A Juscelino desemboca na Marginal num complexo sinistro de avenidas e túneis. São mais pistas que o aeroporto de Heathrow, separadas por muretas de um metro e meio. Bem ali, fica o shopping mais Dubai da cidade: o JK Iguatemi, um mastodonte branco tão imponente que intimida quem passa a pé na rua.
Mas isso não é problema: ninguém ali passa a pé na rua. Um ET que pousassse lá concluiria que a forma de vida mais comum na Terra é a Range Rover Evoque.
Foi desse pedaço da cidade que eu guardei a minha melhor memória dos protestos de ontem.
A Juscelino estava tomada. Ela e a Faria Lima, a Brigadeiro, a Paulista, a Berrini, a Ponte Estaiada. Todas ao mesmo tempo, pelo que a gente via no Instagram. Nota: os números oficiais falam em menos de 100 mil pessoas na rua. Bom, se o ano-novo na Paulista junta 2 milhões, e só toma uma dessas avenidas, um dos dois cálculos está errado. Mas dane-se.
O ponto é que, uma hora, a gente tinha que pular as muretas da Juscelino, para seguir à direita, em direção à Ponte Estaiada. E daí vem a minha melhor memória: todo mundo se ajudando a pular as placas de concreto. Eu não juntava as mãos para servir de apoio para o pé de alguém desde que era pequeno. Fiz isso para uma menina de 15 anos. E fizeram pra mim também. Numa mureta, uns punks ajudaram. Na outra, um cara de camisa listrada e calça social. Um pouco antes, tínhamos aplaudido a sinfonia que um grupo de motoboys tocou com os aceleradores deles. Uma sinfonia de duas notas, com os motores zunindo em ritmo de grito de guerra. Não era o supra-sumo da afinação, mas naquela hora soou límpido como a voz do David Bowie. Era tanta gente diferente misturada que a minha contabilidade pessoal do número de manifestantes não registrou nem 100 mil pessoas nem 4 milhões. Minha conclusão é que foi “todo mundo”. TODO mundo. Até a deusa morena de vestido branco que ondulava um lençol igualmente branco da sacada de um prédio de 20 mil reais o metro quadrado, achando que a passeata passeava para ela – no que ela tinha toda a razão, pelo menos naquele momento.
Bom, aí eu e basicamente todo mundo tocamos até a Ponte Estaiada. Ninguém estava guiando ninguém: era um caminho natural. A ponte é a Torre Eiffel de São Paulo. Pra mim e pros meus amigos lá seria a Praça da Apoteose da nossa passeata – tínhamos que chegar pelo menos até lá.
E o que a gente queria era ver a ponte com gente em cima dela. Gente a pé – algo tão fisicamente improvável quanto a abertura do Mar Vermelho… Mas aquela era uma noite diferente. Uma noite em que mares abriam – a começar pelo Mar Cinza da cidade.
O ápice, aliás, foi ver isso refletido nos prédios, com os vidros do centro financeiro servindo como a tela de iMax de uma superprodução em que os figurantes eram os protagonistas. Cecil B. DeMille assinaria embaixo:
Foi a noite mais bonita da história de São Paulo.
Mas os analistas de sempre concluíram que o “movimento perdeu o foco”, que ninguém sabia contra o que estava protestando. Ok. Mas ei: e daí? Como o meu amigo Maurício Horta notou ontem: ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Mas estava acontecendo. E estávamos todos juntos nessa – motoboys, bancários, playboys, engenheiros de produção, vovós, biólogos marinhos, a deusa do vestido branco. É isso que importa.
Para entender melhor o que está acontecendo na rua, imagine que você é o presidente de um um país fictício. Aí você acorda um dia e resolve construir um estádio. Uma “arena”.
O dinheiro que o seu país fictício tem na mão não dá conta da obra. Mas tudo bem. Você é o rei aqui. É só mandar imprimir uns 600 milhões de dinheiros que a arena sai.
Esses dinheiros vão para bancar os blocos de concreto e o salário dos pedreiros. Eles recebem o dinheiro novo e começam a construção. Mas também começam a gastar a grana que estão recebendo. E isso é bom: se os caras vão comprar vinho, a demanda pela bebida aumenta e os vinicultores do seu país ganham uma motivação para produzir mais bebida. Com eles plantando mais e fazendo mais vinho o PIB da sua nação fictícia cresce. Imprimir dinheiro para construir estádio às vezes pode ser uma boa mesmo.
Mas e se houver mais dinheiro no mercado do que a capacidade de os vinicultores produzirem mais vinho? Eles vão leiloar as garrafas. Não num leilão propriamente dito, mas aumentando o preço. O valor de uma garrafa de vinho não é o que ela custou para ser produzida, mas o máximo que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. E se muita gente estiver com muito dinheiro na mão, essa disposição para gastar mais vai existir.
Agora que o preço do vinho aumentou e os vinicultores estão ganhando o dobro, o que acontece? Vamos dizer que um desses vinicultores resolve aproveitar o momento bom nos negócios e vai construir uma casa nova, lindona. E sai para comprar o material de construção.
Só tem uma coisa. Não foi só o vinicultor que ganhou mais dinheiro no seu país fictício. Foi todo mundo envolvido na construção do estádio e todo mundo que vendeu coisas para eles. Tem bastante gente na jogada com os bolsos mais cheios. E algumas dessas pessoas podem ter a idéia de ampliar as casas delas também. Natural.
Então as empresas de material de construção vão receber mais pedidos do que podem dar conta. Com vários clientes novos e sem ter como aumentar a produção do dia para a noite, o cara do material de construção vai fazer o que? Vai botar o preço lá em cima, porque não é besta.
Mas espera um pouco. Você não tinha mandado imprimir 600 milhões de dinheiros para fazer um estádio? Mas e agora, que ainda não fizeram nem metade das arquibancadas e o material de construção já ficou mais caro? Lembre-se que o concreto subiu justamente por causa do dinheiro novo que você mandou fazer.
Mas, caramba, você tem que terminar a arena. A Copa das Confederações Fictícias está logo ali… Então você dá a ordem: “Manda imprimir mais 1 bilhão e termina logo essa joça”. Nisso, os fabricantes de material e os funcionários deles saem para comprar vinho… E a remarcação de preços começa de novo. Para quem vende o material de construção, tudo continua basicamente na mesma. O vinho ficou mais caro, mas eles estão recebendo mais dinheiro direto da sua mão.
Mas para outros habitantes do seu país fictício a situação complicou. É o caso dos operários que estão levantado o estádio. O salário deles continua na mesma, mas agora eles têm de trabalhar mais horas para comprar a mesma quantidade de vinho.
O que você fez, na prática, foi roubar os peões. Ao imprimir mais moeda, você diminuiu o poder de compra dos caras. Inflação é um jeito de o governo bater as carteiras dos governados.
Foi mais ou menos o que aconteceu no mundo real. Primeiro, deixaram as impressoras de dinheiro ligadas no máximo. Só para dar uma ideia: em junho de 2010, havia R$ 124 bilhões em cédulas girando no país. Agora, são R$ 171 bilhões. Quase 40% a mais. Essa torrente de dinheiro teve vários destinatários. Um deles foram os deputados, que aumentaram o próprio salário de R$ 16.500 para de R$ 26.700 em 2010, criando um efeito cascata que estufou os contracheques de TODOS os políticos do país, já que o salário dos deputados federais baliza os dos estaduais e dos vereadores. Parece banal. E até é. Menos irrelevante, porém, foi outro recebedor dos reais novos que não paravam de sair das impressoras: o BNDES, que irrigou nossa economia com R$ 600 bilhões nos últimos 4 anos. Parte desse dinheiro se transformou em bônus de executivo. Os executivos saíram para comprar vinho… Inflação. Em palavras mais precisas, o poder de compra da maioria começou a diminuir. Foi como se algumas notas tivessem se desmaterializado das carteiras deles.
Algumas dessas carteiras, na verdade, sempre acabam mais ou menos protegidas. Quem pode mais tem mais acesso a aplicações que seguram melhor a bronca da inflação (fundos com taxas de administração baixas, CDBs que dão 100% do CDI…, depois falamos mais sobre isso). O ponto é que o pessoal dos andares de baixo é quem perde mais.
Isso deixa claro qual é o grande mal da inflação: ela aumenta a desigualdade. Não tem jeito. E esse tipo de cenário sempre foi o mais propício para revoltas. Revoltas que começam com aquela gota a mais que faz o barril transbordar. Os centavos a mais no ônibus foram essa gota.
A gota, projetada no prédio, na manifestação desta segunda.
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É. Vive mais, sim. E isso vale para qualquer cidade do Hemisfério Sul. Motivo: a Terra gira a velocidades diferentes. Quanto mais perto da Linha do Equador, mais quilômetros por hora. Natural, já que o planeta é mais gordo no meio, e vai emagrecendo conforme você caminha até os polos.
O diâmetro da circunferência diminui paulatinamente, mas o tempo que cada pedaço leva para dar uma volta completa é o mesmo: 23 horas e 56 minutos.
Bom, como o tempo é o mesmo e a distância varia, cada latitude da Terra gira numa velocidade particular. E a mais veloz é a latitude zero, o ponto em que o planeta é mais obeso. Se você mora na Avenida Equatorial, em Macapá, bem em cima da Linha do Equador, já pode se considerar um Ayrton Senna rotacional: você vive a 1.669 km/h.
E se você, macapaense, tirar férias na Patagônia, vai dar uma senhora freada. Os argentinos lá de baixo vivem quase 700 km/h mais devagar: são só 978 km/h.
Mesmo quando as distâncias são curtas, a diferença na velocidade continua bem mensurável. Tipo: um paulistano que more na Avenida Braz Leme, na zona norte, está neste momento a 1.536,1 km/h. Um de Interlagos, na sul, vive a 1.535,7 km/h. No Leblon, o mundo gira a 1546,4 km/h; em Duque de Caxias, mais ao norte, a 1546,6 km/h.
E quem mora em Duque de Caxias vive mais. Quem diz isso não sou eu, mas o protagonista do último post, nosso amigo Einstein. Quanto maior for a sua velocidade em relação aos outros, mais devagar você envelhece. Então pronto: quem mora na zona norte de qualquer cidade vive algumas frações de segundo a mais do que quem mora na zona sul. É uma lei da física.
E se você quiser saber a velocidade em que está agora, é só usar esta inédita (e terrivelmente inútil) tabela com as velocidades de todas as capitais do Brasil!
Vai aqui, da mais lenta para a mais lépida:
Porto Alegre: 1446 km/h
Florianópolis: 1486 km/h
Curitiba: 1512 km/h
São Paulo: 1535 km/h
Rio: 1546 km/h
Vitória: 1567 km/h
Belo Horizonte: 1577 km/h
Goiânia: 1604 km/h
Campo Grande: 1604 km/h
Brasília: 1611 km/h
Cuiabá: 1611 km/h
Salvador: 1631 km/h
Aracaju: 1643 km/h
Palmas: 1643 km/h
Rio Branco: 1648 km/h
Maceió: 1648 km/h
Recife: 1652 km/h
Porto Velho: 1652 km/h
João Pessoa: 1657 km/h
Natal: 1662 km/h
Teresina: 1663 km/h
Manaus: 1667 km/h
Fortaleza: 1667 km/h
Boa Vista: 1667 km/h
São Luís: 1667 km/h
Belém: 1668 km/h
Macapá: 1669 km/h
Passou de Macapá, a coisa fica de ponta-cabeça, lógico: quanto mais ao norte você for, menor vai ser a velocidade. Então Boa Vista, que fica no Hemisfério Norte, tem a mesma velocidade de Fortaleza. E o glorioso Oiapoque gira mais devagar que Macapá.
E é na ZN do mundo, aliás, que fica a cidade mais lenta de todas: Longyearbyen, na Noruega. Ela gira a 346 km/h – um quinto da velocidade SP… Que vergonha, Noruega.
Um adendo: a velocidade de rotação da Terra não é a única que move o seu corpo neste momento. Tem a velocidade com que o planeta faz suas elipses em volta do Sol. E é muita velocidade: 108 mil km/h. Isso mais os mil e tantos da sua cidade e já temos quase 110 mil km/h.
Mas o Sol não está parado, lógico. E carrega o Sistema Solar com ele enquanto gira pela Via Láctea. A 800 mil km/h. Resultado: você está se movendo pela galáxia a 910 mil km/h. Mil vezes mais rápido que um Boeing, basicamente.
E sim, a Via Láctea também corre, levando o Sol, a Terra e você Universo afora. E corre na direção de um aglomerado de galáxias, atraída pela gravidade da coisa, a precisamente 2,16 milhões de km/h.
Pronto: somando tudo, dá para dizer que estamos todos correndo pelo espaço a 3,07 milhões de km/h. Seja você da zona norte ou da sul.
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Crédito da foto do Center Norte: Delma Paz, São Paulo, Creative Commons
Crédito da foto de Longyearbyen: Mateusz War, Creative Commons
Crédito da foto “globo-correndo-em-cima-da-mesa-de-acrílico-da-redação”, futura ganhadora do Pulitzer: Eu, com uma mão da Cristine Kist.
Resolvi aproveitar o feriado para falar aqui do assunto mais legal entre todos os assuntos: viagem no tempo. Afinal, “a distinção entre passado, presente e futuro é só uma ilusão, ainda que persistente”, como Einstein escreveu em 1955.
Mas por que ilusão? Poucas coisas são mais concretas que a passagem do tempo. A gente nasce sabendo que as horas passam no mesmo ritmo pra mim e pra você, que corremos para o futuro juntos… Só que não.
Einstein descobriu que a gente viaja pelo tempo toda hora. Seu próprio corpo é uma máquina do tempo. É como se o tempo fosse não a coisa etérea que ele parece ser, mas algo concreto. Um lugar. Uma dimensão por onde a gente caminha, sem parar. Enquanto você está parado, lendo isto aqui, os segundos continuam passando, certo? Então é como se você cruzasse essa dimensão, a do tempo, agora mesmo, num trem invisível. Até aí, nada demais.
Agora é que vem a sacada: Einstein estipulou que esse trem anda a uma velocidade que, para facilitar as contas, dá para medir em “quilômetros por hora”: exatamente 1,08 bilhão de km/h – a velocidade da luz (ou 300 mil km/s, se você prefere uma notação mais científica).
Bom, Einstein descobriu também que tempo e espaço são basicamente a mesma coisa. O casamento dos dois forma uma paisagem invisível: a do espaço-tempo. Então agora mesmo você pode dizer que está correndo à velocidade da luz pelo espaço-tempo. Mas só através da dimensão do tempo – e a 1,08 bilhão de km/h.
Só que aí vem um problema. Einstein também concluiu que nada pode atravessar o espaço-tempo mais rápido que a luz. Então, se você já corre a 1,08 bilhão de km/h na “metade tempo” dessa paisagem, não tem de onde tirar velocidade para a “metade espaço”.
Mas espera aí. E se você levanta pra pegar um copo d`água? Vai precisar de uns 5 km/h na “metade espaço” para andar até a cozinha. É um fato. Essa velocidade tem de sair de algum lugar… Mas de onde? Da única fonte disponível: dos motores que empurram o tempo.
Então você tira 5 km/h de lá pra andar até a cozinha. E a velocidade com que você atravessa o espaço-tempo fica redistribuída: 5 km/h vão para a dimensão de espaço e 1,07999… bilhão de km/h para a do tempo.
A velocidade do tempo, no fim das contas, funciona como um banco. Ela empresta quilômetros por hora para tudo o que se move. Mas essa agiotagem tem preço: faz seu relógio perder velocidade. O tempo começa a passar mais devagar para você.
Recapitulando, e andando: sentado no sofá, você atravessa o tempo a 1,08 bilhão de km/h, já que seu trem está correndo a todo vapor, certo? Isso significa que 30 segundos vão passar em 30 segundos mesmo, sem mistério. Mas aí você arruma um DeLorean e vai para a estrada.
Infelizmente o DeLorean desse exemplo é um convencional mesmo. Não tem o “capacitor de fluxo” que permite as viagens no tempo. A única coisa que ele faz é acelerar mesmo. Mas ok. Você pisa fundo e chega a 180 km/h. Para Einstein, isso quer dizer que você pegou 180 km/h emprestados lá do banco do tempo. Então seu relógio fica mais lento: um período que durava 30 segundos cravados quando você estava imóvel vai ter passado em precisamente 29,99999999999952 segundos – o cálculo não é meu, e sim do Brian Greene, um físico da Universidade Columbia e exímio divulgador de ciência.
Mas então. Enquanto a DeLorean acelera você, ela freia o seu relógio. Mas só o seu. Do lado de fora do carro a velocidade do tempo continua igual. E o resultado é insólito: depois de uma hora com o pé embaixo no carro você vai ter envelhecido 0,0000000576 milésimo de segundo menos do que tudo o que está lá fora. Seu “relógio biológico” também andou mais devagar. Tudo envelheceu um pouco mais rápido que você. As pessoas, as pedras, o Sol, a galáxia de Andrômeda… Tudo. E em que “lugar” tudo é mais velho do que hoje? No futuro.
Depois de uma hora a 180 km/h, você viaja 0,0000000576 milésimo de segundo para o futuro.
Tanta falação pra chegar nisso? Pois é. O problema é que as velocidades que a gente vive no dia-a-dia são pequenas demais. Não dá para perceber esse efeito minúsculo delas sobre a passagem do tempo. Nem astronautas que já experimentaram velocidades de 40 000 km/h conseguiram fazer um rombo marcante no relógio deles. O crédito de 1,08 bilhão de km/h é generoso.
Mas quando a velocidade aumenta muito, o empréstimo começa a fazer diferença no caixa. Se o DeLorean andasse a 1,07 bilhão de km/h, o seu “banco do tempo” entraria à beira da falência. Você rastejaria pela dimensão do tempo a “0,01 bilhão de km/h”. Do lado de fora do carro, o tempo estaria passando na velocidade de sempre (1,08 bilhão de km/h). Ou seja: você seria humilhantemente ultrapassado pelo tempo ao seu redor. Em outras palavras, viajaria para o futuro. Não milésimos de segundo. Mas milhões de anos.
E é isso. Viajar para o futuro deixou de ser uma impossibilidade teórica desde 1905, quando Einstein publicou a Teoria da Relatividade Especial. É uma questão de engenharia: precisamos construir alguma coisa capaz de acelerar a uma velocidade próxima o bastante de 1,08 bilhão de km/h, a maior velocidade possível neste Universo.
Ir para o passado é diferente. Isso continua sendo uma impossibilidade física. Mas só até que a gente construa a primeira coisa capaz de nos levar até o futuro, olha só. A explicação leva em conta a segunda parte da teoria de Einstein, a Relatividade Geral, de 1916. E o desafio de engenharia, aí, é incomensuravelmente maior. Só que bem mais interessante. Fica para o próximo post.
Quando você baixou a sua primeira música? Eu faz 13 anos, pelo Napster. Deixei Welcome to the Jungle baixando pela linha discada, a 2 kbps.
E foi mágico. Fui dormir com o download rodando e acordei com a minha música favorita ali, como se tivesse se materializado no ar. “Tô no futuro”, pensei. Estava mesmo: agora, que aquele futuro já é pretérito faz tempo, as músicas estão mais no ar ainda, nas nuvens do Grooveshark, do Spotify… Pra não falar nos torrents.
Depois começou outro futuro: o do download de coisas. Já faz tempo que falam em impressoras 3D . São máquinas que constróem objetos: você desenha, sei lá, uma peça de lego no computador, e a máquina monta a peça de lego usando um cartucho de plástico injetável como matéria prima. Lindo. Só tem um problema: não existe tanta demanda assim por coisas de plástico. Então as impressoras 3D nunca deslancharam. São inúteis para pessoas comuns.
Mas agora elas começaram a ficar especialmente úteis para pessoas nem tão comuns: as que gostariam de ter uma arma. Um engenheiro americano projetou um revólver de plástico, mas que atira balas de verdade. Calibre 38. E colocou o projeto na internet. Qualquer um com uma impressora 3D em casa pode baixar o revólver. E ele se materializa no ar.
Ou quase. O que a impressora faz é montar cada peça do revólver. E quem baixou vai encaixando tudo por conta própria. Anyway, não chega a ser um quebra-cabeça:
E o negócio funciona, como o vídeo aqui embaixo deixa claro. O revólver, diga-se, não é exatamente uma Magnum 44. Ele é fraco. Só aguenta dar um disparo: atirou, quebrou. Mas isso é o de menos. A distancia entre um tiro e nenhum tiro é infinita: o estrago que um único disparo pode causar é imensurável. Pior, cada arma custa só R$ 50 em matéria-prima. Já tem impressora 3D de R$ 3 mil, R$ 4 mil. E o arquivo do revolver foi distribuído de graça por uma empresa, a Defense Distributed. Foram mais de 100 mil downloads. Até os meus colegas da revista Info baixaram um (sem as peças internas; só a casca). Pesado.
O FBI não gostou da história, lógico, e mandou a Defense Distributed tirar o arquivo do ar. Tiraram. Mas não significa grande coisa: tiraram o Napster do ar também, há 12 anos. E não foi isso que acabou com o download de música, muito pelo contrário. Pois é. Estamos no futuro do novo. Só que este agora é sombrio. Welcome to the jungle.
Uma mulher demora nove meses para gerar um filho, certo? Certo. Aí você vai e engravida nove mulheres. O que acontece? Você produz uma criança em um mês, ué. Os números não mentem – ainda mais quando não entra na conta um inconveniente chamado “mundo real”.
O engraçado é que o mundo real acaba mesmo descartado de vez em quando. No mercado financeiro, de vez em sempre. E um dos casos mais estapafúrdios de cegueira para a realidade está acontecendo agora mesmo: é a ideia de que a bolsa virou um mico.
Começando pelo começo: o Ibovespa chegou ao pico já faz meia década. Foi precisamente no dia 20 de maio de 2008, quando marcou 73 mil pontos. Hoje o Índice patina nos 55, 56 mil pontos. Dá 23% de queda.
Pior: de lá para cá a inflação, pelo IGPM, foi de 27%. Opa: uma perda de 50% em valores reais. No mesmo espaço de tempo, a poupança rendeu 50%. Putz… Então quem tinha dinheiro na bolsa perdeu feio, certo? Não.
Olhar só para o Ibovespa significa ignorar o mundo real. O Índice mede a variação do preço das ações mais negociadas na bolsa. Quanto mais gente comprando e vendendo papéis de uma empresa, mais peso ela tem no Ibovespa. Se 10% de todo o dinheiro que flui na bolsa, então, for em ações da Vale (e geralmente é isso mesmo), a mineradora vai responder por 10% da variação do Ibovespa naquele dia. Quer dizer: se todas as ações da bolsa ficarem no zero e a Vale subir, vá lá, 5%, o William Waack vai dizer no final do dia que o “Ibovespa subiu 0,5%”, “puxado” pela alta da Vale.
Ok. E o que aconteceu no mundo real nos últimos 5 anos? Bom, a ação da Vale caiu de R$ 56 para R$ 31. Tombo de 44%. A da Petrobras despencou de R$ 51 para R$ 20. Menos 60%. Gerdau, -70%. Usiminas, -80%. O horror, o horror. Culpa da crise mundial, que derrubou os preços do aço e do minério de ferro – o petróleo nem caiu tanto assim, mas a Petrobras é um caso à parte. Só essas quatro empresas, das 68 que compõe o Ibovespa, respondem por 25% do Índice, já que milhões de ações delas trocam de mãos todos os dias – e o Índice reflete as ações mais negociadas. Elas puxaram o índice para baixo. E também é fato: quem tem ações dessas companhias desde 2008 entrou num mato sem cachorro.
Mas isso não significa que a bolsa inteira derreteu. Várias ações subiram violentamente nesses últimos 5 anos. E não são papéis de empresas desconhecidas. Longe disso. As ações de companhias ligadas ao consumo são o maior exemplo.
As da Ambev, por exemplo, subiram de R$ 17 para R$ 86 desde 2008. Uma alta de 405%. E estamos falando de uma ação óbvia, que consta de qualquer portfólio com o mínimo de vergonha na cara. As do Pão de Açúcar, que não é exatamente uma start up do varejo, subiram 361%. Até algumas empresas que dependem de demanda estrangeira se deram bem de lá para cá. Caso da Embraer, que subiu 216%.
Ninguém precisa de um guru do mercado ou de informação privilegiada para saber que as ações da maior fábrica de cerveja, da maior rede de supermercados e da terceira maior fabricante de aviões do mundo poderiam, quem sabe, ser alternativas bacanas de investimento. Com ou sem crise internacional. Daí o “feio, pobre, burro e sem carro” do título. A real é que qualquer um poderia ter escolhido essas ações em 2008 e segurado elas até hoje. E muita gente fez exatamente isso.
Um portfólio dividido igualmente entre ações da Ambev, do Pão de Açúcar e da Embraer é uma cesta até conservadora. Uma carteira bem mais para quem quer segurança do que para quem tenta ganhos rápidos – são empresas sólidas, mas já grandes demais para ter muito para onde crescer. Elas eram assim em 2008. E a realidade não mudou de lá para cá. Mesmo assim, quem colocou, digamos, R$ 10 mil num portfólio com ⅓ Ambev, ⅓ Pão de Açúcar e ⅓ Embraer há cinco anos está com R$ 42 mil reais hoje. Dá 327% de lucro. Diante desse tipo de dado, dizer que a bolsa inteira foi o pior investimento dos últimos anos é mais do que miopia: é incapacidade de considerar o mundo real como parte de uma equação. Em outras palavras, é não saber do que está falando.
Moral do episódio de hoje, Gorpo: cuidado com os índices. Eles são só um reflexo imperfeito da realidade.
E cuidado com os gerentes de banco também. Algum deles pode te dizer, baseado nos números crus do Ibovespa, que a bolsa está “num bom momento de compra” – a hora em que as ações estão subvalorizadas, com mais potencial para subir. Mas o que está “num bom momento de compra”, em tese, são as ações ligadas a commodities, as que tombaram desde 2008 levando o Ibovespa junto. E talvez não seja um “momento bom de compra” nem assim. Os buracos no mercado financeiro teimam em ser mais abaixo do que o aparentemente razoável – que o diga Eike Batista, responsável por 6% do Ibovespa, com a OGX (-85%), a MMX (-88%) e a LLX (-38%).
Na outra ponta dessa história estão as ações que subiram, 200%, 300%, 400%. Essa ponta pode ser até mais traiçoeira que a outra. Ninguém com o mínimo de massa cinzenta entre as orelhas diria que elas são a oportunidade de compra do século, que estão agudamente desvalorizadas. Não estão. Talvez esses papéis já tenham subido demais, independentemente do resto do Ibovespa, e o que os aguarda pode ser uma “correção” (eufemismo econômico para “tombo”). Ou não também: pode ser que elas ainda tenham bastante espaço para subir mesmo. Mas aí já começa outro assunto. Aconteça o que acontecer, a única constante do mercado de ações é a imprevisibilidade. Essa é a natureza dele. E não levá-la em conta é tão irracional quanto julgar a bolsa toda pelo desempenho do Ibovespa. Ou tentar produzir um filho em um mês.
Um cachorro é algo tão artificial quanto um smartphone, ainda que mais esperto. É um ser que nós inventamos, à nossa imagem e semelhança.
A história do Adão canino começou no fim da última Era Glacial, 15 mil anos atrás. Era uma época em que a humanidade dava início a uma vida nova. Depois de passar mais de 100 mil anos vagando por todo canto, em busca de animais para caçar e vegetais para catar, aprendeu a plantar. Começava a agricultura. Agora os homens se juntavam em vilas.
Eram as primeiras cidades do mundo. E, como toda cidade do mundo, elas eram rodeadas por lixo: restos de comida, frutas podres, ossos… Mas o que a gente via como dejeto era almoço grátis para vários bichos. Entre os ratos e baratas que se aproveitavam dos restos estavam os lobos – que até hoje frequentam lixões, tanto que os fotógrafos de natureza selvagem vão a esses lugares quando querem conseguir imagens dos animais (tirando os detritos do enquadramento, claro).
Só que o lobo tende a fugir quando pessoas se aproximam. Um comportamento antissocial que não ajuda. Desse jeito, o bicho não conseguia ficar muito tempo perto de uma vila para comer nossas sobras. Isso até a lógica da evolução entrar em cena.
Os poucos lobos que nasciam sem ter medo de gente começaram a se alimentar melhor, já que não fugiam toda hora. Quem come melhor fica mais saudável, vive mais e faz mais sexo. Quem faz mais sexo deixa mais descendentes, passa seus genes para a frente. De carona, vão as características que fizeram o animal ter mais sucesso que os outros. No caso dos lobos comedores de lixo, a característica mais vital era uma só: não ter medo de gente.
Com o tempo (pouco tempo), já havia duas classes de lobos: os totalmente selvagens e os que viviam perto de pessoas, e que ficaram dependentes das aglomerações humanas para sobreviver. Além de ficarem mais amigáveis, esses bichos foram ganhando uma aparência bem distinta da dos lobos. Os lobos têm corpo forte e cérebro grande. São duas coisas essenciais para um predador que come búfalos e prepara estratégias de caça em grupo, mas uma bagagem inútil para um bicho que se profissionalizou em comer restos. Corpo e cérebro grandes eram desvantagem para ele, já que exigem bastante energia para funcionar. Muita energia significa muita comida. E quem precisava de muito mais que os outros para viver acabava morto de fome. Osso, afinal, é bem menos nutritivo que filé de bisão. Quem levou mais vantagem, então, foram os mais mirrados e de cérebro menor. Ou seja: o Adão dos cachorros era um lobo burro, fraco, catador de lixo e, acima de tudo, enganador.
É que esse novo bicho passou a se aproveitar de uma fraqueza nossa: adorar filhotes. Qualquer filhote de mamífero parece agradável para nós. Até os morcegos nenéns são fofos. Os olhos grandes e os traços delicados dos recém-nascidos de outras espécies nos fazem identificar neles as características dos nossos bebês. Afinal, todos nós, mamíferos, temos um único tataravô, um ancestral comum parecido com um rato que viveu há 60 milhões de anos. Já que somos praticamente irmãos de qualquer coisa que dê de mamar, gostamos naturalmente dos filhotes deles.
E eles de nós também. Se você pegar para criar um filhote de leão, de urso ou de lobo, ele vai ser uma graça no início da vida; tão brincalhão e inofensivo quanto uma criança humana. Por isso mesmo muita gente cria filhotes de animais selvagens como bicho de estimação. O problema é quando ele virar bicho grande: sempre vai parecer (e ser) algo ameaçador. Você não vai querer um leão adulto no seu apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando você chegar. Nem ele vai querer estar lá.
Mas aqueles lobos amigáveis queriam. Então aconteceu com eles uma coisa inédita no mundo animal. Os que tiveram mais sucesso – os mais bem alimentados, mais sexualmente ativos e com mais decendentes – foram os que continuaram com jeitão de filhote mesmo depois de adultos.
Natural: eram esses Peter Pans do mundo lupino os que mais agradavam os humanos. Mantendo a aparência infantil pela vida toda, eles garantiram a própria sobrevivência enganando nossos instintos. E suprimindo os deles: essa nova espécie, que 15 mil anos depois ganharia o nome de Canis familiaris, se separou totalmente do Canis lupus (o lobo propriamente dito). Desaprendeu a caçar para comer e se especializou em ganhar a comida de seres humanos. Em vez de formar matilhas, preferiu virar membro das nossas famílias. Desenvolveu o latido para chamar nossa atenção. E os instintos que sobraram foram os que parecem mais agradáveis para a gente. Por exemplo: sabe quando o cachorro vai lamber a cara do dono? É porque as lobas regurgitam comida para seus filhotes. Os cachorros não comem da boca de suas mães, mas mantiveram esse traço de comportamento selvagem-infantil com os humanos, já que para nós a coisa parece uma tentativa de beijo – não de comer vômito. Bom, na verdade sobraram mais instintos de lobo. Para caçar, por exemplo, o lobo combina várias habilidades inatas, que estão escritas em seus genes: procurar a presa, cercá-la, matar e trazer carne para o resto da matilha. Cada uma é um instinto independente. E todos precisam estar em sintonia para a caçada dar certo. Mas os cães não precisam caçar. Eles conseguem sua comida com as pessoas. Então alguns dos genes que eles herdaram dos lobos acabaram desligados. É por isso que alguns cães adoram perseguir e intimidar outros animais, por exemplo, mas não têm o instinto de matá-los. Isso também explica o comportamento daqueles cachorros que ficam correndo atrás de carro – e que não sabem o que fazer quando o carro para.
À primeira vista, essas crises de identidade podem parecer inúteis. Mas aprendemos a usá-las a nosso favor. Primeiro na caça: nada mais eficiente para o homem pré-histórico que sair para caçar com um bicho que sabe perseguir presas como se fosse um lobo, mas que, em vez de comê-las, só “traz a carne de volta para a matilha” – no caso, para os homens.
Por volta de 9000 a.C. surgiria aquela que provavelmente é a maior revolução na história da economia mundial até hoje: a criação de gado – que permitiu o acesso a quantidades antes inimagináveis de comida. E os instintos tortos dos cachorros foram fundamentais nesse mundo novo. Os que tinham mais jeito para cercar presas foram usados para conduzir rebanhos. Os mais agressivos eram ensinados a proteger as ovelhas e bois como se fossem sua própria matilha, defendendo-os inclusive de lobos.
A partir daí, essas habilidades viraram o grande critério de seleção entre os cães – os que mais se davam bem entre as pessoas eram os que trabalhavam melhor em suas áreas. Com mais comida e abrigo que os outros, esses eram os que passavam seus genes adiante com mais facilidade. Depois o homem acelerou o processo por conta própria, colocando os indivíduos mais eficientes (ou mais elegantes ou mais fofos) para se reproduzir entre si. Isso dividiu a espécie dos cães em tipos bem distintos, coisa que hoje chamamos de “raça”. Na Roma antiga, já havia raças de cães de guarda, de pastores, de cachorrinhos de colo… E o bicho deixava definitivamente de ser mais um animal para virar um membro oficial da humanidade.
Agora, que você está acordado, eles vão ser só dois pontos mesmo.
Mas no sono profundo é diferente. Se uma parte do seu cérebro imagina isso, outra área fica inspirada e cria um par de olhos.
Mais outra pega e coloca esses olhos numa face. Se o rosto sair feio, a área mais burra da mente se assusta. E solta um comando mandando você correr. Começa o enredo de um sonho. Louco, mas a realidade não é muito mais sã.
Pense em alguma coisa estúpida. “Martelo”, por exemplo. Não existe nenhum lugar na sua cabeça com a definição da palavra “martelo”. Tudo o que há é um mosaico de referências: a dor no dedo depois de uma martelada infeliz, a imagem da caixa de ferramentas do seu avô… Elas só se juntam de vez em quando para formar uma ideia sólida, igual acontece com os tijolos mentais que constroem os sonhos. A realidade e o sonhar, na verdade, se completam.
Funciona assim: você tem 3 vidas paralelas. Uma é esta aqui, de quando você está acordado. Outra é o sono. O sonho é a terceira: duas horas por noite em que o corpo está paralisado, mas algumas áreas do cérebro ficam mais aceleradas do que o normal. Só que de um jeito diferente: de dia, a parte do cérebro que mais trabalha é o gerentão da mente: o córtex pré-frontal, o setor de massa cinzenta logo atrás da sua testa responsável pelo pensamento racional. No sonho é o contrário: essa área apaga e o resto funciona a toda.
Para entender melhor, pense no cérebro como uma escola. De samba. São várias áreas (ou alas, no caso) fazendo tarefas diferentes. Na vida acordada, cada uma faz seu trabalho bonitinho, sob o comando do córtex pré-frontal. Mas à noite é anarquia pura. Livres do controle da gerência, áreas que nunca interagem de dia começam a trocar informações feito loucas. Tipo: passistas da ala das memórias antigas se embrenham na do córtex visual (a parte que processa imagens). Nisso as memórias incitam a produção de um cenário do passado. E você pode sonhar com um lugar bonito para onde foi aos 6 anos de idade. Depois gente de outra ala, a das emoções profundas, aparece por lá. Aí o amor da sua vida pipoca naquela paisagem. E a festa na sua cabeça vai entrando pela noite. Cada vez mais doida.
Chega uma hora que ninguém é de ninguém. Tudo fica misturado. Aí você pode sonhar que seu escritório fica num barco, e que esse barco navega numa avenida. Quer sair voando? Beleza. Nem o pensamento racional nem a gravidade estão lá para impedir. A memória de curto prazo, que depende diretamente do córtex pré-frontal, está desligada também. Então os rostos mudam o tempo todo, você não consegue ler direito… Até por isso seu avatar do sonho é sempre disléxico.
Parece só uma farra mental. Mas não: os sonhos têm um propósito. E justamente o mais inesperado: eles tecem a realidade.
Como? Para começar, eles resolvem seus problemas. Foi o que concluiu um dos neurocientistas mais respeitados do mundo, Robert Stickgold, de Harvard. A base para isso foi uma experiência simples, feita neste ano. A equipe de Stickgold colocou 100 voluntários para andar num labirinto virtual, um daqueles 3D, de jogos tipo Counter Strike. O grupo foi posto para treinar as manhas do labirinto, aprender a navegar nele, por algum tempo. Depois deram um intervalo de 5 horas e chamaram o pessoal de volta para uma prova: ver quem conseguia achar a saída do labirinto mais rápido. Mas tinha um detalhe: os pesquisadores colocaram metade dos voluntários para tirar um cochilo de duas horas. O resto ficou acordado. Na volta, o time dos dormidos se deu ligeiramente melhor que o dos despertos – demoravam alguns segundos a menos para encontrar a saída.
Até aí, nada de mais. Mas veio uma surpresa. Entre os que foram dormir, alguns sonharam com o jogo. Esses tinham virado Ayrtons Sennas do labirinto: melhoraram seu tempo 10 vezes mais que os outros. Os cientistas ficaram eufóricos. Mais ainda depois de ler os relatos dos sonhadores. “O jogo me fez sonhar com uma caverna que visitei – e no sonho ela era tipo… tipo um labirinto”, disse um. “Só ouvi a musiquinha do jogo no sonho”, falou outro. Mas como isso pôde melhorar o desempenho deles?
Para Stickgold, essas imagens mentais eram apenas uma sombra do que o cérebro dos voluntários fazia de verdade. E o que ele fazia era processar o labirinto no meio da balbúrdia dos sonhos. No caso do rapaz que sonhou com a caverna, por exemplo, estava claro que o jogo se fundia às memórias antigas dele. Era como se a experiência nova, a de aprender a se virar no labirinto, estivesse entrando no meio da escola de samba desgovernada.
Stickgold imagina que, quando o cérebro digere alguma experiência dessa forma, ele faz algo especial: extrai o que há de mais importante nessa experiência. Aí ela fica mais compreensível. E você aprende algo novo sem se dar conta.
A conclusão é ambiciosa. Para o neurocientista, isso acontece com tudo o que o cérebro capta. Nada deixa de passar pela festa dos sonhos. É nela que peças do presente se encaixam com as do passado, formando a imagem mental que temos do mundo. Nessa imagem está tudo o que você sabe, do significado da palavra “martelo” até seus amores e traumas.
Não há uma prova definitiva de que é assim mesmo que tudo funciona. Mas as experiências de laboratório indicam que sim. E as da vida real também. É comum, por exemplo, acordar com uma ideia nova. Prontinha. Já aconteceu com você? Com Paul McCartney aconteceu. Numa manhã de 1965, ele acordou com uma música na cabeça, foi para o piano e tirou a melodia. Ficou estarrecido. “Não acreditava que ela pudesse ser minha”, disse. Era. E acabou gravada assim:
Coincidência uma obra onírica ter virado o maior sucesso comercial da maior banda da história? Talvez não. Satisfaction, a mais célebre dos Stones, também apareceu num sonho – de Keith Richards.
Mas ninguém teve sonhos tão célebres quanto outro sujeito: Freud, que escreveu sobre o assunto usando em grande parte os próprios sonhos como base. Apesar dos avanços da neurociência, suas ideias sobre o mundo onírico continuam respeitadas. Faz sentido? Sim. E não.
A teoria de Freud: os sonhos são a manifestação de desejos reprimidos. Ponto. Vários sonhos, de fato, parecem ser isso mesmo. Se você está com sede, provavelmente vai sonhar que está bebendo água. Mas o problema nela é óbvio. A maior parte dos sonhos não tem nada a ver com desejo. Uns são tão banais que não podem entrar nessa classificação. Outros são pesadelos. Alguém deseja morrer afogado por uma daquelas ondas gigantes de sonho? Ele sabia que não. Mas batia o pé: os desejos estariam quase sempre disfarçados.
Sigmund explica: “Um dia falei para uma paciente, a mais inteligente das minhas sonhadoras, que os sonhos são a realização de desejos. No dia seguinte ela me contou ter sonhado que estava indo viajar com a madrasta”, escreveu em seu A Interpretação dos Sonhos, de 1899. “Mas eu sabia que, antes, ela tinha protestado contra o fato de que teria de passar o verão na mesma vizinhança que a madrasta. De acordo com o sonho, então, eu estava errado. Mas era o desejo dela que eu estivesse errado, e esse desejo o sonho mostrou realizado.” Acredite. Se quiser.
Por essas boa parte dos pesquisadores de hoje prefere tratar Freud mais como literatura do que como ciência. A gente sonha com água quando está com sede? Usando as analogias deste texto, a explicação seria: o pessoal do sistema límbico foi até a ala do córtex visual e disse que seu corpo estava com sede. O córtex pegou e criou uma imagem que tem a ver com sede. Sem drama. O sonho da paciente inteligente? Bom, às vezes uma viagem de trem com a madrasta é só uma viagem de trem com a madrasta…
Mas alguns cientistas defendem que as pesquisas modernas confirmaram muito do que Freud pensava. Allen Braun, um neurologista célebre, faz uma defesa sólida: “O fato de as regiões do cérebro responsáveis pela memória emocional e de longo prazo ficarem supercarregadas enquanto as do pensamento racional repousam pode ser visto em termos freudianos como o ‘ego’ saindo do comando e dando liberdade ao inconsciente”, diz. Mas ele também acha a teoria de Freud defasada.
A interpretação moderna dos sonhos é mais complexa. Quem estuda a mente hoje olha com atenção para os detalhes do sonho de cada pessoa, sem correr atrás de interpretações genéricas. Usar símbolos universais, do tipo “sonhar com água significa x ou y”, então, nem pensar. Isso seria subestimar o maior talento do cérebro sonhador : a capacidade de criar metáforas surpreendentes.
Ann Faraday, uma psicóloga americana especializada em sonhos, tem um bom exemplo dessa habilidade poética. Ela estava para ser entrevistada no programa de rádio de um certo Long John Nebel. Aí, na noite anterior, sonhou que um sujeito de ceroulas a ameaçava com uma metralhadora. Símbolo fálico, desejo sexual enrustido… Tem tudo aí. Mas não. A interpretação dela foi bem mais direta. Long John é “ceroula” em inglês, e o apresentador era conhecido por ser particularmente ferino. O sujeito de roupas íntimas, então, era uma metáfora que o cérebro dela arranjou para o nome do sujeito; e a metralhadora, uma para o medo que ela sentia de ser agredida na entrevista. Só isso.
E tudo isso. “Podemos aprender sobre as emoções que nos guiam na vida real se prestarmos atenção nos sonhos”, diz o psiquiatra J. Allan Hobson, de Harvard. O exercício aí é tentar decifrar as metáforas dos sonhos, encontrar quais elementos da sua vida estão por trás delas – uma tarefa profunda e pessoal em que nenhum dos dicionários de sonhos já feitos desde a invenção da escrita vai poder ajudar.
E nem sempre será fácil. A psicóloga americana Rosalind Cartwright, por exemplo, concluiu algo paradoxal com base em anos de estudos: que os rejeitados num relacionamento que mais sonham com o ex são os que se recuperam mais rápido do baque da separação. Isso casa bem com as pesquisas de Stickgold: talvez seja o cérebro maquinando formas de lidar com o rompimento, dando um jeito de aliviar a dor. Mas não dá para ter certeza, só especular. Ainda há certas coisas entre a vida real e os sonhos que estão além da ciência. Para começar, não dá nem para saber se você vai acordar daqui a pouco e descobrir que tudo isso foi um sonho. Mas ok. No fundo, dá na mesma.
Esqueci meu iPad num táxi na quarta-feira. Tinha pegado o carro no meio da rua, não num ponto. “Perdeu playboy” – nem em três encarnações eu encontraria o taxista de novo. Mas não: o Leonardo, filho dele, colocou uma foto do tablet no Facebook. E avisou na legenda que eu provavelmente trabalhava na Abril, já que o táxi me deixou lá:
O pessoal da empresa viu e começou a compartilhar. Àquela altura eu mesmo não tinha me dado conta do esquecimento. Estava carregando um monte de coisa. Passou batido. Achava que nem tinha tirado o iPad de casa… Só daria falta dele à noite. Mas antes disso uma amiga minha reconheceu o tablet na timeline dela: “Ei! Esse iPad com a capa detonada só pode ser o seu!”.
Era. E hoje fui buscar o aparelho na casa do Miranda, o taxista:
Se eu tivesse perdido o iPad, ficaria bravo, lógico, mas passaria. Eu esqueceria tudo rapidinho. Mas do ato deles dois eu vou lembrar pra sempre.
Valeu, Miranda. Valeu, Leonardo. É gente que nem vocês que faz o mundo andar pra frente.
Alexandre Versignassi
Editor da Superinteressante. Escreveu o livro Crash - Uma Breve História da Economia, finalista do Prêmio Jabuti 2012. Acredita que física, cerveja, biologia, pebolim e ciências econômicas são assuntos intercambiáveis. Aqui ele tenta provar essa tese. versignassi@gmail.com
Como lidar com a tristeza
Vivemos tempos de prosperidade, mas nunca tanta gente esteve tão deprimida. Afinal, o que está acontecendo conosco? Por que estamos tão tristes?