeo mesmo, sei lá, tipo…
– Tipo a mesma pessoa, né Jorge?” – ele falou – Mas porra… Coxinha agora?
– QUE PORRA É ESSA? Como é que você sabe o meu nome???
– Já tá bem óbvio, né?
– Não pra mim, meu irmão. E você nem é o primeiro cara parecido comigo que eu vi na vida. Você nem é TÃO igual assim. A começar pela voz.
– É a voz que você ouve no gravador quando grava a tua, ô coxa.
– Coxa é o caralh….
“Parou. Parou!”. Disse outro sujeito, enquanto descia correndo pelo escadão de madeira. Só de ouvir a voz eu arrepiei. Era a mesma voz de gravador do petista. E quando o sujeito deu as caras, puta merda: era o meu rosto ali de novo. Fora o terno acinturado e a gravata fininha, verde-água, era eu ali. Cuspido e escarrado. Esculpido em carrara.
E ele nem olhou na minha cara. Só gritou para o vermelhão:
– Hahaha. Se fodeu! A gente virou coxinha também!
Atrás dele, na escada, desceu outro Jorge. Esse era gordinho, mas igual eu do mesmo jeito. E também não parecia nada surpreso com a minha presença.
– QUE PORRA É ESSA??

– Ô, Morsa! Traz uma gelada pro Jorge novo aqui na mesa – disse o cara do terno – E fica tranquilo aí que eu te conto. Quando eu cheguei por aqui, tava só o Morsa no bar. Meu pneu tinha furado. Estranhei pra caramba, porque pneu de BMW M3 não fura, tem uma capinha de fibra de carbono que…
– Sei, sei. Vamos direto ao ponto.
– Então. Cheguei aqui e pedi a senha do Wi-Fi pro Morsa. Não tinha. Não tem Wi-Fi nessa budega. Não tem sinal, não tem nada. Perguntei se tinha borracheiro por perto. Ele falou “só se for lá no Posto Ipiranga”, e ficou dando risadinha. Mas antes que desse tempo de eu ficar bravo, entrou o Che Guevara aqui, né Che?
– “Che” o caralh…
– Calma. De boa. Então: primeiro rolou aquele susto. A gente concluiu que só podia ser gêmeo. Gêmeo separado no hospital, tipo aquele documentário com as coreanas, sabe?
– Não.
– Tem no Netflix. Bom, a gente achou que era gêmeo separado no hospital. Certeza. Bateu foi uma euforia da porra. Tiramos uma porrada de foto – pra marcar legal o momento, tá ligado? E enquanto a gente tava tentando fazer uma em que aparecesse eu, o Che e o Morsa…
– Sem pau de selfie – pontuou Che.
– Isso, sem pau de selfie, porque nem que tivesse um no bar o Che aqui ia deixar a gente usar, né Che?
– Se liga, ô playboy.
– Bom, aí que estourou a bomba: entrou outro Jorge pela porta, o gordinho aqui.
– Cara – disse o Che, agora bem de boa comigo (ele devia ter percebido que eu era menos coxa que o Jorge de terno) – Foi tipo o 11 de Setembro. Quando tinha batido só o primeiro avião, todo mundo achava que podia ter sido acidente. Aí veio o segundo, e ficou óbvio para todo mundo que aquilo era merda da grossa. Na hora em que apareceu mais um Jorge, ficou claro: não tinha essa de gêmeo. O que estava acontecendo era merda mesmo. Da grossa.
O Jorge Gordinho vestia uma camisa preta grande por fora da calça para disfarçar a barriga, igual eu fazia direto antes de ter emagrecido. E começou a falar:
– Meu pneu furou lá na estrada, igual o deles. E igual o seu, imagino. Aí entro aqui e, porra: vejo esses dois me encarando como se eu fosse o Monstro do Lago Ness. Tenso. Tanto que nem percebi a parte das semelhanças. Nada.
– Vai, ô boleta, conta a história direito – disse o Jorge Playboy.
– Tô contando, ô. Quando vi a cara dos dois… Aí entendi por que é que estavam me olhando daquele jeito, minha nossa. Fiquei doido.
– Começou foi a chorar que nem um bode desmamado, isso sim – disse o Che, com uma risadinha maldisfarçada no canto da boca. E o Gordinho seguiu falando:.
– Me veio um negócio na cabeça. Do nada. Dei um passo pra trás e gritei pros caras: ´Rua Luis Borges 1359, apartamento 37!´
– Puta merda – falou o Playboy – Nessa eu pedi truco: “Guilherme e Leonor de Azevedo Soares!!”. Aí o Gordinho pirou de vez, né Gordinho?
Eu também. Porra. Eles tinham acabado de falar o endereço onde eu tinha nascido e o nome dos meus pais – e era também o endereço onde eles tinham nascido, e os nomes dos pais deles. Perdi a fala. Mas com o Gordinho foi pior. Só de ouvir aquilo de novo, ele ficou mais maluco ainda. Saiu correndo do bar.
Fui atrás. Senti que precisava ajudar o cara. Como não? E quando atravessei a porta do bar, ploft. O Gordinho desapareceu da minha frente. Eu estava a um metro dele, com o sujeito olhando para trás enquanto corria. E o bicho sumiu. Foi deletado da existência, bem na minha frente.

Sentei no chão. Puxei uns dez minutos parado ali, sei lá, tentando botar a mente no lugar. E decidi voltar para o bar. Você faria a mesma coisa no meu lugar, imagino. Aí entro de volta, e o que acontece? O Gordinho, velho. O Gordinho estava lá dentro, com o Playboy e o Che, como se nada tivesse acontecido. Ele disse:
– Cara!! Você tinha desaparecido. Olhei pra trás e você evaporou. Aí voltei pro bar. E agora você de novo…
– VOCÊ que sumiu, cacete…
– Ô Morsa! – gritou o Playboy. No que o Che emendou:
– Morsa, filho da puta! Que porra de lugar é essa pica dos infernos?
“Inferno”. Foi o que me veio na cabeça também. Aquilo só podia ser o inferno. Ou purgatório, tipo a bosta do Lost, só que agora de verdade. Vai ver eu tinha morrido na estrada, e…
– Rapaziada – disse o Morsa, finalmente abrindo aquela boca parcialmente escondida pelo bigode branco de leão-marinho.
– Pra começo de conversa – continuou o Morsa – não fui eu que cruzei o caminho de vocês. Vocês que cruzaram o meu. E eu não sou um quinquagenário com bigode hipertrofiado. Isso é a forma como você está me vendo. Digo, como vocês estão me vendo. E não me perguntem por quê.
– Se você não é um cara de bigode num bar no meio do nada, você é o quê, então, amigão?
– Sou um Buraco de Minhoca.

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– Desculpa, Morsa. Pessoal, olha só, se todo mundo aqui é o Jorge Azevedo Soares, e é, imagino que todo mundo aqui fez física na faculdade.
– Eu não – disse o Che – Sou de Humanas.
– Eu fiz – falou o Playboy – Mas saí no terceiro ano pra trabalhar no mercado financeiro.
Só eu e o Gordinho tínhamos terminado. Agora eu era geofísico da Vale. Ele, professor da USP.
– Morsa – continuei – A essa altura, se você me dissesse que era o Coelho da Páscoa, eu acreditava. Mas vamos lá, cara. Um Buraco de Minhoca é um objeto, um troço, uma coisa. Você falar que é um Buraco de Minhoca faz tanto sentido quanto eu dizer que eu sou o prédio da Fiesp na Paulista.
– Certamente você não é um prédio, Jorge, pelo menos não por enquanto. Mas, sim, eu sou um Buraco de Minhoca. Não só eu. Tudo isso aqui em volta, que vocês enxergam como se fosse um bar, também é. Essa estrutura toda é o meu corpo – e vocês só estão vendo a coisa toda como um bar porque gostam de uma birita, sei lá. Mas não interessa. Vocês estão dentro de um Buraco de Minhoca e pronto.
– Não faz sentido…
– Jovem… Eu e os outros Buracos de Minhoca somos lugares onde vários Universos se encontram. Existe um Universo em que o Jorge fez Exatas. E tem outro Universo, bem parecido, em que tudo é quase igual, exceto pelo fato de que o Jorge fez Humanas. Esses Universos se encontraram aqui agora. Bom, não os Universos inteiros. Só os Jorges mesmo. Acontece direto….
– Se é assim, então, então existe um Universo onde eu namoro com a Gisele Bündchen? – perguntei.
– Não, Jorge. De jeito nenhum. Um Universo assim contrariaria as leis mais fundamentais da…
– Caralho – interrompeu o Playboy, num surto, falando como se tivesse saído de dentro de uma duna de cocaína – Eu não saí da faculdade pra trabalhar no mercado financeiro, caras. Não. Saí foi por um motivo idiota mesmo: perdi um gol ridículo de fácil nos Jogos Universitários. Na final. Fim da prorrogação. Aí não tive mais cara pra aparecer de novo naquela porra. Pelo menos por uns tempos. Achei melhor trancar e voltar só depois que a poeira tivesse baixado… Só que aí eu já tinha entrado na Bolsa e tava ganhando uma grana boa. Não tinha mais por que voltar. Se bem que agora, com a crise toda, acho que era melhor eu ter terminado a faculdade mesmo… Mas ei: alguém aqui fez aquele gol?
Sim. Eu e o Gordinho tínhamos feito. E foi ótimo.
– É isso – continuou o Morsa – Você, meu amigo do terno italiano, é o Jorge que não fez aquele gol. Mas você também é o único que casou com a Nina, os outros três aqui não tiveram a mesma sorte.
– É… Eu não iria parar com a faculdade sem me declarar pra Nina.
Senão, a gente nunca mais se via. Até hoje não acredito que deu tão certo.
– Você pegou a Nina?? – eu disse.
– “Pegou” o CACETE. Respeita a minha mulher!
– Hahaha – gargalhou o Morsa – Sempre dá essas merdas quando eu apareço. SEMPRE. Hahahahaha.
Enquanto o tiozão ria, ele ia desaparecendo. Exato. Ele, as paredes do bar, o Che, o Playboy, o Gordinho… Cada Jorge devia estar voltando pro lugar de onde veio. Não sei. Só acho que cada um deles deve ter me visto desaparecer também.
E agora eu estava sozinho de novo, no meio do nada, com o sol me fervendo a cabeça. Sabe quando você acorda de um sonho e ele vai evaporando? Era como se o bar continuasse sumindo. Não só da realidade, mas de dentro da minha cabeça também.
Então ouvi o blip do WhatsApp. O sinal do 3G tinha voltado. Era uma mensagem da Nina, dizendo que ela tinha terminado com o demente do Luís Fernando e que queria almoçar comigo algum dia, coisa que o cara não deixava de jeito nenhum. Estava começando a digitar que “Sim, claro, estou com saudade também”. Mas não. Mandei um coração de volta. Daquele que aparece grandão, pulsando na tela.

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Este conto foi publicado na edição de junho da SUPER.

*ilustrações: Danilo Z.

 

 

 

Por Atualizado em 13/05/2016

Piggy bank with umbrella. Wealth protection concept in the design of information related to business

Taí o maior erro de quem não conhece o mercado financeiro: achar que ninguém gosta de crise. Quando o Ibovespa toma mais um tombo e o Carlos Alberto Sardenberg fala que o dia foi de “mau humor no mercado”, a gente imagina corretor de cara fechada e investidor amarrando uma gravata na outra para ver se serve como forca. Isso até acontece, mas o ecossistema das crises tem uma biodiversidade bem maior: uma parte considerável da fauna financeira é especializada em fazer dinheiro justamente nos momentos de baixa generalizada. Quanto maior o caos, mais o sorriso deles se abre.

Michael Lewis, um autor que já trabalhou em banco de investimento, sabe bem disso. E quando fez um livro sobre o maior apocalipse financeiro desta geração, o crash de 2008, decidiu contar a história justamente do ponto de vista de quem ganhou com a crise. Ele foi atrás de quem ficou bilionário com o colapso dos títulos imobiliários nos EUA. Achou uma dúzia desses investidores e contou a história deles em A Jogada do Século. O livro, de 2011, virou best seller, e o filme baseado nele (o A Grande Aposta) acabou indicado ao Oscar cinco anos depois.

No Brasil, o livro e o filme saíram com títulos diferentes. Lá fora, não rolou essa confusão. Tanto a obra em papel quanto a em película têm o mesmo nome: “The Big Short”.

O título original é uma referência justamente ao mecanismo financeiro que você deve usar quando quer ganhar na baixa: o “short sale”. “Venda a descoberto”, em português.

“Vender a descoberto” é o seguinte: eu tenho um milhão de ações da Petrobras e acredito que o preço delas vai subir. Você não tem ação nenhuma e tem certeza de que elas vão cair. Vamos dizer que cada ação da Petro esteja a R$ 5 hoje. Aí você vem e me faz uma proposta: “Alê, meu, vou te vender mais um milhão de ações da Petro. Mas você é meu brother. Então te vendo por R$ 4. Beleza?”. “Uhú!”, eu digo.

E você só me pede uma única: que essa venda aconteça daqui a três meses. Como eu acredito que as ações vão ter subido lá na frente, fecho o acordo de olho fechado. Te pago uma cerveja até, pô. Vou comprar por R$ 4 uma coisa que já vai estar valendo uns R$ 10. Negocião.

O tempo passa e o que acontece? Putz. A ação da Petrobras derreteu. Está valendo R$ 1. E eu fiz a besteira de assinar com você um contrato me comprometendo a comprar um milhão delas a R$ 4. Tenho que cumprir, se não vou para a cadeia.

Não se esqueça: você não tinha nenhuma ação quando me propôs a venda. O que você faz, então? Pega dinheiro emprestado no banco e compra um milhão de ações a R$ 1. Então me vende imediatamente a R$ 4, e sai da operação R$ 3 milhões mais rico. Você acabou de lucrar com uma “venda a descoberto”. Você me vendeu algo que não tinha, por um preço que eu mesmo achava vantajoso.

Parece ficção, mas isso acontece todos os dias no mercado financeiro. O colapso das empresas do Eike Batista, por exemplo, transformou muito investidor pequeno em milionário. As quedas recentes da Petrobras e da Vale também. Lá atrás, na crise de 2008, alguns especuladores de sangue frio fizeram exatamente esse movimento. Não com ações, mas com títulos hipotecários. Não importa: dá exatamente na mesma. E é o que Michel Lewis conta em The Big Short, um livro que, ironicamente, nasceu como uma aposta editorial arriscada, dada a aridez do tema. Mas que acabou se mostrando um belo investimento para o próprio Michael Lewis. Sem crise.

 

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Este texto foi publicado originalmente na Ilustrada.