Crash Crash

Por Atualizado em 20/09/2016

iStock | malerapaso
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Existe um momento da história da humanidade que ajuda a explicar o fenômeno recente da proliferação de mentiras – mentiras do tipo “Lulinha é dono da Friboi”, ou “PF descobre que o triplex não era do Lula”.

O momento da história que ajuda a explicar isso é o seguinte: a virada do videocassete para o DVD. Quando todo mundo tinha videocassete, todo mundo gravava tudo: abertura de Olimpíada, corrida do Senna, capítulo de sábado da novela. Aí veio o DVD e extinguiu o videocassete. Só que os DVDs não gravavam – e os aparelhinhos de TV a cabo ainda não sabiam fazer isso. Resultado: o hábito de gravar desapareceu de uma hora para a outra – muito, muito antes de a internet torná-lo desnecessário.

É o que está acontecendo hoje com algo bem mais importante que o hábito de gravar novela. A coisa em franca extinção neste momento é outra: a qualidade da informação que a gente consome. Qualquer pesquisa, em qualquer país, tende a mostrar que algo em torno de 70% das pessoas usam o feed do Facebook como fonte principal, ou única, de informação (os outros 30% dizem usar outras fontes, mas acho que estão mentido – seja para os pesquisadores, seja para eles mesmos).

O FB está substituindo os meios profissionais de informação. E isso está acontecendo muito, muito antes de que surja algo para tornar esses meios desnecessários. Nessa realidade, basta que uma mentira nos soe agradável para ganhar status de verdade.

Quando o ministro da Educação do Temer cometeu a gafe de aceitar uma reunião com Alexandre Frota no primeiro dia de gabinete, por exemplo, vi gente me perguntando se “era verdade que o Alexandre Frota tinha virado ministro”. Esse é um caso que atravessa a fronteira do absurdo – então beleza, entra para a conta de mentiras inocentes. Nem tão inocente foi a da semana passada, quando viralizou que a PGR tinha dito “não ter provas, mas ter convicção” de que Lula tinha se beneficiado com dinheiro vindo da Petrobras. Após algum escrutínio, viu-se que a frase era uma farsa. Mas era uma farsa tão redonda que segue com status de verdade – adotada pelo próprio Lula em seu discurso. E hoje o simples ato de reafirmar que, não, a frase nunca foi falada pela PGR, virou atestado de que você só pode ser um golpista de merda. Por outro lado, se você lembra que, ei, a família Lula não se converteu em dona da Oi e da Friboi, já ganha o carimbo de esquerdopata – e a mentira segue crescendo e se multiplicando entre os que se sentem refestelados ao ouvi-la.

Quem discorda de nós a gente bloqueia, inclusive. Nisso, transformamos continuamente o nosso feed em espelho das nossas próprias convicções. E se toda a informação que recebemos só serve para isso, o fato é que não estamos nos informando mais. Ao ouvirmos só o que queremos ouvir, sem nem dar mais importância para a veracidade das coisas, estamos só alimentando nossa animosidade. Não existe caminho mais curto para a barbárie.

Por Atualizado em 15/09/2016

FGTS-um-imposto-safado

Uma parte do seu FGTS paga os sapatos Louboutin de R$ 10 mil da dona Claudia Cunha, mulher do Eduardo, numa operação que transfere compulsoriamente um naco da renda de quem trabalha 8 horas por dia com uma hora de almoço diretamente para os bolsos de Christian Loubutin, o estilista multimilionário que assina o design dos calçados franceses de couro de cobra.

Funciona assim: o dinheiro do seu fundo de garantia alimenta um banco estatal, o Fundo de Investimentos do FGTS. Esse banco transfere o nosso dinheiro para empresas amigas do poder – seja concedendo empréstimos a juros baixíssimos, seja dando algumas centenas de milhões de reais aos donos das empresas em troca de uma participação societária.

Ou seja: o FI-FGTS é uma mãe. E quem até há pouco tempo decidia quem seriam os filhos dessa mãe era outra cobra, menos bem apessoada que as do sr. Loubutin: Eduardo Cunha. Aparentemente, com um único critério: levava a grana quem lhe pagasse mais.

Quem diz é o ex-vice presidente da Caixa, Fábio Cleto. Numa delação premiada em junho ele soltou que Cunha recebeu suborno em pelo menos 12 operações dessas. Numa delas, o FI-FGTS usou o nosso dinheiro para ficar sócio de uma transportadora de contêneres filiada à América Latina Logística (ALL). A doação em troca de participação foi de R$ 400 milhões. Como agradecimento, a ALL deu R$ 2 milhões para Cunha – mais um pixuleco de R$ 80 mil para o próprio Fábio Cleto, agora convertido em delator.

Outra dessas operações maternais envolveu um empréstimo para a Eldorado Brasil, empresa do mesmo grupo que controla a Friboi. Foram R$ 940 milhões para a Eldorado, que repassou de bom grado 1% para Cunha. Mais um milhãozinho de reais para o trust suíço do doutor Eduardo. Note que alguns centavos desse milhão eram seus, leitor, já que saíram do seu Fundo de Garantia.

“Ah, mas o meu dinheiro está protegido”, diria o leitor mais otimista. Não. Não está. O FGTS te rouba por lei, ao pagar só 3% ao ano de juros equanto o preço do dinheiro no Brasil gira em torno de 14% ao ano. É nessa diferença de juros que você acaba pagando as aulas de tênis da dona Claudia em Miami e mais centenas de pares de Loubutins para as famílias dos empresários beneficiados.

Se continuarmos nessa toada, que não vai terminar nem com a eventual prisão de Cunha, a melhor forma de você ver o dinheiro do seu FGTS será sair do país e virar limpador de piscina na mansão do Sr. Christian Loubutin.

Porque FGTS não é direito. FGTS é imposto. Um imposto que transfere renda da base da pirâmide para o topo – precisamente o contrário do que um imposto deveria fazer.

Por Atualizado em

REUTERS| Ricardo Moraes | File Photo
REUTERS| Ricardo Moraes | File Photo

Num julgamento, a verdade não tem importância. Você precisa de uma história que funcione – seja ela real ou inventada. Se você é inocente e não tem uma história boa para selar essa inocência, acabou: o júri vai achar que você é culpado. Se você é culpado e tem uma história bacana, estará livre.

Isso é a lógica da Justiça. Uma lógica deturpada, mas é a única que temos.

Vamos ao caso Lula agora. Os fatos: Lula não é o proprietário formal do sítio em Atibaia. Não há escritura em nome dele. Mas, segundo um dos proprietários formais, tudo o que tem dentro do sítio pertence a Lula. Esse dono formal chama a propriedade de “sítio da dona Marisa”. Sítio que foi severamente reformado pela OAS, de Leo Pinheiro, de quem Lula é amigo.

Aí tem o triplex. O apartamento foi quitado e reformado pela mesma OAS para a família Lula, sempre sob a supervisão do ex-presidente e de dona Marisa, filmados, fotografados e testemunhados no edifício diversas vezes (de resto, se o elevador e a cozinha de R$ 350 mil não eram para eles, para quem era? Ninguém reivindicou a posse desses bens).

De qualquer forma, Leo Pinheiro já confessou: as reformas em Atibaia e no Guarujá foram dois favores da OAS em troca do trabalho de Lula como lobista da empresa no exterior. Não há crime em ser lobista de empreiteira – Lula era um cidadão livre, podia trabalhar para quem quisesse, ainda mais no exterior, onde ele não pode usar seu poder político, só sua influência como celebridade internacional.

O problema é que a OAS tinha contratos superfaturados com a Petrobras. Era uma empresa criminosa. Para todo os efeitos, trabalhar como lobista para ela fora do país equivalia a cuidar de uma rede de postos de gasolina cujo dono é Marcola, o chefe do PCC. Não é crime gerenciar posto de gasolina. É um negócio lícito. Mas se a rede de postos for do PCC, é fria.

Tanto era fria que Lula sempre cuidou de não ter uma escritura do sítio de Atibaia em seu nome, e negou qualquer ligação com o triplex quando a história veio a público.

Não era a melhor história. A desculpa ideal veio em outro momento, num quase ato falho do ex-presidente. Ele disse algo como: “Essas empresas (OAS, Odebrecht) têm milhares de funcionários, faturam bilhões. E todo mundo acha que é tudo dinheiro da Petrobras. Não faz sentido”.

De fato. Não é “tudo dinheiro da Petrobras”. Essas empresas ganham bilhões de forma lícita, e podem usar o dinheiro como bem entendem, inclusive pagando pelos serviços de Lula como lobista. Se ele simplesmente dissesse que o sítio e o triplex foram pagamento por serviços de lobby prestados na América Central e na África, seria uma boa história. E mais: seria até verdade – quanto à Petrobras, lhe restaria seguir dizendo que não sabia de nada, que foi um governante ingênuo, alienado da maldade reinante ao seu redor. Não há ser humano imune à simpatia de Lula. Uma história assim, temperada com o humor e a inteligência do ex-presidente, poderia dar certo. Teria chance de inocentá-lo, inclusive, por falta de provas cabais – tanto de enriquecimento ilícito como de ciência de que, sim, a Petrobras financiava metade da política brasileira via contratos superfaturados.

Mas Lula não soube fazer isso. Ao praticamente negar qualquer relação com os imóveis de Atibaia e do Guarujá, ele os converteu em provas – em evidências de que, sim, ele sabia de tudo. E de que obteve seu naco de lucro pessoal com esse tudo. Lula matou a história que poderia mantê-lo a salvo. Pelo menos tão a salvo quanto Aécio, Serra, Temer, Renan – todos sujeitos cuja presunção de inocência também não resistiria a cinco minutos de confronto com a verdade. Mas é aquela história: a verdade, infelizmente, não conta. O que vale é o caô, coisa que todos esses caras têm de sobra. Lula, para o mal das tantas coisas magníficas que ele já representou, não tem mais o dele.

Como já comentaram mais de uma vez: Lula poderia ter virado presidente da ONU, poderia ser a grande figura da filantropia internacional, ajudando a destinar dezenas de bilhões de dólares em doações e investimentos. Poderia, com seu jogo de cintura, seu magnetismo irresistível, ajudar a redistribuir riqueza e erradicar miséria em meio mundo. E talvez estivesse agora num triplex com vista para o Central Park, tomando uma cachacinha com um Nobel da Paz no colo. Tudo isso com seus pecados pessoais e políticos enterrados no mesmo túmulo onde estão os pecados de Kennedy, Mandela, Gorbachev…

Mas não. Foi virar lobista de empreiteira. Deu nisso.

Por Atualizado em 06/09/2016

REUTERS | Paulo Whitaker
REUTERS | Paulo Whitaker

Alckmin avisou que abuso policial em São Paulo é que nem gay no Irã: não existe. Para o governador, rigorosamente todos os atos da polícia estão de acordo com a Lei – incluindo aí lançar gás lacrimogênio em bar e mandar adolescente desarmado pro Deic (tudo extensivamente documentado).

Claro que Alckmin não pode sair desautorizando a polícia, já que os atos de vandalismo não são ficção, e sem firmeza não há como coibir isso.

Só tem um problema: ao fechar os olhos para os abusos, Alckmin cria o que os acadêmicos chamam de “armadilha hobbesiana”.

Armadilha hobbesiana é uma situação que leva a “ataques preventivos”. Exemplo: dois países rivais vão se armando cada vez mais, para se defender de um possível ataque do outro. Esse círculo vicioso eventualmente leva um dos lados a atacar sem ser provocado. A retaliação vem, e os dois países se destroem mutuamente, por puro medo um do outro. Pronto: caíram na armadilha.

Em São Paulo está acontecendo basicamente a mesma coisa. Vamos chamar de “armadilha paulistana”. De um lado, a polícia é estimulada a enxergar qualquer protestante como delinquente. Às vezes, a tratar como tal qualquer pessoa que esteja na rua na hora de um protesto.

Nisso, a polícia tende a atacar quase que indiscriminadamente qualquer sujeito que não esteja usando uma farda – seja esse sujeito um delinquente prestes a tacar um paralelepípedo na porta de vidro de um banco, seja um pai com criança no colo, seja um estudante desavisado saindo da biblioteca.

Então vem o outro lado: as pessoas passam a interpretar, de antemão, que mais hora menos hora a polícia será hostil contra elas. E soltam seu “ataque preventivo”, nem que seja só na forma de gritos de guerra, como vimos nos protestos. Esses “ataques”, ainda que leves, acabam estimulando mais retaliações desmedidas da polícia, retroalimentado a espiral da violência.

O centro dessa espiral é um buraco negro chamado “barbárie” – e acontece quando pessoas comuns passam a achar que a delinquência vale a pena, já que elas vão apanhar de qualquer jeito. Do outro lado, acontece quando a PM acha por bem reprimir geral, já que todo mundo vai acabar cometendo alguma delinquência mesmo. Barbárie.

Ao fechar os olhos para a violência, e, consequentemente, para esse círculo vicioso, Alckmin guia estudantes, trabalhadores e policiais em direção à barbárie. Desnecessário dizer que isso é o oposto diametral do que se espera de um governo.

Por Atualizado em 01/09/2016

Se tudo der certo, essa aí vai ficar encostada por um bom tempo

A gente passou tanto tempo falando das pedaladas que o assunto mais importante ficou de lado: o ajuste fiscal – os cortes de gastos do Estado, que o próprio governo Dilma vinha tentando implementar desde 2015.

Dilma começou o trabalho sujo, chamando Joaquim Levy para a fazenda. As primeiras propostas de ajuste não passaram pelo Congresso, rechaçadas pela oposição e pela situação com a mesma veemência economicamente analfabeta. Dilma não ajudou em nada: delegou ao politicamente inepto Levy a tarefa de ir ao Congresso defender, com voz sua desafinada e claudicante, a porra do ajuste.

Levy não aguentou o tranco. Pediu pra sair. E Dilma jogou a toalha: chamou o inoperante e ultrapassado Nelson Barbosa para a Fazenda – numa amostra de que não havia ninguém menos pior disposto a segurar o rojão.

Veio a primeira fase do impeachment, Temer assumiu interinamente, e surpresa: Henrique Meirelles, o maior nome da economia do governo Lula, assumiu a Fazenda. Meirelles aceitou a bronca porque tem ambições para 2018 (igual Fernando Henrique, Ministro da Fazenda de Itamar, tinha para 1994). Meirelles sabia que o ajuste fiscal era necessário. E que arrochos assim são impopulares por natureza, já que significam mais demissões no serviço público e mais cortes em programas sociais. Mas o peso político da coisa toda cairia sobre Temer, então tudo certo: a pista ficaria livre para ele se candidatar em 2018.

Mas parece que falta combinar com Temer. Ainda interino, Michel aumentou um gasto social, aumentando o Bolsa Família em 12,5%, contra os 9% que Dilma tinha proposto, e elevou o teto salarial do funcionalismo público em 16,4% – sendo que esse teto já tinha subido 14,6% em 2015 – numa manobra que abre as comportas para um efeito cascata nos gastos de todas as esferas públicas, sangrando coisa de R$ 4 bilhões por ano só com o regime de engorda salarial do andar de cima, os primeiros a receber a benesse integralmente. Meirelles ficou quieto.

Mas agora, efetivado para valer na Fazenda, não deve mais deixar barato as pavonices do presidente-estepe. Se Temer seguir com medidas populistas e oportunistas, Meirelles vai jogar a toalha. O ajuste fiscal voltará à estaca zero, e a economia vai continuar no mesmo atoleiro. Que a partir de hoje, então, termine a era Temer. E comece a nova gestão de fato: o governo Meirelles.